Críticas por Pablo Villaça

Poster: O Que Te Faz Mais Forte
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
08/02/2018 21/09/2017
Distribuidora
Paris Filmes

 

 


O Que Te Faz Mais Forte
Stronger

O Que Te Faz Mais Forte

Dirigido por David Gordon Green. Roteiro de John Pollono. Com: Jake Gyllenhaal, Tatiana Maslany, Miranda Richardson, Richard Lane Jr., Nate Richman, Lenny Clarke, Patricia O’Neil, Clancy Brown, Katharine Fitzgerald, Danny McCarthy, Frankie Shaw, Carlos Sanz.

Erin Hurley é uma jovem ativa e independente que tem o sonho de concluir a maratona de Boston – algo que se prepara para fazer na edição de 2013. Cansada da falta de iniciativa e da imaturidade do namorado, ela termina o relacionamento, mas ele, esperançoso em reatar, decide esperá-la na linha de chegada do evento e acaba tornando-se vítima da bomba caseira detonada por dois terroristas, perdendo as pernas na explosão. Sentindo-se culpada, Erin abandona o emprego e passa a se dedicar exclusivamente ao rapaz, ajudando-o a se adaptar à sua nova realidade e lidando com o mergulho deste no alcoolismo e na depressão, impressionando por sua força e determinação.

Infelizmente, não é ela a protagonista de O Que Te Faz Mais Forte, mas o namorado.

Baseado na autobiografia de Jeff Bauman (o que explica por que este é o centro da narrativa, não Erin), o roteiro do estreante John Pollono se concentra em acompanhar o rapaz (Gyllenhaal) enquanto este enfrenta as dificuldades de alguém atirado numa situação tão extrema, falhando em perceber que, apesar de sua trajetória potencialmente dramática, o sujeito jamais se revela uma figura particularmente interessante, ao passo que sua companheira (Maslany) conta com todas as características de uma heroína em meio a uma jornada tocante de dor e sacrifícios.

Dirigido por David Gordon Green sem qualquer sutileza, o longa já tem início com as vozes de âncoras de tevê prevendo “um dia perfeito” e afirmando que “este ano será bom”, buscando martelar no espectador uma ironia óbvia diante do que já sabemos que irá ocorrer dali a alguns momentos. Esta mesma estratégia narrativa de anunciar explicitamente suas mensagens e emoções mostra-se presente na maneira como a família de Jeff é retratada: sempre gritando e brigando uns com os outros para demonstrar como na verdade se amam e exibem o “calor humano” das classes trabalhadoras das periferias dos grandes centros norte-americanos e que costumam ser chamadas grosseiramente de “white trash” (pensem na mãe e nas irmãs do personagem de Mark Wahlberg em O Vencedor, mas com uma Miranda Richardson caricatural, sempre fumando, tossindo, bebendo e dizendo palavrões em vez da composição bem mais complexa de Melissa Leo).

E o mais lamentável é que o filme tinha potencial para desenvolver uma discussão interessante sobre heroísmo (ou “heroísmo”) e a necessidade de símbolos em momentos de consternação geral. Sem compreender por que é visto como herói apenas por ter sobrevivido a um atentado e descrito um dos terroristas para o FBI, Jeff é obrigado a lidar não só com o peso de sua tragédia pessoal, mas também com a obrigação de ser a imagem da esperança, da perseverança, da vitória dos bons sobre os maus. Porém, se em público ele se esforça para fazer sinais de positivo e sorrir, a realidade é radicalmente diferente longe dos holofotes: ele se torna dependente de outras pessoas para realizar ações básicas como ir ao banheiro ou tomar banho, as dores são frequentes e o processo de reabilitação é árduo.

Competente ao retratar estes dilemas em passagens mais intimistas, Jake Gyllenhaal – um intérprete que normalmente admiro – acaba se rendendo ao histrionismo nas cenas com maior potencial dramático, levando o público a ver não o personagem, mas a atuação por trás deste. É um erro de modulação que Gyllenhaal comete ocasionalmente (como em Okja e Nocaute) e que aqui prejudica a performance como um todo. É curioso, por exemplo, perceber o número de vezes em que o ator ergue os braços para simular comemoração e mostra o polegar de forma característica, permitindo que percebamos como provavelmente viu o verdadeiro Bauman fazendo aqueles gestos e decidiu replicá-los com a maior frequência possível. Em contrapartida, Tatiana Maslany, que eu conhecia apenas do ótimo Corações Gelados (eu sei, tenho que ver a série Orphan Black), cria uma figura multidimensional que se vê presa entre o senso de obrigação, a culpa, o amor, a impaciência e a frustração crescente ao constatar como a tragédia não alterou de fato o que a incomodava no namorado antes do atentado – e é comovente vê-la lutando entre o desejo de permanecer ao lado de Jeff e os constantes desapontamentos que este lhe causa.

Sempre eficiente em seus efeitos visuais, que transformam Gyllenhaal em um amputado convincente (é uma coincidência interessante que o verdadeiro Jeff Bauman tenha feito uma piada sobre o Tenente Dan de Forrest Gump, já que a tecnologia criada para remover digitalmente as pernas de Gary Sinise é fundamental aqui), O Que Te Faz Mais Forte peca por soar apelativo aqui e ali ao criar planos cujo único propósito parece ser o de explorar a mutilação sofrida pelo protagonista. Por outro lado, as sequências envolvendo os profissionais que cuidam do rapaz (médicos, enfermeiros, fisioterapeutas) trazem sempre uma autenticidade notável, destacando-se a cena na qual as bandagens das pernas de Bauman são removidas pela primeira vez – e a decisão do cineasta de manter o rosto de Gyllenhaal em primeiro plano, com a ação fora de foco ao fundo é brilhante. Aliás, é justamente por acertar tanto em passagens como esta que David Gordon Green decepciona tanto ao tropeçar na artificialidade de momentos como aquele que envolve um policial pedindo autógrafo ou o terrível quadro no qual vemos toda a família do protagonista agrupada ao pé de sua cama de hospital.

Mas um dos aspectos mais problemáticos da obra é mesmo sua incapacidade de definir como se posicionar sobre as discussões que levanta, optando por resolvê-las abruptamente e de maneira implausível. Durante a maior parte da projeção, por exemplo, a personagem de Miranda Richardson se apresenta como uma figura mais preocupada com a fama recém-conquistada do que com os efeitos que esta tem sobre Jeff, como se constatasse que só conseguiu “ser alguém” por ter um filho cujas pernas foram destruídas por terroristas – uma postura que se altera radicalmente, de forma súbita, em uma rápida conversa dentro de um carro, como se o filme julgasse ter chegado de uma hora para outra o momento de solucionar aquela subtrama. Para piorar, a própria relação entre o casal principal é amarrada de modo anticlimático e frágil, tentando forçar uma resolução que o filme sabe ser falsa.

Preso a um protagonista passivo, desmotivado e irritante na maior parte do tempo (mesmo que tenha motivos para isso), O Que Te Faz Mais Forte erra ao girar em torno de um jovem que era aborrecido antes de virar um símbolo - e que assim permaneceu - em vez de se concentrar na fantástica mulher que, a julgar por este filme, provavelmente não merecia ter ao seu lado.

07 de Fevereiro de 2018

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.