Críticas por Pablo Villaça

Poster: Rodin
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
21/09/2017 24/05/2017
Distribuidora
Mares Filmes

 

 


Rodin
Rodin

Rodin

Dirigido e roteirizado por Jacques Doillon. Com: Vincent Lindon, Izïa Higelin, Séverine Caneele, Bernard Verley, Anders Danielsen Lie, Arthur Nauzyciel, Olivier Cadiot.

Escrito e dirigido pelo veterano cineasta francês Jacques Doillon, Rodin é um filme curioso: ao decidir contar parte da trajetória do escultor Auguste Rodin (Lindon), o longa opta por se concentrar não em sua formação, sua trajetória rumo ao reconhecimento ou mesmo em sua concepção de “O Pensador”, sua obra mais célebre, mas sim nos anos que dedicou a criar a estátua de Balzac e durante os quais manteve um relacionamento tempestuoso com Camille Claudel (Higelin).

Aliás, ao longo das duas horas de projeção, Doillon e o montador Frédéric Fichefet fazem elipses em momentos que muitos considerariam como essenciais, o que, de forma curiosa, acaba reforçando a montanha-russa representada pelo romance entre os dois escultores, já que em um instante os vemos felizes e apaixonados apenas para, no segundo seguinte, surgirem há meses sem se encontrar. Além disso, o filme se constrói principalmente em torno de longas trocas de diálogos, o que por vezes o faz soar teatral – especialmente por ser quase todo ambientado dentro do estúdio de Rodin.

Mas que estúdio: criado pela excelente designer de produção Katia Wyszkop, o espaço de trabalho do protagonista é um depósito de reproduções de corpos contorcidos e de pedaços soltos de membros que faziam parte de projetos maiores, tornando-se ainda mais convincente graças a detalhes como as manchas de tinta espirradas por todos os lados, da sujeira dominante e dos materiais espalhados pelas prateleiras. Enquanto isso, Lindon surge mais do que convincente como o personagem-título: quando o vemos caminhando em volta de uma escultura, por exemplo, seu olhar sugere um estudo meticuloso dos toques seguintes (que, por sinal, o vemos aplicando com agilidade), ao passo que são evidentes o seu desejo por Claudel e o seu dilema por insistir em manter-se leal à antiga companheira Rose Beuret (Séverine). Izïa Higelin, por sua vez, incorpora bem o ressentimento de Claudel diante do sexismo que prejudica sua carreira e mesmo aquele com que enxerga o amante por atribuir a este parte da responsabilidade por não ser levada a sério como artista independente.

Hábil ao retratar a maneira sensual com que Rodin toca tanto o corpo de sua(s) amada(s) quanto os objetos ao seu redor (como troncos de árvore, plantas e o mármore), o filme sugere que a atenção dispensada pelo escultor a todos estes elementos é a mesma; o que muda é apenas a intensidade do toque. Mas ainda mais fascinante é constatar como a insistência do artista plástico de palpar tudo que vê soa como um esforço para estimular sua memória tátil, como se ele quisesse criar um repositório de texturas e formas em sua mente e em suas mãos para utilizá-lo quando necessário.

E são elementos como este que tornam Rodin uma obra eficaz, ainda que irregular.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Cannes 2017.

24 de Maio de 2017

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.