Críticas por Pablo Villaça

Poster: Planeta dos Macacos: A Guerra
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
03/08/2017 14/07/2017
Distribuidora
Fox

 

 


Planeta dos Macacos: A Guerra
War for the Planet of the Apes

Planeta dos Macacos: A Guerra

Dirigido por Matt Reeves. Roteiro de Matt Reeves e Mark Bomback. Com: Andy Serkis, Woody Harrelson, Karin Konoval, Steve Zahn, Amiah Miller, Terry Notary, Michael Adamthwaite, Toby Kebbell, Gabriel Chavarria, Judy Greer, Ty Olsson, Sara Canning, Devyn Dalton, Aleks Paunovic.

O gorila estende o braço e, num movimento lento e cuidadoso, arranca a flor rosa da árvore que se projeta no meio da neve, colocando-a com delicadeza atrás da orelha esquerda da garotinha à sua frente, que sorri feliz. Situada no meio de um filme que traz A Guerra como subtítulo, esta cena é um resumo perfeito das qualidades do mais recente capítulo da saga Planeta dos Macacos, uma obra que constrói sua narrativa com calma e segurança, preferindo se concentrar mais em seus personagens do que em explosivas sequências de ação.

Novamente dirigido por Matt Reeves a partir de um roteiro escrito por este ao lado de Mark Bomback, A Guerra completa a trajetória do chimpanzé Caesar (Serkis), que conhecemos ainda filhote em A Origem e seguimos em O Confronto enquanto se transformava no líder dos primatas que, alterados por um vírus, tornavam-se cada vez mais inteligentes enquanto os humanos que antes os dominavam eram dizimados pela epidemia. Determinado a conduzir seus seguidores até uma terra distante na qual estarão protegidos dos ataques do exército comandado pelo Coronel (Harrelson), Caesar sofre uma perda que o leva a ser tomado pelo mesmo ódio que consumiu seu antigo amigo Koba (Kebbell) e que agora o impele justamente a ir ao encontro do temido militar, sendo acompanhado na jornada pelo bondoso orangotango Maurice (Konoval), pelos chimpanzés Rocket (Notary) e “Macaco Mau” (Zahn), pelo gorila Luca (Adamthwaite) e pela menina Nova (Miller).

Diferindo dos dois capítulos anteriores ao não dividir sua ação entre núcleos dominados por humanos e macacos, A Guerra investe praticamente toda a projeção na relação entre Caesar e seus companheiros – e, assim, é preciso admirar a inteligência da estratégia de Woody Harrelson, que, sabendo que conta com um tempo limitado de tela, compõe seu Coronel como uma figura obviamente inspirada no Kurtz vivido por Marlon Brando em Apocalypse Now, evocando de forma econômica uma série de símbolos e características, o que não o impede de trazer também seus próprios toques – e um elemento trágico - ao personagem. Dito isso, assim como ocorria antes, mais uma vez são os macacos que se estabelecem como as figuras mais complexas e fascinantes da narrativa: Maurice, por exemplo, comove com seus modos e olhar gentis, ao passo que “Macaco Mau” surge como uma criatura expressiva que, mesmo atuando principalmente como alívio cômico, ganha a oportunidade de revelar um lado mais dramático com o passar do tempo. Além disso, o roteiro encontra espaço para instantes nos quais os demais integrantes do grupo possam se destacar, incluindo aquele que descrevi inicialmente.

Contudo, esta nova trilogia é, em essência, a história de Caesar – e graças à tecnologia usada para criá-lo, Andy Serkis tem a inigualável oportunidade de interpretar um personagem em todos os pontos de sua existência, do nascimento à velhice. Exibindo pelos tomados pelo grisalho e uma postura na qual a autoridade conquistada se alterna com uma clara exaustão, Caesar é um protagonista fascinante e multidimensional, sendo capaz de condenar atos de ódio ao mesmo tempo em que não consegue evitar se entregar a eles. Com uma dicção pausada que Serkis emprega para sugerir a dificuldade de um ser que aprendeu a falar, mas não se sente totalmente confortável em se expressar verbalmente, o chimpanzé é um herói trágico que inspira nossa admiração e nossa pena, que nos convence de sua força sem que ignoremos sua vulnerabilidade e que nos leva a torcer por sua felicidade, mesmo que saibamos que esta é impossível.

