Críticas por Pablo Villaça

Poster: Blade Runner 2049
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
05/10/2017 03/10/2017
Distribuidora
Sony

 

 


Blade Runner 2049
Blade Runner 2049

Blade Runner 2049

Dirigido por Denis Villeneuve. Roteiro de Hampton Fancher e Michael Green. Com: Ryan Gosling, Harrison Ford, Robin Wright, Ana de Armas, Sylvia Hoeks, Dave Bautista, Tómas Lemarquis, Mackenzie Davis, Hiam Abbass, Jared Leto, Barkhad Abdi, Sean Young e Edward James Olmos.

Durante muitos anos, mantive viva uma lembrança específica de um momento com meu pai: um olhar de reprovação e um breve discurso de repreensão. Era uma memória marcante que voltava (ainda volta) em momentos específicos e segue me influenciando enormemente. No entanto, há algum tempo, me dei conta de que havia algo errado: como ela envolvia um incidente escolar e meu pai morreu quando eu tinha cinco anos de idade, não há como aquilo ser real – ao menos, não da forma como reside em minha mente. Apesar disso, ela ainda me move e forma elementos da minha visão de mundo. Assim, a pergunta é: faz diferença o fato de ela ser real ou não? De certo modo, todas as nossas memórias não são edições subjetivas e mutáveis de acontecimentos reais – e, consequentemente, nossas personalidades não são fruto de fatores de natureza fluida?

Assim como o original fazia em 1982, Blade Runner 2049 é um filme mais interessado em discussões deste tipo - identidade, individualidade, autoconhecimento – do que em contar uma historia particular, embora a trama desta continuação seja bem mais complexa do que a de seu antecessor. Ambientada 30 anos depois dos acontecimentos vistos no trabalho de Ridley Scott, a produção roteirizada por Hampton Fancher e Michael Green acompanha o blade runner K (Gosling), cuja função principal é encontrar e exterminar replicantes de gerações anteriores que fugiram e se passam por pessoas de carne e osso. Depois de mais uma missão, porém, ele encontra uma caixa contendo uma ossada, o que leva sua chefe, a tenente Joshi (Wright), a enviá-lo em uma caçada que pode trazer impactos consideráveis para a humanidade.

Funcionando como uma expansão orgânica do universo apresentado em 1982, Blade Runner 2049 leva o espectador para fora da Los Angeles escura, chuvosa, poluída e superpopulosa que conhecíamos, apresentando-nos a novos locais que, mesmo completamente distintos em seus designs, mantêm a atmosfera densa e melancólica com a qual já havíamos nos habituado. Assim, desde as planícies extensas (e sem cor) sobrevoadas pelo protagonista até a metrópole cujos módulos residenciais remetem a cubos de lixo compactados amontados uns sobre os outros, o filme ressalta como, passadas três décadas, aquele mundo segue hostil e impessoal. Da mesma forma, K e seu sobretudo com golas erguidas continuam a remeter ao tipo de anti-herói amargurado, com raízes no noir, que Harrison Ford já havia encarnado com tanta propriedade, ao passo que outros arquétipos do gênero, como a femme fatale e a “prostituta com coração de ouro”, seguem representados por personagens como Luv e Joi (e a capa transparente usada por esta última, em certo momento, é uma referência clara à Zhora do primeiro filme).

Fotografado com brilhantismo por Roger Deakins – o que não é surpresa alguma, diga-se de passagem -, o longa não se preocupa em seguir tão fielmente os elementos estéticos do noir, afastando-se constantemente deste sem sacrificar, com isso, sua atmosfera. Assim, mesmo quando a paleta se torna mais quente (como no intenso laranja da Las Vegas que abriga parte do terço final da narrativa), há uma significante dessaturação das cores que impede qualquer traço de alegria de se firmar naqueles ambientes. Enquanto isso, a trilha de Benjamin Wallfisch e Hans Zimmer é inteligente ao sugerir ecos das composições originais de Vangelis através de uma nota estendida aqui ou um trecho de melodia ali, reservando os temas mais reconhecíveis para pontos-chave da projeção (e aquele que ouvimos na cena final com o personagem de Gosling é especialmente inspirada ao estabelecer uma rima com um dos momentos mais celebrados do anterior).

