Críticas por Pablo Villaça

Poster: Gabriel e a Montanha
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
02/11/2017 30/08/2017
Distribuidora
Bretz Filmes/Pagu Pictures

 

 


Gabriel e a Montanha
Gabriel e a Montanha

Gabriel e a Montanha

Dirigido por Fellipe Barbosa. Roteiro de Fellipe Barbosa, Kirill Mikhanovsky e Lucas Paraizo. Com: João Pedro Zappa e Caroline Abras.

Em julho de 2009, o economista carioca Gabriel Buchmann estava prestes a completar uma viagem de um ano à Ásia e à África e retornar ao Brasil. Depois de visitar quase 30 países com o objetivo de se preparar para um estudo envolvendo políticas públicas voltadas para nações pobres, o estudante decidiu subir até o pico de uma montanha no Maláui como última etapa de sua jornada – e dezessete dias depois de dispensar o guia no meio do percurso e desaparecer, foi encontrado morto por dois moradores locais. Agora, seus últimos 70 dias de vida são recriados pelo diretor Fellipe Barbosa, que foi seu amigo de juventude e já havia comandado duas excelentes obras: o documentário Laura e a ficção Casa Grande (além de colaborar com o roteiro do igualmente soberbo Sangue Azul).

Estruturado como um extenso flashback que acompanha o protagonista (Zappa) e sua namorada Cristina (Abras) durante passagens específicas deste período final de sua vida, Gabriel e a Montanha não é exatamente uma ficcionalização da jornada do personagem-título, já que combina aspectos documentais à narrativa: além de realmente ser rodado nos locais pelos quais o jovem passou, o filme utiliza, em seu elenco, algumas das pessoas reais que com ele conviveram, trazendo também depoimentos que, ouvidos em off, conferem um toque ainda mais pessoal e íntimo à obra.

Assim, Barbosa não vê problema em incluir um plano no qual uma criança que participa da cena olha diretamente para a câmera, por exemplo, já que, de forma indireta, ele mesmo se assume como parte do processo – e, de maneira similar, várias fotos tiradas pelo verdadeiro Gabriel pontuam a projeção, embaçando ainda mais a fronteira entre a realidade e a ficção. Neste sentido, é importante também reconhecer os esforços feitos pelos realizadores para pintar um retrato amplo das culturas e da população nativas, fugindo de estereótipos e de retratos simplistas e refletindo, com isso, os esforços do próprio Gabriel em suas viagens.

Interpretado com sensibilidade por João Pedro Zappa (que eu já havia elogiado ao escrever sobre Boa Sorte), o protagonista é um jovem repleto de empatia e que, justamente por demonstrar respeito e interesse pelas pessoas que encontra, fugindo de qualquer experiência como mero turista, logo conquista o carinho destas, chegando a dividir a cama como hóspede improvisado de indivíduos que pouco antes eram meros desconhecidos. No entanto, o diretor não comete o erro de beatificar o amigo-convertido-em-personagem, que também acaba se apresentando como um sujeito que às vezes se comporta de forma egoísta e mesmo machista com a namorada – e a impaciência demonstrada por esta na ótima performance de Caroline Abras deixa claro como a dinâmica do casal podia se mostrar complicada (o que, consequentemente, a torna mais real). Além disso, Gabriel pontualmente exibe uma arrogância irritante, o que se contrapõe à gentileza com a qual trata os novos amigos e as crianças que conhece.

Evocando uma tensão crescente subjacente à viagem do rapaz e que é fruto do fato de sabermos que cada nova etapa de sua jornada o aproxima ainda mais da morte, Gabriel e a Montanha é um filme comovente e trágico, mas que também consegue celebrar a curta vida do brasileiro. Sim, ele foi, por negligência ou teimosia, responsável pelo próprio fim precoce (e várias vezes pensei no Christopher McCandless cuja história é contada em Na Natureza Selvagem), mas isto só torna a tragédia ainda maior.

E ao ver a imagem do verdadeiro Gabriel nos segundos finais da projeção, acabei sentindo uma fisgada que sugere não só a eficácia desta obra, mas a dor experimentada por aqueles que o conheceram.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Cannes 2017.

22 de Maio de 2017

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.