Críticas por Pablo Villaça

Poster: It - A Coisa
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
07/09/2017 08/09/2017
Distribuidora
Warner

 

 


It - A Coisa
It

It - A Coisa

Dirigido por Andy Muschietti. Roteiro de Chase Palmer, Cary Fukunaga e Gary Dauberman. Com: Jaeden Lieberher, Jeremy Ray Taylor, Sophia Lillis, Finn Wolfhard, Chosen Jacobs, Jack Dylan Grazer, Wyatt Oleff, Nicholas Hamilton, Owen Teague, Jackson Robert Scott, Stephen Bogaert, Stuart Hughes, Steven Williams, Elizabeth Saunders e Bill Skarsgård.

Pennywise é o nome do palhaço, mas não do filme, que o identifica apenas como “It”, ou, em português, “a Coisa”. Há, claro, um bom motivo para isso: Pennywise é somente uma versão possível do monstro, que pode assumir qualquer forma, adotando a estratégia de sugar da vítima seus piores temores e então atirá-los em seu rosto. Sua força, portanto, é reconhecer o que nos faz sentir vulneráveis – não o que nos enfraquece, necessariamente, mas o que achamos poder fazê-lo. Assim, a única defesa possível é perceber que o medo não é o meio de ataque, mas o objetivo final.

Neste sentido, It pode ser interpretado como uma alegoria sobre o terrorismo, que se torna cada vez parte maior de nossa realidade – e os filmes de horror, via de regra, são particularmente eficazes em sua habilidade de se transformar em metáforas que assumem novos significados de acordo com a época em que são produzidos e/ou vistos. Porém, o longa é também um retrato sensível da ansiedade característica da adolescência, um período no qual descobrimos que os adultos que antes venerávamos e julgávamos infalíveis e sábios são, na verdade, profundamente falhos e não sabem tanto quanto nos faziam crer.

Escrito por Chase Palmer, Cary Fukunaga e Gary Dauberman, It é a segunda adaptação do livro de Stephen King, que em 1990 já havia dado origem a uma minissérie dividida em duas partes e que, durando um total de três horas, contava com Tim Curry em uma performance que se tornaria um clássico cult. Ao contrário do livro e da minissérie, contudo, esta nova versão abandona a estrutura que oscilava entre as versões adultas e adolescentes dos heróis, concentrando-se apenas nestas últimas. Liderado por Bill (Lieberher), cujo irmãozinho Georgie (Scott) desapareceu misteriosamente depois de sair para brincar com um barquinho de papel na chuva, o “Clube dos Perdedores” é formado por sete jovens da pequena cidade de Derry, que, a cada 27 anos, é palco de uma série de acontecimentos trágicos envolvendo as crianças locais. Tomados por terríveis visões provocadas pelo palhaço Pennywise (Skarsgård), Bill, Richie (Wolfhard), Ben (Taylor), Mike (Jacobs), Eddie (Grazer), Stanley (Oleff) e Bev (Lillis), a única garota do grupo, ainda são forçados a lidar com o bully Henry Bowers (Hamilton) e seus capangas.

Ambientada em 1989, a narrativa segue os passos de Super 8 e Stranger Things (que também trazia o divertido Wolfhard no elenco) ao explorar a nostalgia da década de 80 através das canções e de referências a títulos como Gremlins e Os Fantasmas se Divertem, não deixando de homenagear, claro, o cineasta que se tornou ícone do período: Steven Spielberg. Aliás, assim como o responsável por E.T., o diretor argentino Andy Muschietti é hábil ao evocar o ponto de vista dos jovens personagens desde a primeira sequência, quando o posicionamento baixo da câmera nos coloca ao lado de Georgie enquanto este enfrenta o medo para entrar no porão de sua casa. Do mesmo modo, quando Stanley visita o escritório do pai e evita olhar para um quadro que considera assustador, é fácil estabelecer uma identificação a partir de nossas próprias memórias da infância, quando a imaginação conseguia transformar os objetos mais prosaicos em fonte de apreensão – e não é à toa que Pennywise, assim como seu irmão espiritual Freddy Krueger, parece se divertir muito mais apavorando suas vítimas do que eliminando-as.

Fotografado pelo brilhante sul-coreano Chung-hoon Chung, parceiro habitual de Chan-wook Park, It é um filme repleto de imagens simultaneamente belas e horrendas, empregando as sombras com talento para construir uma atmosfera lúgubre sem, com isso, sacrificar as cores – e gosto particularmente de como o diretor de fotografia contrasta o verde recorrente nos cenários com os tons quentes dos figurinos e de diversos objetos de cena (especialmente o amarelo e, evidentemente, o vermelho). Enquanto isso, o ótimo design de produção não só acerta nas cores, mas também ao conceber ambientes claustrofóbicos, com tetos baixos, corredores estreitos e um ar de decadência angustiante. Para completar, a trilha de Benjamin Wallfisch evita o exagero, optando por complementar os elementos visuais em vez de suplantá-los, funcionando bem mesmo que não consiga resistir a certos clichês ao incluir, como músicas diegéticas, a inevitável melodia em rotação lenta cantada por crianças e a batida caixinha de música com suas tristes notas metálicas.

E já que mencionei o design, é preciso reconhecer o acerto no visual de Pennywise, que ganha dentes incisivos de roedor, olhos de tom alaranjado que exibem um leve e incômodo estrabismo divergente, riscos que saem dos cantos da boca e sobem rumo à testa como chifres diabólicos e lábios de um vermelho vivo que assumem uma natureza animalesca graças à saliva que constantemente escorre por eles quase como em antecipação pela refeição que se aproxima – e tudo se torna mais eficaz com a composição de Bill Skarsgård (filho de Stellan e irmão de Alexander), que adota uma voz desafinada condizente com a ideia que um psicopata faria de um palhaço. Já o elenco juvenil se mostra coeso e carismático, criando uma dinâmica agradável que sugere o forte elo entre aquelas crianças sem esquecer como esta é uma idade na qual provocações mútuas e ofensas às famílias uns dos outros não apenas são constantes como esperadas. Aliás, o humor presente nestas interações é um contraponto importante ao medo que domina os heróis, remetendo a uma outra excelente adaptação de um texto de King, o jovem clássico Conta Comigo.

Como naquela obra, diga-se de passagem, os adultos presentes em It se mostram ou ausentes ou hostis – e até as demonstrações de amor (ou “amor”) adquirem um caráter excessivamente sufocante, como no caso da mãe superprotetora de Eddie. Aliás, há passagens nas quais os adultos são vistos como autênticos predadores, sendo especialmente chocante constatar o inconfundível subtexto de abuso sexual presente nas interações entre Bev e o pai (e, de forma similar, basta uma rápida conversa com o farmacêutico local para que este também assedie a pré-adolescente). Não é surpresa, portanto, que um elemento importante da estrutura do filme seja a força crescente dos jovens diante dos mais velhos, o que resulta em arcos dramáticos que têm como ponto importante a rejeição da autoridade destes últimos.

O que nos traz de volta ao ponto-chave desta adaptação de It, que compreende que o verdadeiro horror experimentado por aquelas crianças é a consciência não só de que os adultos não detêm as respostas e que, portanto, terão que lidar sozinhas com aquilo que as ameaça, mas que a idade não trará as soluções e nem as tornará automaticamente mais sábias. E o pior: que sempre haverá um Pennywise pronto a saltar das sombras para aterrorizá-las e tentar levá-las a se sentirem incapazes e vulneráveis. E é a universalidade desta percepção que torna It tão assustador e atual.

08 de Setembro de 2017

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.