Críticas por Pablo Villaça

Poster: Sem Amor
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
Unknown 01/06/2017
Distribuidora

 

 


Sem Amor
Nelyubov ou Loveless

Sem Amor

Dirigido por Andrey Zvyagintsev. Roteiro de Andrey Zvyagintsev e Oleg Negin. Com: Maryana Spivak, Yanina Hope, Aleksey Rozin, Daria Pisareva, Matvey Novikov.

Durante os primeiros minutos de Sem Amor, enquanto o diretor Andrey Zvyagintsev abria a narrativa com planos gerais trazendo paisagens cobertas pela neve, lembrei-me do húngaro Corpo e Alma, um de meus favoritos do último festival de Berlim e que contava com uma introdução similar. Aliás, esta não é a única similaridade entre os dois projetos, já que ambos também nos apresentam a personagens quebrados que parecem não fazer ideia de como se relacionar uns com os outros – e até mesmo o talento daquele longa para a metáfora é refletido aqui em um belo plano no qual, depois de ouvirmos notícias sobre a intervenção militar russa na Ucrânia, vemos uma mulher correndo em uma esteira (ou seja: sem sair do lugar) enquanto usa uma roupa de treinamento com a palavra “Rússia” estampada em letras enormes em sua frente.

Na maior parte do tempo, contudo, este novo trabalho do diretor de Leviatã adota uma abordagem direta, seca, ao acompanhar o casal formado por Zhenya (Spivak) e Boris (Rozin), que já se encontra naquela fase de um casamento em crise na qual cada fala soa como uma provocação, mesmo que não seja. Infelizes com tudo e descontando esta infelicidade em todos que os cercam, Zhenya e Boris ferem principalmente o filho Alyosha (Novikov), que, com apenas 12 anos de idade, desaparece após ouvir mais uma pesada briga entre os pais. Quando finalmente percebem o sumiço do garoto, os dois iniciam uma busca desesperada com a ajuda de uma ONG especializada em localizar crianças desaparecidas.

Impiedoso na maneira como retrata a crueldade mútua do casal e que transforma Alyosha em um dano colateral, já que planejam um futuro novo no qual o filho será essencialmente exilado em uma série de instituições (como um colégio interno e o exército), Loveless faz um comentário certeiro sobre a necessidade contemporânea de pintar um retrato idílico da própria existência nas redes sociais mesmo quando a realidade encontra-se em total desarranjo – e a compulsão de Zhenya de publicar selfies e fotos de pratos de restaurante em seus perfis é indicativa deste contraste. Ao mesmo tempo, o filme humaniza a personagem ao demonstrar como sua natureza amarga tem raízes no tratamento que recebia da própria mãe (e mesmo esta é poupada da demonização quando, após uma cena na qual age de forma impiedosa, a câmera se detém em seu rosto por alguns segundos para registrar sua solidão).

Construindo uma atmosfera de tensão crescente ao ilustrar com detalhes o processo da busca por Alyosha, o diretor Andrey Zvyagintsev explora bem os temas do ótimo roteiro que co-escreveu com Oleg Negin ao adotar longos planos que ressaltam a tristeza sufocante de todas aquelas pessoas – e mesmo as cenas de sexo são fotografadas com melancolia, nas sombras, como se trouxessem mais dor do que prazer aos amantes.

Fazendo jus às belas imagens iniciais, que trazem árvores secas como as vidas dos personagens, Loveless é uma obra mergulhada em dor e arrependimento, mas que compreende que há pessoas incapazes de mudar mesmo depois das mais terríveis experiências. Para completar, poucos planos no Cinema este ano terão a força daquele que traz uma criança chorando silenciosamente atrás da porta enquanto escuta seus pais planejando descartá-la.

E ainda não sei dizer o que é mais comovente: seu choro solitário ou que tenha aprendido a escondê-lo.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Cannes 2017.

18 de Maio de 2017

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.