Críticas por Pablo Villaça

Poster: Sem Fôlego
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
25/01/2018 20/10/2017
Distribuidora
H20

 

 


Sem Fôlego
Wonderstruck

Sem Fôlego

Dirigido por Todd Haynes. Roteiro de Brian Selznick. Com: Millicent Simmonds, Oakes Fegley, Jaden Michael, Damian Young, James Urbaniak, Tom Noonan, Ekaterina Samsonov, Morgan Turner, Amy Hargreaves, Julianne Moore e Michelle Williams.

A forma narrativa cinematográfica conta com alguns padrões clássicos de estrutura e desenvolvimento, sendo o mais comum deles o que se baseia em uma lógica de causas e consequências. Há outros empregados com menos frequência, claro – e um deles é o paralelismo, que ancora sua narrativa não em torno de incidentes que levam a outros, mas sim em comparações recorrentes entre duas linhas diferentes. Pois é justamente esta estrutura que Todd Haynes adota em seu novo trabalho, Sem Fôlego, se saindo extraordinariamente bem nos dois primeiros atos até que, ao tentar coalescer as subtramas no terceiro, descarrilha de maneira decepcionante.

Roteirizado por Brian Selznick a partir de seu próprio livro, o filme acompanha o garotinho Ben (Fegley), que, depois de perder a mãe (Williams) em um acidente, passa a morar com os tios e os primos. Certa noite, ao descobrir um endereço em um livro que pertencia à mãe, o menino suspeita se tratar do contato do pai que nunca conheceu e, ao tentar ligar para este, é vitimado por uma descarga elétrica e perde a audição – o que apenas o deixa mais determinado a fugir com o propósito de encontrá-lo. Intercalada a estes acontecimentos há a história da pequena Rose (Simmonds), que, em 1927, coleciona todas as notícias publicadas sobre a famosa atriz Lillian Mayhew (Moore), decidindo deixar sua casa para procurá-la em Nova York (uma jornada que se torna mais difícil em função de sua surdez).

A partir daí, Haynes e o excelente montador brasileiro Affonso Gonçalves iniciam uma série de paralelos entre os dois personagens-mirins e suas trajetórias: além da questão auditiva e da fuga de casa, ambos visitam o Museu de História Natural e, em certo momento, testemunham simultaneamente uma forte tempestade (Rose, em um filme; Ben, do lado de fora de sua janela). Da mesma maneira, logo que vemos o anúncio da chegada do som ao Cinema, em 1927, Ben perde a audição em 1977, num contraste que igualmente revela o cuidado da carpintaria dramática do longa.

Mas a estratégia estilística de Haynes é mais ambiciosa e complexa: enquanto a fotografia de Edward Lachman retrata a década de 70 em cores saturadas e quentes na maior parte do tempo, as sequências ambientadas na década de 20 são registradas em preto-e-branco e – o mais interessante – sem diálogos (e sem intertítulos; os formalistas amariam esse detalhe). Em vez disso, o sempre brilhante compositor Carter Burwell cria uma trilha que inclui representações de alguns dos sons mais marcantes destas passagens, como o bater de uma porta ou um gesto abruto feito por alguém. Esta decisão, por sinal, é duplamente eficaz, já que emula as técnicas cinematográficas da época e sugere o universo silencioso no qual Rose vive. (E é triste perceber que, fã de Cinema, ela se tornará ainda mais isolada quando os filmes passarem a conter diálogos, já que isto a impedirá de acompanhá-los.) Para completar, o design de produção faz um trabalho excelente de recriação de épocas, ao passo que a sutil maquiagem utilizada para modificar levemente o formato dos olhos de Julianne Moore representa um detalhe admirável e importantíssimo.

Assim, é uma pena que o roteiro passe a apresentar tantos problemas a partir da segunda metade da projeção, começando pela longa e desnecessária sequência ambientada no museu, durante à noite, e que obriga um personagem a ocultar certa informação apenas para estender a narrativa (aliás, este mesmo personagem depois retornará de maneira artificial e implausível, protagonizando até um ridículo flashback para explicar esta sua volta). Contudo, o tropeço mais grave de Sem Fôlego reside na maneira como amarra as pontas de suas duas linhas narrativas principais, já que investe num longo monólogo expositivo que chega a conter uma absurda “pausa” dramática quando certa figura deixa que outra leia um texto apenas para, em seguida, entregar as páginas restantes.

Amarrado por um plano final que tenta soar comovente quando é apenas manipulativo, o filme ainda falha em explicar por que, afinal, Ben não foi procurado por alguém que sabia de sua existência e parecia ter vontade de conhecê-lo, deixando esta tarefa para uma criança tão jovem – e esta pergunta, quando levada em consideração dentro do contexto do ato final da projeção, acaba por fragilizar ainda mais o resultado alcançado por uma obra que vinha caminhando tão bem até chegar ali.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Cannes 2017.

19 de Maio de 2017

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.