Críticas por Pablo Villaça

Poster: Bingo - O Rei das Manhãs
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
24/08/2017 Unknown
Distribuidora
Warner

 

 


Bingo - O Rei das Manhãs
Bingo - O Rei das Manhãs

Bingo - O Rei das Manhãs

Dirigido por Daniel Rezende. Roteiro de Luiz Bolognesi. Com: Vladimir Brichta, Leandra Leal, Cauã Martins, Augusto Madeira, Tainá Müller, Soren Hellerup, Emanuelle Araújo, Domingos Montagner, Pedro Bial, Ana Lúcia Torre.

Bingo – O Rei das Manhãs tinha tudo para ser um filme esquemático e clichê – afinal, a trajetória de seu protagonista não apenas segue a mais do que utilizada lógica de “ascensão-apogeu-queda-ressurreição” como ainda lida com o velho arquétipo do “palhaço triste”. No entanto, ainda que escorregue aqui e ali em convenções e artifícios óbvios, esta estreia na direção do excelente montador Daniel Rezende é uma obra que conta com a mesma energia – e também um pouco da insanidade – de seu personagem-título.

Claramente inspirado na vida de Arlindo Barreto, um dos rostos por trás da maquiagem da versão brasileira do Bozo, o roteiro escrito por Luiz Bolognesi acompanha o ator Augusto Mendes (Brichta), que, filho da veterana atriz Marta (Torre), protagonizou pornochanchadas de sucesso no final da década de 70 e início da de 80, e acabou sendo contratado pelo SBT (aqui, TVP) para viver o palhaço em um programa infantil criado para competir com a Globo (aqui, TV Mundial). Alçado à condição de fenômeno de audiência embora proibido de revelar sua identidade para o público, o sujeito aos poucos se torna dependente de álcool e cocaína, entrando em conflitos constantes com a diretora Lúcia (Leal) e passando a negligenciar o filho Gabriel (Martins).

Sem se esforçar muito para disfarçar as inspirações reais para os personagens e marcas que retrata (curiosamente, apenas Gretchen, interpretada por Emanuelle Araújo, tem seu nome mantido também em sua versão semi-ficcional), Bingo traz logomarcas que remetem diretamente às emissoras envolvidas, substitui a peruca vermelha do Bozo por uma azul e recria passagens específicas do programa original, o que lhe permite tomar certas liberdades com a história sem correr o risco de ofender algum dos envolvidos (a exceção, novamente, é Gretchen). Além disso, o roteiro de Bolognesi jamais se torna episódico – um equívoco comum em cinebiografias -, traçando a jornada de Augusto com fluidez e levando o espectador a perceber a progressão lógica dos acontecimentos (embora não tenhamos uma ideia clara de quanto tempo se passa do início ao fim da narrativa, já que, mesmo parecendo anos, o filho do protagonista jamais parece crescer).

Encarnado por Vladimir Brichta com a intensidade de um homem cuja vitalidade se compara apenas ao seu talento para a autodestruição, Augusto é um daqueles personagens que se revelam um presente para qualquer ator, já que vai da humilhação à arrogância e da gentileza à brutalidade, permitindo que seu intérprete crie arcos dramáticos bem definidos que refletem a evolução – ou involução – provocada por suas experiências. Aliás, há também o conflito que se origina do fato bastante particular de um homem que é ao mesmo tempo famoso e anônimo, que atinge o sucesso sem receber o reconhecimento que normalmente vem atrelado a este – uma armadilha perfeita para egos frágeis. Como se não bastasse, a devoção de Augusto por sua mãe é retratada pelo filme com tons que por vezes cruzam a linha do amor filial e ganham leves contornos incestuosos – algo que fica evidente em uma cena desconfortável (e ótima) na qual os dois recitam diálogos de um papel célebre do passado da atriz. Enquanto isso, Leandra Leal confere a Lúcia uma postura ereta, rígida, que sugere um esforço constante para ser levada a sério em um universo profissional dominado por homens, brilhando particularmente na cena em que Augusto, numa postura que hoje facilmente seria encarada como assédio, insiste para que ela solte os cabelos e vemos a diretora encará-lo ao mesmo tempo com ressentimento, raiva e olhos úmidos que ela se recusa a permitir que derramem lágrimas. É uma personagem difícil que a atriz, uma das melhores de sua geração, transforma em uma figura multidimensional e impactante.

Estreando na direção depois de uma carreira impecável como montador (Cidade de Deus, Água Negra, Narradores de Javé, Diários de Motocicleta, Tropa de Elite 1 e 2, Ensaio Sobre a Cegueira, As Melhores Coisas do Mundo, Robocop, A Árvore da Vida), Daniel Rezende imprime agilidade e ritmo à narrativa desde os movimentos de câmera (como em planos-detalhe que trazem os ajustes de uma mesa de som sendo manipulados) até os cortes que tornam as transições de cenas dinâmicas e elegantes (como a elipse de Gretchen da boate para o programa de Bingo). Do mesmo modo, Rezende não teme fugir do naturalismo absoluto ao criar momentos nos quais a luz não-diegética é empregada para ilustrar o estado emocional dos personagens – como no instante em que o personagem-título recebe um prêmio -, embora seja também hábil ao transformar as luzes daquele universo em signos semânticos, como na cena em que uma lâmpada que ilumina o retrato de Marta Mendes é apagada, ou outro, ainda mais belo, que traz Augusto caminhando em um espaço estreito enquanto a câmera se inclina num ângulo de 90 graus e os holofotes sobre sua cabeça vão sendo desligados um a um. Ok, o diretor se empolga demais ao investir num plano-sequência que, mesmo tecnicamente admirável, serve apenas como distração ao sair do apartamento do protagonista e reencontrá-lo num hospital (até então, a falta de cortes na cena havia servido para ressaltar seu desespero), mas estes tropeços são mais do que compensados por momentos simbolicamente mais sutis como aquele em que Gabriel sopra uma vela no formato de Bingo, indicando ao mesmo tempo o declínio do pai e sua própria constatação de que este já não é mais o sujeito atencioso de antes.

Beneficiado por um design de produção excepcional que faz um ótimo trabalho de recriação de época sem deixar de usar os cenários e figurinos como reflexos das personalidades de seus ocupantes, Bingo é embalado ainda por uma trilha que não se apega apenas às músicas mais óbvias do período, criando uma costura sonora que sugere a época sem precisar martelá-la nos ouvidos do público.

Divertido ao explorar o absurdo da situação (hoje em dia, a identidade do palhaço seria revelada em duas horas de crowdsourcing na Internet), Bingo – O Rei das Manhãs é uma obra que diverte pela nostalgia sem deixar de lado o desenvolvimento de seus personagens e o drama de suas situações, resgatando, no processo, a história de um homem que compreendia o papel anárquico e questionador do palhaço diante do poder, mas que, por não ter a estrutura psicológica necessária para lidar com a própria situação, permitiu que esta quase o destruísse.

07 de Setembro de 2017

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.