Críticas por Pablo Villaça

Poster: Me Chame pelo Seu Nome
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
18/01/2018 27/10/2017
Distribuidora
Sony

 

 


Me Chame pelo Seu Nome
Call Me By Your Name

Me Chame pelo Seu Nome

Dirigido por Luca Guadagnino. Roteiro de James Ivory. Com: Timothée Chalamet, Armie Hammer, Michael Stuhlbarg, Amira Casar, Esther Garrel, Vanda Capriolo, Antonio Rimoldi, Victoire Du Bois.

Eu acho que você pode me machucar e não quero ser machucada”, ela diz para o rapaz com quem tem trocado beijos e abraços ao explicar por que esconde deste parte de quem é. No segundo seguinte, ela pede mais um beijo; o temor de ser magoada sendo ignorado em prol do desejo.

Trata-se de uma breve passagem de Me Chame pelo Seu Nome envolvendo o protagonista, Elio (Chalamet) e uma paquera de verão, a italiana Marzia (Garrel), mas que contém a essência de todo o filme – pois, assim como a garota, o próprio Elio se deixará levar pela atração que sente por Oliver (Hammer), um jovem acadêmico selecionado por seu pai, um professor de arqueologia (Stuhlbarg), para auxiliá-lo durante o verão. Ao longo das semanas que passam juntos, os dois rapazes encontram interesses em comum e divergências; reconhecem a atração mútua e também os riscos que esta traz na Itália de 1983, onde a história se passa; e descobrem que com o amor surge a dependência da presença do outro – e, com a dependência, a certeza de um sofrimento futuro inevitável.

Adaptado por James Ivory a partir do livro de André Aciman, Me Chame pelo Seu Nome mergulha o espectador em uma atmosfera sensual desde o princípio graças à paleta quente, de cores fortes, empregada pelo diretor de fotografia tailandês Sayombhu Mukdeeprom, que com isso transforma as bucólicas locações em um cenário ideal para jovens e intensos romances – e é interessante observar como este vigor é equilibrado por planos mais contemplativos, como aquele de um velhinho deitado na grama, rindo de uma discussão que ocorre ao lado, e que evocam calma e paz importantes na construção de uma narrativa dominada por sentimentos poderosos.

Esta é uma contraposição, diga-se de passagem, que encontra-se presente nas próprias figuras centrais do filme: vivido por Armie Hammer como um homem de apetites intensos e, por isso mesmo, lascivos (notem a voracidade com que ele devora o café da manhã ou bebe um copo de suco), Oliver é imponente em seu físico e em sua personalidade expansiva, ao passo que Elio ganha o corpo magro de Timothée Chalamet, que, projetando o pescoço para a frente, torna-o mais desajeitado e sugere certa insegurança. De modo similar, se Oliver projeta a voz e gesticula ao falar, Elio quase sussurra as palavras e mostra-se contido boa parte do tempo. Por outro lado, é curioso notar como é este quem parece tomar a iniciativa de abordar aquele, que, por sua vez, soa hesitante em se entregar (após um beijo contido, Oliver tenta interromper o que está para acontecer e, revelando muito sobre si mesmo e sobre o mundo em que vive, diz: “Até agora nos comportamos. Fomos bons. Não fizemos nada que nos envergonhe. Vamos continuar assim. Eu quero ser bom.”).

Porém, tentar impedir uma atração física tão vívida e ainda fortalecida por uma compatibilidade intelectual inquestionável é uma tarefa normalmente fadada ao fracasso – e, refletindo a imagem da estátua resgatada pela equipe do professor Perlman, um desejo como aquele não permanece submerso quando há uma curiosidade tão grande para desvendar sua beleza. Assim, é natural que Oliver permaneça sempre presente na mente de Elio, o que é ilustrado pelos frequentes planos nos quais o primeiro pode ser visto ao fundo, fora de foco, enquanto o segundo se posiciona próximo à câmera. Além disso, o diretor Luca Guadagnino insinua a tentação despertada por pequenos gestos, como um toque nas costas do outro, ou mesmo em peças de roupa, como uma sunga displicentemente deixada para secar.

Aliás, o melhor aspecto da abordagem de Guadagnino reside em sua compreensão de que todo este processo de descoberta do amor pode ser complicado, confuso, mas é, acima de tudo, bom, prazeroso. Elio não é torturado pelo que sente ou por perceber sua atração por alguém do mesmo sexo – Me Chame pelo Seu Nome não é um filme que se preocupa ostensivamente com a homofobia -; em vez disso, é sua curiosidade acerca de Oliver e do que este lhe desperta que move o protagonista. Ao marcar seu primeiro encontro “oficial” com o outro, Elio não sente culpa ou angústia, apenas ansiedade para que a hora de vê-lo chegue logo.

A dinâmica entre Chalamet e Hammer, por sinal, é fundamental para que o espectador sinta a química, o tesão e a afeição existentes entre os personagens, sendo contagiantes o carinho que exibem um com o outro e a maneira natural como brincam, conversam e se tocam, como se sempre houvessem se conhecido. À vontade com o que sentem (física e emocionalmente) depois dos tropeços iniciais, Elio e Oliver enxergam um no outro uma extensão de si mesmos – e, portanto, quando o pedido que dá título ao filme (e que é complementado por “e eu te chamarei pelo meu”) é finalmente ouvido na tela, compreendemos a essência romântica da frase e como podem confiar ao outro a própria identidade – uma trajetória iniciada no instante em que contornam um monumento dedicado a uma das mais sangrentas batalhas da Primeira Guerra, num simbolismo curioso, e se reencontram do outro lado (uma cena que Guadagnino roda em um longo plano que dura mais de quatro minutos).

Pois Me Chame pelo Seu Nome não é só uma história de amor; é, também (principalmente?), uma narrativa de autodescoberta, sendo através de Oliver que Elio aprenderá não apenas sobre o sentimento de entrega absoluta, mas sobre si mesmo – e não é à toa que, ao longo da projeção, ele cria variações para uma cantata de Bach, já que esta exploração musical é um reflexo de sua busca pela própria voz. Seu tesão por Marzia, por exemplo, não é menos real do que aquele que sente por Oliver; tampouco é suficiente, já que vem desacompanhado de todos os demais elementos que tornam o norte-americano único para o jovem.

E isto é algo que não passa despercebido aos que o cercam – sejam estes seus pais, os empregados da família ou Marzia. Aliás, um dos componentes mais tocantes do filme é a natureza amorosa do professor Perlman, que Michael Stuhlbarg interpreta com imenso calor humano e que culmina num monólogo que emociona pela honestidade que denota e pela vulnerabilidade que sugere.

Uma vulnerabilidade evocada brilhantemente pelo plano que encerra a narrativa e que, na complexidade dos sentimentos que atira sobre o espectador, é a mais pura manifestação de como há uma profunda beleza até mesmo no mais doloroso dos amores. Pois, como aponta o sábio professor, vinculada a esta dor encontra-se a alegria do que foi sentido, o prazer que foi vivido e a lembrança de como foi único experimentá-los.

27 de Janeiro de 2018

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.