A escolha do cineasta canadense Denis Villeneuve para comandar o projeto, aliás, se mostra inspirada justamente por permitir que este coloque em prática uma de suas especialidades: a criação de um clima constante de apreensão que toma conta do espectador mesmo quando este não sabe exatamente o que deve temer – algo que enriqueceu obras como Os Suspeitos e A Chegada. O diretor, contudo, compreende estar lidando com uma história cujas origens já são celebradas e trazem expectativas próprias, sendo admirável notar como não se rende ao próprio ego e se preocupa em manter uma importante continuidade entre os filmes, desde o ritmo cadenciado da narrativa até referências específicas, como o plano-detalhe do olho que abre a projeção até passagens envolvendo o scanner que permite investigar detalhes de imagens, passando por figuras de origami e até mesmo por algumas empresas que eram vistas em anúncios naquela Los Angeles e que, ainda que já não existam mais na vida real, seguem vivas nesta versão de 2049. Além disso, Villeneuve consegue espaço para criar sequências marcantes por seus próprios méritos, merecendo destaque o confronto em meio a hologramas, em um cassino abandonado, e, claro, todo o arco envolvendo Joi. Por outro lado, é triste notar como exigências comerciais aparentemente acabam obrigando o cineasta a incluir passagens que soam forçadas na proposta do filme – e a luta que ocorre enquanto ondas derrubam os oponentes é particularmente incômoda neste sentido.

Trazendo seu carisma habitual a um papel que poderia facilmente despertar antipatia no público, Ryan Gosling vive K como um indivíduo que busca ignorar os insultos que o cercam menos por estoicismo do que por condicionamento, ilustrando bem o arco que o personagem atravessa à medida que descobre mais sobre si mesmo e sobre as criaturas que deveria perseguir. Expressando-se com o modo calmo que vem se tornando uma marca registrada do ator (e que por isso é às vezes acusado injustamente de inexpressividade), K é um herói relutante cuja frustração crescente provoca impacto justamente por contrastar com o autocontrole que exibe na maior parte do tempo. Enquanto isso, Harrison Ford oferece uma das performances mais complexas de sua carreira ao imaginar o Rick Deckard envelhecido como um sujeito cansado cujo exílio auto imposto é ao mesmo tempo uma punição e um gesto de extremo altruísmo – e me atrevo a dizer que a cena em que, ao falar sobre Rachael, ele diz “Seus olhos eram verdes” é um dos melhores momentos que Ford protagonizou no cinema.

Aliás, assim como a personagem de Sean Young era um catalisador fundamental de mudanças no original, aqui o roteiro introduz duas figuras que se revelam acréscimos fabulosos ao universo de Blade Runner, tanto como elemento narrativo quanto temático: a replicante “Luv” (Hoeks) e a “acompanhante virtual” Joi (de Armas). Com nomes já sugestivos por si mesmos, as duas “mulheres” têm suas próprias trajetórias relacionadas à natureza de suas identidades e da percepção que têm de si mesmas, revelando-se mais humanas do que todos os humanos da trama. “Luv”, por exemplo, é retratada por Sylvia Hoeks como uma replicante que, consciente de sua natureza, é obrigada por sua programação a manter-se fiel ao implacável visionário interpretado por Jared Leto (com menos maneirismos do que de costume, felizmente) ainda que, em certos pontos, tenha claramente uma forte reação negativa ao que este faz contra sua “espécie” – e testemunhar sua luta entre o que julga certo e o que precisa fazer é um dos elementos dramáticos mais eficientes do filme.

Do mesmo modo, a ótima Ana de Armas transforma Joi numa representação ainda mais extrema do dilema vivido pelos replicantes, já que, diferente destes, não possui sequer um corpo que possa sugerir uma falsa humanidade – e, no entanto, o roteiro e a excepcional caracterização da atriz levam o espectador a encarar a personagem como um ser completo, complexo e tocante. Em certo ponto, por exemplo, quando ela consegue sair do confinamento do apartamento de K e “sentir” gotas de chuva em sua pele (ou na representação holográfica desta), é difícil não lembrar do prazer experimentado por Roy Batty em um instante similar de Blade Runner (e que comentei em meu texto sobre o Jovem Clássico). Resgatando também componentes temáticos do lindo Ela, o filme exerce bem seu papel como ficção científica ao empregar suas invenções para refletir sobre questões universais e mesmo filosóficas e existenciais: o amor que Joi sente por K, por exemplo, seria menos real apenas por ter sido resultado de um código de programação? E a resposta de K a esta expressão de amor deveria ser afetada por ter consciência disto?

O que me traz de volta àquela lembrança de infância e ao fato de que, mesmo agora sabendo que não pode ser verdadeira, continua a provocar em mim a mesma reação de antes, já que não posso apagar sua existência da mente. E nem desejaria fazê-lo, já que, de uma maneira ou de outra, teria que levar esta lógica ao seu extremo e eliminar todas as demais - afinal, nenhuma memória mais intensa é realmente objetiva; há sempre um filtro emocional alterando-as e/ou reinterpretando-as.

Mas se há algo que aprendi com o tempo é que isto não as torna menos válidas. Ao contrário: examiná-las de perto e buscar enxergar sua fluidez é um instrumento poderoso e instigante de autoconhecimento. Neste sentido, somos todos replicantes.

23 de Outubro de 2017

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.