Críticas por Pablo Villaça

Poster: mãe!
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
21/09/2017 13/09/2017
Distribuidora
Paramount

 

 


mãe!
mother!

mãe!

Dirigido e roteirizado por Darren Aronofsky. Com: Jennifer Lawrence, Javier Bardem, Ed Harris, Michelle Pfeiffer, Brian Gleeson, Domhnall Gleeson, Kristen Wiig.

Parte 1: O Significante

mãe! (assim mesmo, com minúscula) é um filme desagradável. Frequentemente angustiante e sombrio, este novo trabalho de Darren Aronofsky tem um primeiro ato que inquieta, um segundo que incomoda e um terceiro que chega próximo do insuportável.

A propósito: estou elogiando a obra.

Um equívoco comum é o de achar que, para ser bom, um filme tem que ser “agradável”, “divertido” ou mesmo funcionar como entretenimento. Pois algumas das minhas memórias mais marcantes em uma sala de projeção envolveram obras que me deixaram tão mal que estou certo de que jamais as verei novamente, por mais que as admire: O Quarto do Filho, Amor e Ônibus 174, por exemplo. Como toda experiência, o Cinema pode usar a dor para se comunicar – e mãe! é um filme que arde continuamente até se abrir numa ferida cheia de pus. Se você não gostou desta frase, espere até ver o longa.

Outra lição importante que mãe! reforça é a de que há uma diferença inegável entre o que um filme é e o que significa, o que permite que você o aprecie como narrativa sem necessariamente compreender o que esta expressou. Pois o que mãe! é fica claro logo em seus primeiros minutos: um exemplar do gênero “horror”. Isto se torna patente através da maneira como Aronofsky abre a projeção, que salta rapidamente entre uma mulher em chamas, um diamante que parece ressuscitar um casarão e uma mulher acordando sozinha em sua cama e percorrendo vários aposentos escuros em busca do marido enquanto estalos na madeira sugerem presenças ocultas nas sombras. Vivida por Jennifer Lawrence, a protagonista (que os créditos identificam apenas como “Mãe”) reside em uma casa isolada com o poeta interpretado por Javier Bardem (identificado como “Ele”), que enfrenta um bloqueio criativo desde que seu antigo lar foi destruído em um incêndio. Certa noite, porém, eles recebem a visita inesperada do Homem (Harris), um médico que parece ter ido parar ali por acaso e que logo chama também sua esposa, a Mulher encarnada com intensidade alarmante por Michelle Pfeiffer. A partir daí, as coisas se tornam cada vez mais perturbadoras, trazendo ecos de O Bebê de Rosemary, O Anjo Exterminador e, em seu clímax, de uma mistura surpreendente entre A Noite dos Mortos-Vivos e Filhos da Esperança.

Claustrofóbico desde a primeira aparição da personagem-título, mãe! é rodado por Aronofsky e pelo diretor de fotografia Matthew Libatique com uma preponderância de quadros fechados que, tornando-se ainda mais sufocantes graças ao contraste entre os interiores escuros e a luz externa superexposta que entrevemos pelas janelas, nos deixam sempre próximos à personagem, que seguimos de perto em planos criados com o uso de uma steadicam que, por vezes, não se contenta em permanecer nas costas da atriz, girando ao seu redor como se obcecada em testar nossa capacidade de acompanhar aquela mulher. Além disso, quando vemos a Mãe à distância, ela surge frequentemente emoldurada por batentes de portas que parecem oprimi-la ainda mais, salientando também sua solidão. Enquanto isso, o design de produção de Philip Messina concebe a casa que abriga toda a narrativa em uma construção com ecos vitorianos (olha o “horror” aí novamente) que, situada no meio de uma clareira verde cercada por uma densa floresta, não conta com qualquer estrada ou caminho saindo de sua varanda de madeira, que já se abre diretamente para uma relva alta que parece intocada por pés humanos.

