Críticas por Pablo Villaça

Poster: Viva - A Vida é uma Festa
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
04/01/2018 27/10/2017
Distribuidora
Disney

 

 


Viva - A Vida é uma Festa
Coco

Viva - A Vida é uma Festa

Dirigido por Lee Unkrich e Adrian Molina. Roteiro de Adrian Molina e Matthew Aldrich. Com as vozes de Anthony Gonzalez, Gael García Bernal, Benjamin Bratt, Alanna Ubach, Renée Victor, Jaime Camil, Alfonso Arau, Herbert Siguenza, Gabriel Iglesias, Ana Ofelia Murguía, Natalia Cordova-Buckley, Selene Luna, Sofía Espinosa, John Ratzenberger, Cheech Marin e Edward James Olmos.

Uma das vantagens da diversidade na Arte – além da óbvia, a inclusão – reside na possibilidade que esta oferece de conhecer e dividir histórias novas inspiradas em aspectos particulares de culturas (ou religiões) diferentes. Pensem, por exemplo, em quantos filmes já viram usando o feriado de Ação de Graças norte-americano como pano de fundo (ou o Halloween ou o Quatro de Julho ou...) e agora tentem se lembrar de a quantos assistiram abordando as parrandas porto-riquenhas ou o Purim judaico ou a Festa do Sacrifício islâmica e perceberão como nos habituamos às velhas narrativas sem percebermos. Além disso, por mais específicas que estas festividades sejam, ainda fazem parte da experiência humana e, portanto, contam com uma universalidade que as tornam próximas de certa maneira.

É o caso, por exemplo, do Dia dos Mortos mexicano, que a Pixar empregou como ponto de partida para seu novo trabalho, Viva – A Vida é uma Festa, que já tem início de forma ambiciosa ao utilizar o tradicional papel picado para expor a história da família do pequeno protagonista Miguel (Gonzalez), que, sonhando em se tornar um músico tão celebrado quanto o já falecido Ernesto de la Cruz (Bratt), deve lidar com o fato de todos os tipos de música terem sido banidos do núcleo familiar desde que seu tataravô abandonou sua tataravó e a filha pequena, Inês (ou a “Coco” do título original), para viver de suas canções. Determinado a participar de um show de talentos, mas sem contar com um violão para fazê-lo, Miguel tenta roubar o instrumento exposto no mausoléu do famoso músico e é transportado para o mundo dos mortos bem na noite em que a memória destes é celebrada – e a única forma de retornar ao seu lar é através da benção que espera conseguir do próprio de la Cruz, que tentará encontrar com a ajuda de Hector (Bernal), um morto que está prestes a desaparecer por já não ser lembrado por quase ninguém ainda vivo.

Dirigido por Lee Unkrich (Toy Story 3) com o auxílio do estreante Adrian Molina, A Vida é uma Festa se beneficia da experiência do cineasta para alcançar um equilíbrio importante entre o universo superficialmente assustador no qual a história se passa e a necessidade de ser leve o bastante para não assustar os espectadores mais jovens – algo que Unkrich já consegue fazer na cena em que Miguel enxerga os mortos pela primeira vez e que, inicialmente inquietante por retratar a percepção do garoto, rapidamente usa gags físicas e as expressões faciais dos esqueletos para deixar claro que tudo ficará bem e que não há ameaça real ali. Neste sentido, o longa realiza tão bem a tarefa que a frase “Espero que você morra logo” se torna uma manifestação de carinho (não se preocupem; o filme não estimula nenhum tipo de ideação suicida/homicida), imaginando de forma lúdica o pós-morte e trazendo até mesmo “pontas” de celebridades já falecidas (como Frida Kahlo e Cantinflas).

Dividindo com A Noiva Cadáver e Festa no Céu o conceito de um mundo dos mortos colorido e alegre, A Vida é uma Festa aproveita ao máximo toda a habilidade técnica e criativa da Pixar para criar um universo impressionante em sua dimensão e em seus detalhes, desde as belas pontes feitas de folhas intensamente laranjas até a cidade dos mortos em si, que surge como um conjunto de casas e edifícios multicoloridos que parecem se encaixar de uma maneira ao mesmo tempo amontoada e elegante. Contudo, não são apenas em seus elementos fantasiosos que a produção deslumbra, já que o vilarejo no qual Miguel reside é também admirável em seus detalhes, desde as ruas de pedra até as paredes levemente descascadas das casas, passando pelo lar da família do herói, que combina o negócio tradicional do clã (fabricação de sapatos) e as habitações construídas em volta de um pátio no qual se encontra um poço coberto.

Do mesmo modo, o design dos próprios personagens é – como de costume – fenomenal em seus pormenores, como a pintinha sobre a boca do protagonista e a covinha que surge apenas em um lado de seu rosto ao sorrir. Enquanto isso, as criaturas fantásticas que o garoto encontra permitem que os artistas do estúdio explorem conceitos culturais como os alebrijes (esculturas representando criaturas quiméricas), que aqui surgem em visuais variados (mas sempre com pelagem fosforescente), e também os esqueletos dos já falecidos, que ganham personalidade não só pelos formatos diferentes dos crânios, mas também graças às maquiagens das famosas caveiras mexicanas.

Aliás, já nem deveria ser surpresa partindo da Pixar, mas esteticamente A Vida é uma Festa é sempre extraordinário, trazendo imagens impactantes como o plano aéreo que revela o cemitério iluminado pela luz de velas ou aquele que contrasta a opulência da torre ocupada por Ernesto de la Cruz à miséria dos barracos de palafita habitados pelos mortos que, por não serem lembrados pelos vivos, quase não ganham oferendas. Além disso, é importante observar a ótima trilha de Michael Giacchino, que incorpora instrumentos típicos e gêneros específicos (como o mariachi) às suas composições, reforçando a atmosfera cultural local. E nem seria preciso apontar a qualidade técnica da animação em si, que pode ser sintetizada na belíssima cena que traz Miguel tocando seu violão de olhos fechados, permitindo que percebamos com clareza a expressão de prazer em seu rosto.

Para completar, o próprio conceito de um mundo no qual o valor de cada um está intrinsecamente ligado às memórias que despertam entre os vivos é fascinante, reconhecendo algo que deveríamos ter sempre em mente: sim, todos cessaremos de existir um dia, mas se há alguma forma de imortalidade a ser conquistada é aquela que resulta das lembranças que deixaremos para trás – um legado que construímos ou destruímos em cada decisão que tomamos e ação que realizamos. Nem que esta ação seja apenas dividir uma canção com alguém que amamos.

06 de Janeiro de 2018

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Assista também ao videocast sem spoilers sobre o filme:

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.