Críticas por Pablo Villaça

Poster: Vazante
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
09/11/2017 Unknown
Distribuidora
Europa

 

 


Vazante
Vazante

Vazante

Dirigido por Daniela Thomas. Roteiro de Daniela Thomas e Beto Amaral. Com: Adriano Carvalho, Luana Nastas, Sandra Corveloni, Juliana Carneiro da Cunha, Roberto Audio, Fabrício Boliveira, Vinicius dos Anjos, Jai Baptista.

Quando Vazante, novo filme da cineasta Daniela Thomas, tem início, vemos um parto malsucedido que, no interior de Minas Gerais em 1821, custa as vidas da mãe e do bebê. Enquanto isso, o viúvo, o tropeiro português Antônio (Carvalho, um Gregório Duvivier lusitano), retorna de viagem trazendo o enxoval da criança sem saber que não terá a quem vestir, sendo recebido pela sogra (Carneiro da Cunha), que acaba entrando em estado quase catatônico em função da perda. Algum tempo depois, porém, Antônio se interessa pela sobrinha da esposa, Beatriz (Nastas), casando-se com esta.

Ainda uma pré-adolescente que nem sequer começou a menstruar, Beatriz parece demonstrar curiosidade pelo protagonista quase como uma brincadeira, como se a ideia de atraí-lo fosse um pequeno jogo sem consequência – e, portanto, acaba recebendo um choque de realidade quando se descobre casada com um homem bem mais velho e que se encontra ansioso para consumar o matrimônio, não vendo qualquer problema em transar com uma noiva cuja pouca idade o leva a presenteá-la com uma boneca.

Sim, é claro que estamos falando de uma outra época, com valores e costumes bastante distintos dos nossos, mas Vazante não busca – acertadamente – normalizar a natureza repugnante daquele acerto apenas por ocorrer no início do século 19 – e, assim, constantemente nos vemos desconfortáveis diante da postura casual de Antônio enquanto basicamente força Beatriz a acolhê-lo em sua cama.

Contudo, este elemento é apenas parte da história contada pelo roteiro de Thomas e Beto Amaral, que cria uma narrativa difusa e que encontra dificuldades para identificar seu verdadeiro protagonista, que basicamente percebemos ser Antônio quase que por exclusão. Ao longo do filme, por exemplo, passamos um tempo considerável acompanhando os pais de Beatriz, Bartholomeu e dona Ondina (Audio e Corveloni), que lidam com a falta de dinheiro e com a frustração por ver a fortuna da família indo parar nas mãos de Antônio, de quem se tornam dependentes – um enredo abandonado quando o casal simplesmente desaparece da trama. Aliás, algo bastante similar ocorre com Jeremias (Boliveira), um escravo liberto que agora oferece seus serviços para donos de terra interessados em cultivá-las: hostil aos escravos da fazenda, ele acaba por tomar uma atitude extrema ao surpreender Beatriz e o jovem Virgilio (dos Anjos), filho da escrava Feliciana (Baptista), quando então... também deixa o longa sem maiores explicações. Se múltiplas narrativas enriquecem um projeto quando bem desenvolvidas, aqui acabam soando como resultado de um roteiro sem foco, o que é uma pena.

Já a fotografia de Inti Briones, concebida em um preto-e-branco elegante que traz peso e certa crueza a Vazante, é digna de aplausos por também criar quadros belos e evocativos que se mantêm vivos mesmo depois que o longa chega ao fim – quadros como aqueles que trazem dona Zizinha em sua cadeira e com o olhar perdido ou aquele no qual Beatriz surge sentada na beira da cama e com Antônio adormecido ao fundo. Além disso, a própria fazenda é icônica por si mesma, ressaltando o isolamento emocional daqueles personagens ao aparecer cercada por montanhas e vegetação.

Brutal ao expor o sadismo inerente ao escravagismo e corajoso ao trazer um protagonista lacônico e desprezível, Vazante talvez não faça jus aos trabalhos que Daniela Thomas dirigiu com Walter Salles (Terra Estrangeira, O Primeiro Dia e Linha de Passe), mas é certamente um imenso avanço com relação ao seu longa anterior, Insolação, de 2009. Só espero que ela não leve outros oito anos para lançar seu próximo filme, pois estou bastante curioso para descobrir para onde ela está caminhando.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Berlim 2017.

18 de Fevereiro de 2017

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.