Críticas por Pablo Villaça

Poster: Jogo Perigoso
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
29/09/2017 29/09/2017
Distribuidora
Netflix

 

 


Jogo Perigoso
Gerald's Game

Jogo Perigoso

Dirigido por Mike Flanagan. Roteiro de Mike Flanagan e Jeff Howard. Com: Carla Gugino, Bruce Greenwood, Chiara Aurelia, Kate Siegel, Carel Struycken e Henry Thomas.

Ao escrever sobre 1922, outra produção recente da Netflix baseada em uma obra de Stephen King, comentei como a força das obras do autor residia mais em sua capacidade de conceber personagens atormentados do que nos horrores sobrenaturais que os ameaçavam. Pois esta característica é praticamente toda a base de Jogo Perigoso, um thriller psicológico que desde o princípio deixa claro para o espectador que quase tudo que veremos se passa na mente torturada da protagonista – uma perspectiva apavorante, já que ninguém sabe melhor o que nos machuca e aterroriza do que nós mesmos. Mesmo que não tenhamos plena consciência disso.

Este é o caso de Jessie Burlingame (Gugino), uma mulher cuja infelicidade tem raízes que ela busca não escavar e que é potencializada por uma dinâmica tóxica com o marido, o bem-sucedido advogado Gerald (Greenwood), e que o casal vem tentando superar sem muito sucesso – algo que o filme ilustra com sutileza quando, logo no início, ele coloca a mão sobre a perna da esposa enquanto dirige e esta puxa a mão para os lábios para beijá-la, num aparente gesto de carinho que revela o oposto: seu incômodo ao ser tocada pelo companheiro. Do mesmo modo, não demoramos a perceber como Gerald tem dificuldade de se desligar do trabalho para se concentrar em seu relacionamento, cujo fracasso vem se refletindo em impotência sexual. Para solucionar isto, porém, ele decide investir em uma fantasia de dominação que obviamente provoca desconforto em Jessie, algemando-a na cama e criando uma situação de estupro simulado que os leva a uma discussão que só termina quando o sujeito sofre um ataque cardíaco fulminante, deixando-a numa situação desesperadora ao aprisioná-la não apenas sobre a cama, mas à própria mente.

Não é difícil perceber como esta premissa representaria um desafio para qualquer cineasta com intenção de adaptá-la, já que não apenas gira em torno de uma protagonista que permanece imóvel durante a maior parte da narrativa, como ainda envolve basicamente seus debates internos. Assim, é admirável o trabalho feito pelo roteiro de Jeff Howard e Mike Flanagan e, especialmente, pela direção deste último. Responsável pelos surpreendentes O Espelho, Hush: A Morte Ouve e Ouija: A Origem do Mal, Flanagan vem se destacando há algum tempo como um realizador hábil e que sabe criar tensão sem apelar continuamente para as mais batidas convenções do gênero – algo que podemos constatar, por exemplo, na economia da trilha sonora em Jogo Perigoso. Conferindo ritmo e energia à narrativa ao saltar entre as várias personas criadas pela mente da protagonista, que frequentemente pulam de um ponto a outro do quarto com a liberdade que sua natureza abstrata lhes confere, o diretor ainda sugere, aos poucos, como aquelas figuras incorporam não só partes distintas do temperamento da personagem, mas também características que servem como um comentário social bastante contemporâneo, refletindo o empoderamento e a força de Jessie em sua versão feminina e a condescendência e a crueldade em sua versão masculina.

Aliás, um projeto como Jogo Perigoso depende pesadamente da qualidade de seu elenco – e aqui não há um único elemento frágil que possa prejudicar o resultado: Carla Gugino, em particular, carrega o filme com uma segurança notável, incorporando com talento as diferentes facetas de Jessie e suas mudanças à medida que o tempo vai passando. É admirável, por exemplo, como ela sugere o incômodo da mulher diante do fetiche do companheiro, seu pânico gradual ao se dar conta da gravidade da própria situação ou o olhar de pena que lança para si mesma quando está vivendo seu alter ego. Enquanto isso, Bruce Greenwood diferencia com competência o verdadeiro Gerald da versão criada por Jessie, destacando-se especialmente em um longo e sádico monólogo que, rodado sem cortes, choca pela frieza com que descreve para Jessie o que ocorrerá após sua morte. Fechando o elenco, Henry Thomas (sim, o garotinho de E.T.; sempre me sinto obrigado a dizer isso) encarna o pai da protagonista em flashbacks que o expõem como um homem não apenas capaz de cometer um ato repulsivo como – ainda mais cruel – de manipular a vítima para que esta seja cúmplice do acobertamento do próprio abuso.

Visualmente rico mesmo contando com as limitações de orçamento impostas por ser uma produção da Netflix (limitações que comprometeram bastante 1922, por exemplo), Jogo Perigoso emprega com inteligência a estilização do eclipse que marca um ponto importante da trama (e que faz referência a Eclipse Total, outra adaptação de King), utilizando o vermelho como um motif tematicamente significativo ao insinuar o cruzamento entre a sexualidade e o perigo (a bolsa de Gerald com as algemas, seu carro, a porta da casa deixada aberta, o rádio que toca durante o eclipe, etc). E por falar em referências, como é comum na obra de Stephen King, aqui há citações a vários de seus trabalhos, de Cujo a A Torre Negra, o que é sempre divertido para seus fãs.

Tenso e envolvente durante a maior parte do tempo, Jogo Perigoso transforma-se, contudo, em um filme completamente diferente em seus quinze minutos finais, quando uma reviravolta questionável toma conta da história de forma súbita. Ainda assim, mesmo que de um ponto de vista puramente estrutural eu perceba os problemas que esta mudança representa, devo dizer que tematicamente ela acaba amarrando bem a trajetória da protagonista ao encontrar uma representação física (e assustadora) de todos os traumas e feridas deixados pelos homens de sua vida, permitindo, com isso, que ela os enfrente e supere de uma maneira que, infelizmente, nunca é tão simples na realidade como é na ficção. Por outro lado, o que realmente me provoca incômodo é ver como os realizadores sentem necessidade de mastigar o simbolismo das algemas/aliança, ignorando como já haviam sugerido isso de maneira perfeitamente eficaz.

O que não impede que, ao lado de It – A Coisa, Jogo Perigoso comprove que 2017 foi um ano feliz para Stephen King.

06 de Novembro de 2017

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.