Críticas por Pablo Villaça

Poster: No Intenso Agora
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
09/11/2017 Unknown
Distribuidora
Videofilmes

 

 


No Intenso Agora
No Intenso Agora

No Intenso Agora

Dirigido e roteirizado por João Moreira Salles.

Nem sempre a gente sabe o que está filmando”, diz o cineasta João Moreira Salles em certo momento de seu novo documentário, No Intenso Agora. Aliás, chamar esta obra de “documentário” talvez não seja o mais apropriado; há momentos nos quais ela se encaixa nesta descrição, mas, na maior parte do tempo, o que Salles faz é um ensaio sobre História, política e juventude, começando a partir dos registros feitos por sua mãe durante uma viagem para a China, em 1966, e voltando seu olhar para os movimentos populares ocorridos ao redor do mundo em 1968.

Logo no início da projeção, o diretor recupera um pronunciamento feito por Charles de Gaulle pela televisão no último dia de 1967, quando deseja um ótimo ano para os franceses e prevê que este será tranquilo – uma expectativa arruinada cinco meses depois, quando protestos de estudantes universitários resultaram em brutalidade policial (isto não é exclusividade nossa) e inflamaram boa parte da população, culminando numa greve geral e um princípio de convulsão social.

Fascinado com a energia e mesmo a alegria dos jovens franceses, Salles parte de imagens de manifestações e outros momentos daquele período específico para refletir sobre como, para a maior parte daquelas pessoas, aquele viria a representar o instante mais feliz de suas vidas – e como elas certamente não se davam conta, no calor dos protestos, de como estavam criando e fazendo parte da História. Por outro lado, o cineasta tem uma mente arguta demais para se limitar a romantizar a época e seus acontecimentos, apontando a falta de preparo e/ou ambição dos jovens em seus objetivos, já que chegam a passar ao lado do congresso durante uma das marchas sem nem sequer cogitar invadi-lo. Além disso, por mais idealistas que muitos deles fossem, o fato é que problemas estruturais da sociedade francesa se encontravam tristemente refletidos nos protestos – algo que o filme expõe ao comentar a ausência de mulheres entre os organizadores e também a de negros. Do mesmo modo, é revelador como até mesmo os trabalhadores que se juntaram aos estudantes se referiam a estes como “nossos futuros patrões”.

No Intenso Agora, contudo, segue adiante e discute como, embora a empolgação do momento seja contagiante, o Sistema não encontra muitas dificuldades para eliminar o vírus da inquietação, sendo assustador reparar como já em julho a França retornara à normalidade (leia-se: com a elite reafirmando seu poder). Pois se a revolução pode ter início com uma velocidade descomunal, a normalização da opressão consegue ser ainda mais veloz – e Salles ilustra isto ao observar como em muitos dos países nos quais o status quo é questionado, a liberdade de expressão logo passa a ser eliminada sem que os cidadãos percebam.

Mas o interesse de João Moreira Salles não é apenas histórico; como cineasta, ele se mostra instigado a analisar as imagens que recuperou (numa excelente pesquisa, diga-se de passagem) de um ponto de vista semiótico. Assim, frequentemente ele repassa certos trechos para apontar elementos que se apresentam – mesmo que por acidente – como signos, como a maneira em que uma babá negra se afasta automaticamente para permitir que apenas a patroa seja filmada com os filhos ou como a posição do líder estudantil Daniel Cohn-Bendit e a de um professor reforçam suas posições “hierárquicas” convencionais mesmo que estejam em processo de inversão.

Porém, a sequência mais brilhante de No Intenso Agora talvez seja aquela em que Salles, com sua narração sóbria (beirando a tristeza), analisa as imagens e a percepção histórica dos funerais de estudantes mortos em 1968 (Jan Palach na República Checa; Edson Luis de Lima no Brasil; Gilles Tautin na França) e disseca suas diferenças, que vão da dor pessoal à indignação, passando pelo aspecto simbólico que assumiam. Para completar, o documentário é hábil ao sugerir a ligação entre o suicídio de vários estudantes nos anos seguintes às suas revoltas e a frustração e o desapontamento que provavelmente os dominaram em suas vidas adultas.

Pois se há uma consequência direta da intensidade com que movimentos como os retratados pelo filme impactam seus protagonistas é o fato de que, tragicamente, o restante de suas vidas se tornará um contínuo anticlímax.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Berlim 2017.

16 de Fevereiro de 2017

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.