Críticas por Pablo Villaça

Poster: Não Devore Meu Coração
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
23/11/2017 Unknown
Distribuidora
Fênix Filmes

 

 


Não Devore Meu Coração
Não Devore Meu Coração

Não Devore Meu Coração

Dirigido e roteirizado por Felipe Bragança. Com: Eduardo Macedo, Adeli Benitez, Marco Lori, Mario Verón, Ney Matogrosso e Cauã Reymond.

Não Devore Meu Coração é um filme que mira alto. Ele busca, ao mesmo tempo, falar sobre a animosidade entre brasileiros e paraguaios resultante da guerra, aborda as disputas entre fazendeiros brasileiros e os índios guarani, retrata a intensidade da descoberta do primeiro amor, discute lealdade e honra e reflete as consequências da falta de perspectivas de personagens que se sabem encurralados em um mundo de pobreza. Para cumprir todos estes objetivos, a obra investe em uma abordagem ao mesmo tempo histórica e mítica, naturalista e simbólica, apresentando-nos também a um cenário pouco explorado pelo Cinema brasileiro.

Mas é apenas natural que o projeto mire alto, já que foi escrito e dirigido por Felipe Bragança, um roteirista bem-sucedido que conta com um excelente domínio de estrutura, narrativa e desenvolvimento de personagens, sendo responsável, por exemplo, pelos excelentes roteiros de O Céu de Suely, Heleno e Praia do Futuro. Aliás, é justamente a experiência de Bragança que torna tão curioso que o componente mais frágil aqui seja a concepção das figuras que movem a história e que estão inseridas num universo bem mais fascinante do que elas.

Uma destas figuras é Joca (Macedo), um menino de 13 anos que se encontra apaixonado por Basano (Benitez), uma índia guarani que se identifica como rainha do rio Apa, que passa entre os dois países e no qual vários corpos de camponeses paraguaios vêm surgindo. Enquanto isso, o irmão mais velho de Joca, Fernando (Reymond), disputa pegas de motocicleta como parte da “gangue do Calendário” liderada por Telecatch (Lori), enfrentando um grupo composto por paraguaios e entre os quais se encontra Alberto (Verón), primo de Basano que insiste para que esta se torne sua namorada.

Hábil em estabelecer todos estes personagens e as tramas e subtramas nas quais se inserem, Não Devore Meu Coração deixa patente a frustração de Fernando por morar com a mãe e ter que se responsabilizar pelo irmão caçula (que ele trata com gentileza), conseguindo firmar também a imagem de Basano, que resiste às declarações de Joca nem tanto por rejeitá-lo como possível namorado, mas por se orgulhar de sua própria ascendência guarani e de seu papel em representá-la – e suas recusas atuam, deste modo, como uma espécie de resistência à assimilação cultural (e é sintomático também que a situação de sua comunidade seja tão precária a ponto de ela enxergar Joca como sendo um “garoto rico” quando, provavelmente, ele é apenas um pouco menos pobre do que ela).

Dito isso, aí entram os problemas que mencionei a respeito dos personagens, que falham em envolver o espectador em suas aspirações: Joca, por exemplo, soa mais como stalker do que como um pré-adolescente romântico, ao passo que Basano em diversos momentos surge cruel e maniqueísta. E como Fernando é também uma figura no mínimo moralmente ambígua (no mínimo mesmo), não sobra ninguém para ancorar o público na narrativa, que ainda peca por introduzir elementos aleatórios de homossexualidade e homofobia (Fernando se revolta com “as maldades que ficam falando de mim e do Telecatch”) que não se encaixam nos demais (e a ponta de Ney Matogrosso é pura distração).

Em contrapartida, o roteiro absorve e reutiliza de forma eficaz elementos de Romeu e Julieta, criando não só um romance entre “famílias” inimigas, mas ao incluir suas próprias versões de Mercúcio e Tibaldo. Além disso, Bragança se equilibra bem entre o realista e o fabulesco, contribuindo para este último a ótima trilha eletrônica de Baris Akardere, que atua para evocar um tom onírico e em diversos instantes remete àquelas que Vangelis compunha na década de 80. Aliás, suponho que não seja coincidência o fato de o diretor pontualmente fazer referências visuais a alguns filmes da década – especialmente os de Spielberg – ao trazer os garotos andando de bicicleta, segurando lanternas em meio à névoa e (no caso de Joca) usando um casaco com um capuz vermelho idêntico ao de Elliot em E.T. Um destes detalhes poderia até ser acidental, mas, juntos, indicam uma influência bem processada por Bragança (eu poderia até ir além e ler uma citação a Os Garotos Perdidos nas corridas de moto à noite e no plano em que a gangue – com todos os seus integrantes usando casacos de couro - é vista alinhada sobre um pátio de cimento em uma imagem similar àquela protagonizada pelos seguidores de Kiefer Sutherland).

Para completar, Não Devore Meu Coração cria alguns planos de inspiração ímpar, como o que traz Joca e Basano num rio, cercados por vagalumes, e aquele no qual a menina se posiciona diante de um carro, cujo motor ronca como se o veículo fosse um animal selvagem domado pela firmeza da índia.

Eficiente ao projetar um ar fantástico, alucinatório, a incidentes que acontecem de fato na trama, Felipe Bragança reconhece como isto confere peso simbólico ao filme, tornando-o ainda mais denso pela contraposição entre o sonho e a realidade – um dos tantos alvos que o cineasta acerta em cheio.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Berlim 2017.

17 de Fevereiro de 2017

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.