Críticas por Pablo Villaça

Poster: A Forma da Água
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
01/02/2018 08/12/2017
Distribuidora
Fox

 

 


A Forma da Água
The Shape of Water

A Forma da Água

Dirigido por Guillermo del Toro. Roteiro de Guillermo del Toro e Vanessa Taylor. Com: Sally Hawkins, Michael Shannon, Richard Jenkins, Michael Stuhlbarg, David Hewlett, Octavia Spencer e Doug Jones.

Já em seus primeiros minutos, A Forma da Água menciona príncipes e princesas através da voz de um narrador que nos promete uma história única de amor ameaçada por um monstro, criando uma introdução que deixa clara para o espectador a natureza de fábula clássica que o filme adotará ao longo das duas horas seguintes. E, de fato, este novo trabalho do mexicano Guillermo del Toro poderia perfeitamente vir na forma de uma animação da Disney – isto é, caso não tivesse certa parcela de violência gráfica e, claro, cenas com fortes conotações sexuais.

Combinação harmoniosa de O Monstro da Lagoa Negra e A Bela e a Fera – vistos através do filtro particular de del Toro (e da co-roteirista Vanessa Taylor) -, A Forma da Água acompanha uma faxineira, Elisa Esposito (Hawkins), que trabalha em um laboratório secreto ligado ao governo norte-americano e no qual uma criatura aquática misteriosa (Jones) é mantida para estudos. Muda, a mulher estabelece uma comunicação não-verbal com a cobaia que resulta num encantamento mútuo. Assim, quando o responsável pela segurança do local, o cruel Strickland (Shannon), convence seus superiores a permitirem que a criatura seja executada e dissecada, Elisa pede ao melhor amigo, Giles (Jenkins), que a ajude a salvá-la, contando ainda com o apoio da também faxineira Zelda (Spencer) em sua missão.

Abraçando a fantasia e o horror de sua história com o apuro visual que sempre exibe em seus projetos, o diretor usa o filme como uma declaração de amor ao próprio Cinema e ao poder que este possui de nos transportar para universos tão distintos do nosso cotidiano – e, portanto, é apenas natural que em algumas cenas a protagonista surja (sozinha ou com Giles) assistindo a musicais clássicos na tevê em preto-e-branco do amigo (a trama se passa na década de 60). Aliás, tampouco é surpreendente que, aqui e ali, Elisa leve algo do romantismo dos velhos filmes para sua própria vida, como, por exemplo, ao repetir o sapateado de Bill Robinson e Shirley Temple em A Mascote do Regimento, numa referência que se torna ainda mais apropriada quando nos lembramos de que aquele foi o primeiro número de dança inter-racial do Cinema norte-americano (obviamente, sem qualquer conotação romântica, já que Robinson tinha 71 anos e Temple, 7). Do mesmo modo, é interessante como a vida interior de Elisa, quando tenta manifestar seu amor pelo Homem Anfíbio, ganhe a forma de um musical de Fred Astaire e Ginger Rogers, numa breve e bela sequência de dança em preto-e-branco.

As cores, por sinal, são um elemento importantíssimo na obra de del Toro, que sempre as emprega de maneira profundamente expressiva – e aqui não é diferente. O Cinema, por exemplo, surge constantemente associado à cor vermelha, de sua marquise às suas poltronas, passando pela porta de entrada, o que expõe não só a paixão do diretor pela Arte, mas sua visão acerca dos intensos sentimentos que esta desperta. Não à toa, os figurinos da protagonista passam por transformações que evidenciam sua trajetória emocional, iniciando em tons verdes e tristes e cedendo lugar gradualmente ao vermelho: a princípio, apenas com um arco de cabelo; mais tarde, com os vestidos e os sapatos. O verde, diga-se de passagem, funciona como cor-base de toda a narrativa (refletindo o tom da água em torno do Anfíbio e de sua pele), estabelecendo-se já nos créditos iniciais e percorrendo a maior parte dos cenários e elementos cênicos, criando também um contraste importante com o amarelo que marca a residência de Strickland e de suas roupas quando está com a família (quando está trabalhando, por outro lado, o personagem de Michael Shannon é constantemente visto com ternos, chapéus e gravatas escuras, expondo sua natureza ameaçadora).