Neste sentido, vale apontar, é fascinante perceber como mesmo quando vemos a Mãe nesta varanda, a impressão é a de que segue aprisionada, já que as composições e lentes empregadas por Libatique parecem transformar a floresta em um paredão intransponível diante dela. Da mesma forma, o belíssimo design de som cria contrastes fabulosos entre o silêncio e o tumulto que pontualmente toma conta do lugar – e, com isso, a quietude que no início nos perturbava aos poucos passa a ser desejada pelo espectador em busca de um alívio do caos que os ruídos passam a representar. Assim, de um modo ou de outro, a sensação constante que experimentamos é a de que algo muito ruim está acontecendo ou prestes a acontecer, mesmo que não possamos identificar exatamente que “algo” seria este – um efeito alcançado também pelo excelente Império dos Sonhos, de David Lynch.

O isolamento da protagonista, claro, é o principal motor dramático do longa, sendo ressaltado não só através da fotografia e do som, mas também da postura de seu marido na maior parte do tempo: frequentemente tomando decisões sem consultá-la e compartilhando momentos que deveriam ser só seus (notem sua frustração ao perceber que ele já havia falado com sua editora), Ele parece estar sempre deixando a esposa sozinha (“Volto já” se torna quase um bordão), exibindo um egoísmo que pode ser percebido até mesmo em sua incapacidade de escrever e que seu narcisismo converte em uma perda para toda a humanidade – e Bardem é hábil ao não transformá-lo em um vilão, levando a mulher (e o espectador) a sentir alívio sempre que retorna, mesmo que já saibamos que provavelmente se afastará novamente. Jennifer Lawrence, por sua vez, evoca a confusão, a tristeza e a devoção da Mãe com energia, sendo particularmente eficiente ao transmitir a frustração crescente da personagem diante da invasão de seu lar e da perda de seu controle sobre este. Para completar, se Pfeiffer acaba se destacando pelo veneno constante de seus modos, Ed Harris traz uma vulnerabilidade tematicamente importante para o papel (discutirei isso na segunda parte do texto), ao passo que os irmãos Brian e Domhnall Gleeson protagonizam uma cena breve, mas fundamental na projeção (aliás, é incrível como Domhnall parece incapaz de fazer um filme ruim).

Mas o que mais encanta nestas performances é o fato de conseguirem se tornar distintas, particulares, sem jamais perderem a capacidade de seguir como o que foram feitas para ser: símbolos. Afinal, cada uma daquelas pessoas (ou “pessoas”) é, essência, um conceito abstrato, não um indivíduo.

Não que reconhecer o que representam seja necessário para apreciar a força narrativa do filme.

 

Parte 2: O Significado

(Contém spoilers.)

O processo criativo é doloroso. Como explicou Thomas Mann, por exemplo, “o escritor é um indivíduo para o qual a escrita é mais dolorosa do que para as outras pessoas”. Já Frank Norris, numa frase frequentemente (e incorretamente) atribuída a Dorothy Parker, observou que “odiava escrever, mas amava ter escrito”. Particularmente, considero o ato da criação uma versão mais sádica do mito de Sísifo, já que, em vez de se frustrar ao ver a pedra de mármore rolar morro abaixo quando quase chegava no topo, o escritor experimenta esta frustração antes, durante e depois de alcançar o cume. Afinal, há sempre algo a expressar e a insegurança de não ter a capacidade de fazê-lo – ou de tê-lo feito - apropriadamente.

Pois mãe! é um filme sobre o processo de Criação e da Criação – o artístico e o divino. Identificado apenas como “Ele”, o poeta interpretado por Javier Bardem é ao mesmo tempo signo do Artista e de Deus; sua obra, signo da Arte e do Universo. Não é coincidência que, ao ser questionado pela personagem de Jennifer Lawrence sobre quem é, Ele responde “Eu sou o que sou”, repetindo a resposta de Deus a Moisés em Exodus – e aqui é bom lembrar que Darren Aronofsky dirigiu também Noé, que não só lidava com um Criador frio e impiedoso como o de Bardem, mas também recontava a morte de Abel nas mãos do irmão (o paralelo com os personagens vividos pelos irmãos Gleeson é óbvio, valendo também observar como Ed Harris e Michelle Pfeiffer acabam representando Adão e Eva/Lilith). Aliás, até mesmo o destrutivo fundamentalismo religioso discutido em Noé encontra reflexo aqui na postura dos fãs/seguidores do poeta, estabelecendo um eco temático curioso com o trabalho anterior do cineasta.

