Críticas por Pablo Villaça

Poster: Liga da Justiça
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
15/11/2017 17/11/2017
Distribuidora
Warner

 

 


Liga da Justiça
Justice League

Liga da Justiça

Dirigido por Zack Snyder. Roteiro de Chris Terrio e Joss Whedon. Com: Ben Affleck, Gal Gadot, Henry Cavill, Jason Momoa, Ezra Miller, Ray Fisher, Joe Morton, Diane Lane, Amber Heard, Billy Crudup, Connie Nielsen, J.K. Simmons, Jesse Eisenberg, Amy Adams, Jeremy Irons e Ciarán Hinds.

Uma das muitas diferenças entre as produções da Marvel e da DC reside na maneira como as primeiras constantemente abraçam a leveza, o humor e o absurdo de suas premissas, enquanto as últimas apresentam uma tendência ao sombrio, ao pessimismo e à auto importância. Ambas as abordagens trazem suas vantagens e seus perigos: se a Marvel cria obras com mais facilidade de entreter, estas também acabam frequentemente soando descartáveis e intercambiáveis, ao passo que os projetos da DC, mesmo que consigam exibir identidades próprias e densidade dramática ao lidar com personagens fantásticos, exigem de seus realizadores um controle delicado entre a melancolia e o espetáculo. Infelizmente, se Christopher Nolan alcançou brilhantemente este equilíbrio em sua trilogia, o mesmo não pode ser dito sobre O Homem de Aço e Batman Vs. Superman, que Zack Snyder transformou em narrativas inchadas, ocasionalmente aborrecidas e visualmente desinteressantes.

Assim, é uma grata surpresa que 2017 tenha se revelado um ano tão positivo para a DC, que, depois do ótimo Mulher-Maravilha, volta a acertar – mesmo ainda repetindo alguns velhos problemas – com Liga da Justiça, o mais ambicioso de seus projetos.

Continuando a história a partir de onde a deixamos em Batman Vs. Superman, o roteiro de Chris Terrio e Joss Whedon revela um mundo em caos desde a morte do Homem de Aço (Cavill) e no qual Batman (Affleck) tenta reunir os indivíduos com superpoderes que descobriu em um arquivo da LexCorp - Aquaman (Momoa), Flash (Miller) e Cyborg (Fisher) -, sendo auxiliado na tarefa pela Mulher-Maravilha (Gadot). O objetivo do Homem-Morcego é formar um grupo capaz de lidar com a ameaça que ele viu em um pesadelo no capítulo anterior (pois é, lembram daquilo?) e que poderá causar a destruição do planeta agora que este não conta mais com a proteção do Superman, cujo destino traz um forte sentimento de culpa a Bruce Wayne. E é então que a tal ameaça se materializa na forma do Lobo da Estepe (Hinds) e de seu exército de... insetos humanoides voadores?

Com um ritmo bem mais ágil que os dois últimos longas dirigidos por Snyder, Liga da Justiça consegue apresentar todos os novos personagens de maneira objetiva, evitando perder tempo com histórias de origem desnecessárias (o Flash é rápido, o Aquaman controla a água e o Cyborg é capaz de, bom, um monte de coisas; precisamos saber mais do que isso?) – um contraste imenso com todas as vezes em que vimos Thomas e Martha Wayne sendo assassinados diante do filho. Isto, porém, não impede que cada um daqueles heróis tenha personalidades distintas e papéis específicos na narrativa: o Flash de Ezra Miller é o jovem empolgado em fazer parte de um grupo como aquele e que funciona como o óbvio alívio cômico do projeto (o que pontualmente soa forçado, já que ele parece obrigado a fazer alguma piada todas as vezes em que aparece); o Aquaman de Jason Momoa se torna surpreendentemente interessante ao assumir a pose de bad boy; e o Cyborg de Ray Fisher intriga por jamais saber o alcance de seus poderes, que continuam a se desenvolver.

