Críticas por Pablo Villaça

Poster: Os Meyerowitz: Família Não se Escolhe
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
13/10/2017 13/10/2017
Distribuidora
Netflix

 

 


Os Meyerowitz: Família Não se Escolhe
The Meyerowitz Stories (New and Selected)

Os Meyerowitz: Família Não se Escolhe

Dirigido e roteirizado por Noah Baumbach. Com: Adam Sandler, Dustin Hoffman, Grace Van Patten, Elizabeth Marvel, Danny Flaherty, Adam David Thompson, Michael Chernus, Rebecca Miller, Ben Stiller, Adam Driver, Candice Bergen, Sigourney Weaver, Emma Thompson e Judd Hirsch.

O conceito de “autoralidade” pode variar imensamente, referindo-se a preocupações temáticas do realizador, a preferências estéticas, a sensibilidades de humor particulares, a obsessões sociais/políticas ou a uma combinação de dois ou mais destes aspectos. Ou pode simplesmente se referir ao fato de que um diretor insiste em fazer basicamente o mesmo filme de novo e de novo e de novo, alterando pequenos elementos, mas criando uma obra que, em sua essência, é composta por títulos intercambiáveis.

Para mim, Noah Baumbach se encaixa nesta última categoria. Em maior ou menor grau, seus trabalhos tendem a se concentrar em personagens excêntricos (geralmente com ambições artísticas) e em suas relações familiares e profissionais, empregando um senso de humor inofensivo e exalando um ar de pretensão intelectual, como se estivessem dizendo algo relevante sobre a condição humana quando, de fato, parecem ser exatamente o que são: histórias criadas por um realizador que há muito tempo vive numa bolha de privilégios e não consegue mais imaginar algo plausível fora desta – e ao ler o subtítulo original em parênteses de The Meyerowitz Stories (New and Selected), confesso ter soltado um “ai, ai” mental que logo se confirmaria apropriado.

Girando em torno da família-título, o roteiro acompanha Danny (Sandler), filho mais velho de Harold (Hoffman), um escultor que, depois de décadas de carreira, vive naquele limbo entre a respeitabilidade e a falta de reconhecimento. Recém-divorciado e prestes a enviar sua única filha, Eliza (van Patten), para a faculdade, Danny muda temporariamente para a casa que o pai divide com a quarta esposa, Maureen (Thompson), uma alcoólatra que parece ter estacionado na década de 60. Eternamente frustrado por reconhecer que o favorito do pai é seu meio-irmão Matthew (Stiller), um bem-sucedido contador, o sujeito divide este sentimento de relativo abandono com a irmã Jean (Marvel), cujos modos rígidos indicam um isolamento emocional forjado ao longo dos anos.

Para ilustrar os efeitos da dinâmica nada saudável daquela família sobre seus integrantes, Baumbach opta pelo óbvio: em um momento ou outro, os três homens da família parecem adoecer (Danny tem um problema no quadril; Harold sofre os efeitos de uma pancada na cabeça; Matthew enfrenta uma alergia recorrente). Da mesma maneira, o roteiro não adota qualquer sutileza para ressaltar a preferência do patriarca pelo caçula – e, ao longo da projeção, várias vezes vemos Danny reagir de forma dolorida ao testemunhar mais um ato de favoritismo do pai, seja ao usar o nome de Matthew como senha do computador ou para batizar uma escultura. Já em outras passagens, tudo é exposto verbalmente, já que o personagem de Hoffman parece incapaz de fechar a boca por um só segundo, só não se tornando insuportável graças ao talento de seu intérprete, que consegue se equilibrar entre a chatice e a vulnerabilidade.

Mas a grande surpresa de Os Meyerowitz é (e não acredito que escreverei isso) Adam Sandler, já que, assim como Paul Thomas Anderson em Embriagado de Amor, Baumbach explora a persona que o sujeito estabeleceu ao longo de sua carreira para criar uma figura ao mesmo tempo típica do ator (um homem cheio de raiva reprimida que vez por outra a deixa escapar) e também diferente (o habitual lado infantiloide, de criança-num-corpo-de-adulto, felizmente não se encontra presente). Com isso, Sandler surge como o integrante mais vulnerável da família, demonstrando um estoicismo que desperta a simpatia do espectador. Enquanto isso, Ben Stiller, outro intérprete especialista em indivíduos explosivos, complementa bem a dinâmica com Sandler, ao passo que Elizabeth Marvel, como Jane, surge como a voz da razão entre os irmãos apenas por ser a mais introvertida.

Ainda assim, o roteiro é raso demais para que consigamos nos importar de fato com aquelas pessoas – e Baumbach não ajuda ao repetir os mesmos recursos para criar um humor que vai se tornando óbvio e, portanto, menos eficaz com o passar do tempo (como ao insistir em cortar cenas durante gritos de algum personagem ou ao conceber os vídeos feitos pela filha de Danny como softcores com aspirações feministas que soam ainda mais implausíveis por serem imediatamente compartilhados com sua família). Para piorar, o longa tem o mau gosto absurdo de tentar fazer graça com o trauma de infância de uma personagem abusada por um amigo da família e que, ao vê-lo já adulta, sai correndo numa cena que se crê engraçada quando é apenas estúpida, cruel e desrespeitosa.

Obviamente desesperado para ter algum peso dramático, Os Meyerowitz é desses filmes que não ofendem nem se destacam, não se arriscam e nem apelam apenas para o clichê, e que pode até ser bonitinhos enquanto estão sendo projetados, mas são esquecidos menos de meia hora depois de chegarem ao fim.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Cannes 2017.

22 de Maio de 2017

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.