Por falar em Strickland, é fascinante observar como Shannon traz complexidade a uma figura que poderia ter se convertido em um vilão unidimensional (o nome do ator surge nos créditos iniciais no exato momento em que a narração menciona o “monstro”): exalando perigo e ódio, o personagem ganha também uma camada reveladora de frustração, permitindo que enxerguemos parte do que move suas ações repugnantes. Obviamente acreditando merecer mais do que alcançou na vida (em certo ponto, ele lê um livro de autoajuda sobre o “poder do pensamento positivo”), ele vê o próprio patriotismo como substituto de qualquer outra virtude – e é curioso como seu lar, o visual de sua esposa e o comportamento de seus filhos remetem ao clichê publicitário do american way of life mesmo que, na prática, ele seja pouco mais do que um segurança militarizado que dificilmente pode pagar o carro que compra como forma de tentar projetar a imagem do sucesso que gostaria de ter. Misógino e racista (“Isso não é comum no seu povo”, ele diz a Zelda – que é negra - quando esta revela ser filha única), Strickland é o tipo de indivíduo que tem na religião não um conforto espiritual, mas um comprovante de sua superioridade moral (“Fomos criados à imagem do Senhor”, ele diz à faxineira, completando: “Ele se parece comigo. E com você. Um pouco mais comigo, eu diria”).

Enquanto isso, Octavia Spencer confere a Zelda calor humano e carisma, atuando também como alívio cômico diante dos elementos mais pesados da narrativa; não é uma atuação diferente do que Spencer já ofereceu algumas vezes, mas é certamente eficaz. Já Richard Jenkins, um ator que sempre brilha na sutileza de suas composições, encarna Giles com uma constante melancolia subjacente que, no fim das contas, se torna o principal motor de sua determinação em ajudar a amiga. E se Michael Stuhlbarg opera mais um de seus milagres ao transformar um personagem minúsculo em um indivíduo cheio de nuances, Doug Jones, colaborador habitual de del Toro, segue fenomenal em sua expressividade física, conferindo elegância e vulnerabilidade ao Anfíbio e traduzindo em gestos os sentimentos da criatura.

No entanto, é indiscutível que o destaque de A Forma da Água é mesmo a performance de Sally Hawkins: doce, triste, intensa e apaixonada, Elisa é uma mulher só, mas não solitária. Apreciando a companhia de Giles e Zelda e agindo sempre como uma boa amiga, ela atravessa a vida dentro de uma rotina que lhe confere estrutura, mas que não a impede de buscar o amor e/ou o prazer (e que ela sempre se masturbe sob a água é um detalhe divertido da narrativa). Muda desde o nascimento, ela não se torna menos articulada por isso – e a expressividade de Hawkins em um monólogo feito através da linguagem de sinais representa um dos melhores momentos do filme.

Empregando sua essência de fábula para enriquecer tematicamente a história, o filme é contemporâneo em sua discussão sobre o preconceito e a intolerância – e não é coincidência que o vilão, um homem branco heterossexual, seja contraposto a um homossexual e a duas mulheres (uma delas negra) em sua tentativa de destruir um ser que julga diferente daquilo que seu Deus consideraria como “humano” – e aqui é imprescindível lembrar como, em certo momento, vemos na tevê de Giles a imagem de uma telejornal exibindo cenas de repressão racial.

E, no entanto, mesmo com todo este subtexto e com a violência que retrata, A Forma da Água é provavelmente o filme mais doce de Guillermo del Toro. O que diz muito sobre a sensibilidade artística deste cineasta atípico e brilhante.

03 de Fevereiro de 2018

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.