Enquanto isso, Ben Affleck se mostra bem mais à vontade na pele de Bruce Wayne, encarnando-o como um homem que reconhece estar envelhecendo e compelido a preencher o vácuo que acredita ter provocado ao levar Superman ao cemitério – e outro mérito do filme (e do ator) é conseguir até mesmo encaixar algumas piadinhas envolvendo o personagem sem que estas soem artificiais. Gal Gadot, por sua vez, segue uma atriz limitada a duas ou três expressões faciais (nem sempre adequadas aos momentos nos quais são empregadas), mas mais uma vez incute energia e carisma à Mulher-Maravilha, estabelecendo-a como o ponto de equilíbrio da recém-formada Liga e também sua integrante mais capaz.

Bom, ao menos até o retorno do Superman, cujos poderes são infinitamente superiores aos da amazona (ah, sério? Vão reclamar de spoiler? O nome de Henry Cavill é o segundo a aparecer nos créditos iniciais e também está no cartaz do filme, caramba!). Aliás, um dos melhores aspectos de Liga da Justiça é constatar como o Homem de Aço move a trama tanto em sua ausência quanto ao retornar: já na sequência de créditos (talvez a melhor parte do longa, o que é um elogio problemático), seu otimismo quanto à Humanidade em um vídeo amador é contraposto à melancolia que domina o planeta depois de sua morte, quando o niilismo de Wayne parece se confirmar na desesperança exibida por todos e na violência generalizada (particularmente contra imigrantes, num raro comentário político do roteiro), que são ressaltadas pelo ótimo uso da canção de Leonard Cohen, “Everybody Knows”, numa versão cantada pela norueguesa Sigrid (“Everybody knows the war is over/ Everybody knows the good guys lost / Everybody knows the fight was fixed/ The poor stay poor, the rich get rich”).

Mas é claro que um filme como este depende pesadamente não só dos personagens, mas de suas sequências de ação – e aqui os resultados são mais irregulares: se a batalha e a perseguição envolvendo as amazonas são orquestradas com eficiência e dinamismo, encontrando espaço para nobres e tocantes sacrifícios pessoais, o confronto que deveria funcionar como clímax do longa se mostra mais problemático. Sim, é empolgante ver os heróis trabalhando em equipe (mesmo com o Aquaman deslocado ao atuar fora de seu elemento), mas, de modo geral, as lutas retratadas na tela soam convencionais e pouco imaginativas, parecendo pouco mais do que um amontoado de ruídos e explosões (em meu caderno de anotações, registrei “indicação ao Oscar de Edição de Efeitos Sonoros garantida, mas e daí?”). Em contrapartida, a trilha composta por Danny Elfman acerta especialmente ao incluir ecos dos temas criados por Hans Zimmer para a Mulher-Maravilha (em Batman Vs. Superman), por John Williams em Superman – O Filme e por ele mesmo no Batman de Tim Burton, costurando musicalmente o encontro das três franquias.

É uma pena, portanto, que Liga da Justiça seja prejudicado por um vilão tão ruim – “ruim” não no sentido de maldade (o que seria paradoxalmente bom), mas de sua execução. Insatisfatório em sua origem aparentemente aleatória, em suas motivações clichês (destruir/dominar o mundo), na unidimensionalidade de sua personalidade, em sua voz (para que contratar um ator como Ciáran Hinds se seu timbre será alterado para transformá-lo naquele mesmo que já ouvimos saindo das bocas de quase todos os vilões do tipo?) e em sua realização técnica (ele jamais deixa de parecer uma animação digital mais apropriada a um game), o Lobo da Estepe é um fracasso absoluto, deixando um vazio marcante no espaço que exigiria um antagonista memorável.

Trazendo uma participação de Joe Morton que acaba soando como uma referência curiosa a O Exterminador do Futuro 2, Liga da Justiça é um filme que, mesmo inferior a Mulher-Maravilha, sugere que a DC parece finalmente ter (re)encontrado seu caminho. Já estava passando da hora.

Observação: há uma cena adicional durante os créditos finais e outra depois destes.

15 de Novembro de 2017

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.