Por sinal, mãe! também ecoa Cisne Negro ao retratar o desgaste provocado pela realização artística, diferenciando-se, porém, ao substituir a motivação ameaçadora oferecida pela rivalidade entre as duas bailarinas de Cisne Negro pelo sofrimento altruísta da personagem-título encarnada por Jennifer Lawrence (aliás, é curioso que mãe! tenha estreado no Brasil na mesma semana que o fantástico brasileiro Pendular, que lida com temas similares). Refletindo a dualidade Artista/Deus de Bardem ao tornar-se simultaneamente Musa e (Mãe) Natureza, a esposa representada por Lawrence reconstrói, ampara, cuida, inspira, sofre e se martiriza pela Obra do marido, revelando aos poucos ser mais do que uma personagem, tornando-se um Símbolo – algo lindamente capturado pelos responsáveis pelo cartaz da produção visto ao lado deste texto e que traz a atriz como uma versão daquelas imagens sagradas presentes em todas as igrejas.

Como símbolo da Musa, claro, a Mãe tem seu trabalho iniciado quando Ele, esvaziado pela concepção de seu último poema, tem seu lar incendiado, sendo importante notar que a mulher carbonizada no início da projeção é diferente daquela do final, já que se tratam de musas distintas – a primeira morrendo após inspirar o artista em sua obra anterior. A casa, claro, é signo do processo do poeta, sendo sua destruição um reflexo do fim de seu ciclo criativo e do vazio deixado após colocar sua alma no papel. Agora “bloqueado” por não ter o que expressar, Ele depende de uma nova Musa (e reparem como a Mãe é constantemente apontada como sua “inspiração”) que reconstrua sua casa/alma e, com isso, sopre nova vida em sua Arte. É apenas natural, assim, que em seus impulsos criativos ele seja observado pela “esposa” e que esta encare o caderno em branco com frustração ao vê-lo sair da sala.

A coesão do design de mãe!, é importante reparar, pode ser constatado até mesmo na caligrafia do título, já que é à mão que Ele deposita (ou tenta depositar) suas ideias no papel. Do mesmo modo, é interessante notar como, ao reconstruir a casa (o arcabouço criativo do poeta), a Mãe permite que as ideias voltem a visitá-la – e uma delas, claro, surge representada por Ed Harris. Percebam, aliás, como este bate à porta no exato momento em que o poeta luta para escrever, levando-o a correr para receber o Homem que traz, consigo, uma história repleta de dor e melodrama que tem o potencial de servir como semente de uma nova obra, despertando novos conceitos na mente do artista (conceitos estes que ganham os rostos de Pfeiffer e dos irmãos Gleeson, que vivem um pequeno melodrama com óbvio potencial narrativo). Aos poucos, porém, algumas destas ideias são descartadas, possivelmente por refletirem conceitos já utilizados pelo escritor (as queimaduras do Homem e da Mulher remetem à obra anterior e ao incêndio resultante), o que não as impede de servirem como adubo para outras – e, de fato, um novo personagem surge mais tarde (o do “sacerdote”) que, embora diferente, tem a voz de Harris.

Enquanto isso, a Mãe/Musa/Natureza de Lawrence carrega o bebê do poeta, que, não à toa, se mexe pela primeira vez no exato instante em que o pai completa seu novo poema, já que ambos são frutos da Criação inspirada pela personagem de Lawrence e gerada pelo de Bardem – e não é coincidência que a criança nasça justamente no escritório dEle, já que é ali que suas obras ganham vida.

No entanto, concluído o processo e com seu resultado entregue ao consumo do público que o devora apenas para exigir mais do criador, torna-se hora de buscar uma nova inspiração, o que condena a Musa à destruição juntamente com a casa que abrigou a concepção da Arte por ela motivada. Afinal, esta é a sina do artista: encontrar uma ideia, excitar-se com esta, desenvolvê-la e conclui-la apenas para ver a satisfação momentânea da Criação ser substituída pela inquietação trazida pela necessidade de ir atrás de algo novo para oferecer ao mundo.

Desta forma, o ciclo se reinicia e Ele, como Sísifo, retorna ao pé da montanha para mais uma escalada repleta de dor e incerteza.

21 de Setembro de 2017

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.