Críticas por Pablo Villaça

Poster: Corpo e Alma
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
21/12/2017 02/03/2017
Distribuidora
Imovision

 

 


Corpo e Alma
Teströl és lélekröl

Corpo e Alma

Dirigido e roteirizado por Ildikó Enyedi. Com: Géza Morcsányi, Alexandra Borbély, Zoltán Schneider, Ervin Nagy, Zsuzsa Járó, Réka Tenki, Júlia Nyakó, Itala Békés, Tamás Jordán.

Segundo os princípios do formalismo (especificamente o conceito estabelecido por Béla Balázs), “montagem produtiva” é aquela por meio da qual a contraposição de duas imagens através do corte cria um significado maior do que cada uma delas isoladamente poderia oferecer – uma visão gestaltista do potencial da linguagem narrativa do Cinema.

Um exemplo belo e lírico disto pode ser encontrado nos primeiros minutos do húngaro Corpo e Alma, que tem início em uma floresta coberta por neve e na qual um cervo caminha com tranquilidade até se deparar com uma corça. Depois de alguns segundos de observação mútua, eles se aproximam numa espécie de flerte – e é então que a diretora Ildikó Enyedi corta abruptamente para uma fileira de vacas caminhando rumo à morte em um abatedouro. Pois bem: considerando que o par principal do longa, Mária (Borbély) e Endre (Morcsányi), trabalha naquele local, não é difícil extrapolar o contraste já significativo desta introdução e que se refletirá na discussão temática principal da obra.

Presos em suas realidades tristes e monótonas, Endre e Mária enfrentam seus dilemas particulares: ele, diretor do abatedouro, é um homem solitário que convive com as dificuldades práticas impostas pelo braço direito inutilizado (a causa jamais é revelada); ela, inspetora de qualidade da produção, é autista (embora o roteiro da própria Enyedi nem chegue a mencionar a palavra). Quando, por um acaso envolvendo a contratação de uma psicóloga, eles descobrem ter os mesmos sonhos todas as noites (justamente o casal de animais na neve), uma ligação gradualmente se forma.

Bem conduzido pela cineasta, Corpo e Alma não demora a ilustrar para o espectador de forma econômica a atmosfera melancólica dos dois personagens, já que, além de trabalharem em um ambiente com paredes de azulejos verde-claros e dominado por terríveis lâmpadas fluorescentes, eles adormecem solitários todas as noites: ele, em frente à TV; ela, depois de diversos rituais particulares de limpeza (é curioso como a primeira vez em que a vemos sentada na cama, isto se dá através de um espelho que distorce levemente seu reflexo). Adotando modos rígidos e uma expressão sempre impassível, a ótima Alexandra Borbély compõe uma mulher para a qual tudo parece hostil e que, ciente de suas dificuldades de socialização, repassa e ensaia conversas inteiras com o auxílio de bonecos e outros objetos – preparações que, infelizmente, normalmente acabam frustradas quando colocadas em prática, já que seus interlocutores nunca estão cientes dos diálogos que lhes foram atribuídos. Enquanto isso, Géza Morcsányi transforma Endre em um homem que parece ter se isolado propositalmente do mundo, mantendo-se monossilábico até mesmo ao conversar com seu amigo mais próximo ou com a filha.

Reforçando os paralelos entre o casal e o cenário idílico da introdução, Enyedi aos poucos passa a retratá-los em posturas similares às dos cervos, como, por exemplo, ao surgirem parados e em silêncio numa plataforma de metrô ou sentados enquanto esperam pela psicóloga. Enquanto isso, o design de produção se encarrega de distinguir suas personalidades através dos figurinos e de seus lares: quase tudo relacionado a Endre trazendo cores frias (especialmente o verde) e os elementos ligados a Mária surgindo em tons pasteis ou em branco, já que ela faz o possível para não se distinguir (e não é à toa que, ao se apaixonar, adota um casaco vermelho).

Seguindo uma estrutura visual igualmente coerente, a fotografia de Máté Herbai vai dos tons frios do início a uma paleta gradualmente mais quente e saturada – e o instante em que a garota visita um parque para tentar se acostumar com o toque alheio traz uma textura tão aconchegante que se torna impossível não sentir a mudança.

Corpo e Alma é, em última análise, um romance entre um homem que já desistiu de vivê-los e uma mulher que jamais cogitou conhecê-los, sendo encantador precisamente por respeitar a introspecção e o instinto de autopreservação de seus improváveis amantes.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Berlim 2017.

10 de Fevereiro de 2017

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.