Críticas por Pablo Villaça

Poster: Bom Comportamento
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
19/10/2017 25/08/2017
Distribuidora
Paris Filmes

 

 


Bom Comportamento
Good Time

Bom Comportamento

Dirigido por Benny Safdie e Josh Safdie. Roteiro de Ronald Bronstein e Josh Safdie. Com: Robert Pattinson, Benny Safdie, Taliah Webster, Barkhad Abdi, Necro e Jennifer Jason Leigh.

A proposta de Bom Comportamento, dirigido pelos irmãos Josh e Ben Safdie, é algo que fica claro já em seus créditos iniciais, que, grafados em neon, acompanhados por uma música eletrônica e trazendo informações sobre copyright sob o título, apontam uma abordagem estética que agregará elementos das décadas de 70 e 80 para contar a história de Connie Nikas (Pattinson), um rapaz que, determinado a conseguir dinheiro para se mudar com o irmão Nick (Ben Safdie) para um lugar no qual este escape da brutalidade da avó, decide levá-lo em um assalto a banco que logo começa a dar errado.

Fotografado por Sean Price Williams com uma paleta cujas cores parecem ter sido filtradas por luzes fluorescentes que tiram sua vitalidade e diminuem consideravelmente o contraste, o filme tem uma estética calculadamente crua que reflete com propriedade o universo do protagonista, que, mesmo criminoso e capaz de violência, projeta um ar de inocência e doçura que, somado às decisões impulsivas e estúpidas que frequentemente toma, resulta num protagonista surpreendentemente complexo para uma obra que tem mais pretensões de funcionar como exercício de estilo do que como estudo de personagem.

Parte do mérito por isso cabe a Robert Pattinson, que, além de trazer suavidade a uma figura tão bruta, mantém as boas intenções de Connie sempre palpáveis sob seu desespero e suas explosões – e é curioso perceber como somos simultaneamente convencidos de que ele não faria mal às pessoas que cruzam seu caminho, mas também de que talvez fosse melhor não testar esta suposição. Igualmente instrumental para a eficácia da narrativa é a performance do co-diretor Ben Safdie, que, como Nick, convence o público da deficiência do jovem sem apelar para caricaturas (sua composição é tão boa, devo dizer, que me vi compelido a pesquisar se ele realmente tinha alguma limitação cognitiva). Aliás, Jennifer Jason Leigh alcança um efeito similar com sua personagem, que, com apenas poucos minutos de tela, deixa uma forte e triste impressão de uma mulher frágil psicológica e emocionalmente. Fechando o elenco principal, Barkhad Abdi, uma revelação em Capitão Phillips, aparece como prova viva das dificuldades enfrentadas por minorias para conseguir papéis relevantes no Cinema.

Sem jamais conceder um descanso para o público, Bom Comportamento tem um claro parentesco com obras como Depois de Horas, mantendo-nos juntos ao protagonista durante um relativamente curto – mas intenso – espaço de tempo, já que atira todo tipo de obstáculo no caminho de Connie, que também faz sua parte para piorá-los ao tomar sempre as piores decisões possíveis. A partir de certo ponto, aliás, a situação do rapaz passa a beirar o cômico, despertando risos nervosos (intencionais) da plateia diante da constatação de que os realizadores não permitirão um momento sequer de alívio – e se o longa tem algum problema, este não é o tédio.

Com um desfecho melancólico, mas também esperançoso (na medida em que aqueles indivíduos podem ter alguma esperança), Bom Comportamento não é o tipo de trabalho que normalmente esperaríamos ver na mostra competitiva de Cannes, mas isto diz mais sobre nossas preconcepções acerca do que um festival como este deveria oferecer do que sobre o filme em si.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Cannes 2017.

26 de Maio de 2017

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.