Críticas por Pablo Villaça

Poster: Cloverfield - A Partícula de Deus
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
05/02/2018 04/02/2018
Distribuidora
Netflix

 

 


Cloverfield - A Partícula de Deus
The Cloverfield Paradox

Cloverfield - A Partícula de Deus

Dirigido por Julius Onah. Roteiro de Oren Uziel. Com: Gugu Mbatha-Raw, David Oyelowo, Daniel Brühl, Ziyi Zhang, Chris O’Dowd, John Ortiz, Aksel Hennie, Elizabeth Debicki, Donal Logue, Clover Nee e Roger Davies.

Cloverfield - A Partícula de Deus, terceiro filme da franquia iniciada em 2008 com Cloverfield – Monstro, parece pertencer à série tanto quanto As Aventuras de Paddington pareceria. Se na continuação Rua Cloverfield, 10 a estratégia de pegar uma história pré-existente e adaptá-la para o universo dos monstros gigantescos funcionou, aqui o artifício fica mais e mais óbvio à medida que a narrativa avança, denunciando o oportunismo dos produtores ao buscarem salvar um roteiro problemático enfiando-o à força numa marca já estabelecida.

Aliás, estou sendo generoso ao classificar o trabalho do roteirista Oren Uziel como “problemático”, quando o termo ideal seria “pavoroso”. Abrindo a trama com o anúncio de que a Terra vive uma crise de energia que deixará o planeta sem recursos dentro de cinco anos, o filme apresenta como possível solução a ativação de um colisor de partículas construído na órbita terrestre e que suprirá todas as necessidades energéticas de oito bilhões de humanos “gratuitamente”. Para cumprir este objetivo, porém, ele precisa funcionar primeiro – e é para isso que uma equipe internacional é enviada para a estação orbital acoplada ao equipamento. Liderando a equipe, o comandante Kiel (Oyelowo) deve arrefecer os ânimos entre o engenheiro alemão Schmidt (Brühl) e o astronauta russo Volkov (Hennie), certificando-se também de que o escocês Mundy (O’Dowd) cumpra suas tarefas em meios às inúmeras piadinhas que parece contratualmente obrigado a fazer. Completando a equipe estão o médico brasileiro Monk (Ortiz) – cujo apelido diz respeito à sua religiosidade -, a engenheira chinesa Tam (Zhang) e a protagonista Hamilton (Mbatha-Raw), cujo marido Michael (Davies) permaneceu em solo e vive sua própria aventura ao resgatar uma garotinha (Nee) em meio à destruição provocada por monstros.

Sim, monstros. Porque, vejam só, o tal colisor de partículas acaba “desfazendo a membrana espaço-tempo” e provocando interferências multidimensionais, causando problemas misteriosos na estação e trazendo criaturas gigantescas para o planeta – e esta é a tênue ligação que os realizadores fazem entre este longa e os outros dois da série. Claro que qualquer um que esteja prestando a mínima atenção logo perceberá que as duas linhas narrativas parecem não se encaixar e que todas as cenas envolvendo Michael são absolutamente dispensáveis, soando como um adendo feito ao roteiro original para transformá-lo em um “Cloverfield”. Aliás, a subtrama na Terra é tão vazia que seu principal objetivo (salvar a menina) é basicamente alcançado através de uma mensagem de texto.

Há também – se formos nos apegar a questões menores como “coerência” e “lógica” – o fato de a tal crise energética jamais ser mencionada nos longas anteriores, o que sugere que as mentes por trás do projeto não se esforçaram taaanto assim na tarefa de adaptar a trama. Por outro lado, é curioso notar como o roteiro consegue ser tão confuso mesmo usando mais diálogos expositivos do que três Christopher Nolans juntos, repetindo informações no espaço de poucos minutos – e o exagero é tamanho que, em certo momento, até mesmo um personagem parece perder a paciência ao ouvir algo que já sabia, soltando um “Eu lembro” quando a protagonista explica só ter mais algumas oportunidades para testar o colisor.

Representando um dos maiores desperdícios de elenco dos últimos anos, A Partícula de Deus realiza as proezas de escalar Ziyi Zhang e tratá-la como uma atriz sem importância; de transformar Chris O’Dowd, um ator normalmente adorável, em uma figura insuportavelmente chata; de eliminar o carisma natural de Daniel Brühl; e, claro, de criar um personagem brasileiro cujo sobrenome é “Acosta” (eu verifiquei; é raríssimo aqui) e que é interpretado por um ator norte-americano de descendência porto-riquenha. Como se não bastasse, o filme obriga David Oyelowo a interpretar uma figura genérica (ao vê-lo chorar escondido, imaginei que o comandante teria alguma complexidade emocional/psicológica, mas estava errado), comprova que os russos voltaram a ser os vilões favoritos de Hollywood e sabota a talentosa Gugu Mbatha-Raw com uma protagonista que se resume a uma coleção de clichês – entre estes, o da heroína que perdeu um(a) filho(a) e que pode ser visto, por exemplo, em obras como A Chegada (onde é muito bem empregado), Gravidade e na versão estendida de Aliens – O Resgate.

No entanto, o elemento mais questionável deste novo “Cloverfield” é seu esforço constante para provocar o riso e que, além de não funcionar, serve apenas para destruir qualquer atmosfera de tensão que a história poderia gerar – e, entre estas gagues, as piores são inquestionavelmente aquelas envolvendo um braço (sim, um braço). Em certo ponto, por exemplo, enquanto um confronto que deveria ser importante ocorre, vemos o tal membro e sua mão correspondente tamborilando ao fundo, o que demonstra uma total falta de compreensão por parte do diretor Julius Onah acerca do material que está conduzindo.

No restante do tempo, quando não está sendo óbvio (ao vermos uma personagem se aproximar de uma parede ao ouvir um som, podemos prever o exato instante no qual o “susto” ocorrerá), A Partícula de Deus é apenas absurdo, como ao mostrar as barras que seguram os jogadores de uma mesa de totó girando descontroladamente para revelar... o quê? (Não, sério: o quê? Assista ao filme e tente responder.) Já em outra cena, o material usado para vedar superfícies parece ganhar vida sem qualquer explicação – a não ser que “coisas estranhas multidimensionais estão rolando” seja uma explicação satisfatória. Além disso, é claro que o personagem russo possui matrioskas em seu aposento, que um personagem decide se sacrificar pelo bem comum (ah, nem venha com o papo de “spoilers”; este tipo de coisa parece ser obrigatório em longas do gênero) e que uma luz roxa se torna branca ao deixar de representar perigo.

Completando a bagunça no último ato, quando parece esquecer toda a questão envolvendo os eventos “multidimensionais” para se dedicar ao velho recurso do traidor enlouquecido, Clovervield - A Partícula de Deus é uma mistura ridícula de Alien, O Nevoeiro, Vida, O Enigma do Horizonte e... A Família Addams. (Não me perguntem por que a tal mão parece ter inteligência e independência.)

E como aparentemente basta meter a palavra “Cloverfield” em um projeto para transformá-lo em um capítulo da série, já estou me preparando psicologicamente para o inevitável lançamento de Velozes e Furiosos 11 – Operação Cloverfield. Porque o que importa é a família. Ou algo assim.

05 de Fevereiro de 2018

(Ei, uma pergunta: você gosta dos textos que lê aqui? Bom, então é importante que saiba que o site precisa de seu apoio para continuar a existir e a produzir conteúdo de forma independente. Para saber como ajudar, basta clicar aqui - só precisamos de alguns minutinhos para explicar. E obrigado desde já pelo clique!)

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.