Dito isso, ao ler o parágrafo acima você pode ter percebido que tratei a performance de Serkis e a natureza de Caesar como se estivéssemos falando de um ator e de um personagem convencionais – quando, de fato, o que temos é uma criação que, em última análise, é levada à tela através dos uns e dos zeros do digital. Esta, por sinal, é a virtude mais impressionante de A Guerra: durante a maior parte do tempo, esquecemos completamente de que aqueles primatas não são reais, um efeito que A Origem muitas vezes falhava em alcançar. Com o avanço da tecnologia, porém, o diretor Matt Reeves pode incluir closes fechadíssimos sem que a fantasia seja destruída, já que a textura da pele, as sombras e os menores tiques jamais deixam de ser absolutamente convincentes, mesmo quando surgem sob a chuva, o vento ou a neve. Além disso, a performance capture leva para o filme cada gesto ou desvio de olhar dos atores – e apenas a expressão simultânea de raiva e desprezo no olhar de Caesar ao encontrar um orangotango traidor já deveria ser o bastante para render a Serkis indicações por sua atuação.

Da mesma forma, eu não me surpreenderei caso o experiente diretor de fotografia Michael Seresin venha a ser reconhecido por seu excepcional trabalho em A Guerra, que, com sua paleta de cores vivas, é o capítulo esteticamente mais admirável da trilogia. Refletindo a integração harmoniosa dos macacos com a natureza, Seresin usa tons fortes, saturados, ao enfocar os ambientes ocupados por estes, contrapondo-os ao cinza sem vida e sufocante do “quartel” chefiado pelo Coronel e os campos de trabalho criados pelo militar. Ocasionalmente remetendo a filmes de guerra – especialmente aqueles situados no Vietnã -, A Guerra transforma a selva em um espaço ameaçador e claustrofóbico sempre que observada a partir do ponto de vista dos humanos, retratando-a como um lugar mais agradável ao se concentrar no grupo de Caesar (e o mesmo ocorre com outras locações, como podemos notar no lindo plano em uma praia no qual vemos o herói e seus companheiros cavalgando em contraluz).

Rico em subtextos com implicações políticas e sociais – algo que observei também em seus antecessores -, A Guerra não tenta ser particularmente sutil em seus comentários: em certo momento, por exemplo, ao comentar o esforço do Coronel para construir uma barreira em torno do quartel, alguém faz uma referência clara ao governo Trump ao afirmar “Esse muro é uma loucura!” e, de modo similar, o tratamento dispensado aos primatas que trabalham para os humanos funciona como uma clara alegoria das condições nas quais minorias étnicas vivem em boa parte do mundo.

Flertando também com o subgênero “filmes de prisão”, o diretor Matt Reeves demonstra uma coragem formidável ao resistir ao caminho natural de um capítulo final de uma trilogia como esta e mergulhar seus personagens em sequências de ação contínua; em vez disso, sua abordagem vai constantemente na contramão: ao retratar certo personagem sendo morto, por exemplo, o cineasta usa um lento zoom na direção das sombras vistas através da lona de uma tenda, trazendo o som desta estalando sob o vento como um acompanhamento triste do que está ocorrendo fora de campo. Aliás, o design sonoro de A Guerra é fabuloso e, como os demais elementos narrativos, surpreendente ao investir com frequência no silêncio – uma lógica que o compositor Michael Giacchino segue em sua magnífica trilha (uma das melhores de sua carreira) e que substitui a grandiosidade pelo intimismo e a tensão pela melancolia.

Tratando cada cena como uma oportunidade de desenvolver seus personagens, Planeta dos Macacos: A Guerra é um filme com ritmo quase contemplativo e que explora suas pausas com sensibilidade. No processo, planta o espectador firmemente ao lado dos primatas e converte a humanidade não como algo a ser salvo, mas como uma ameaça cujo extermínio merece apenas celebração.

Considerando o estado do Brasil e do planeta em 2017, devo dizer que esta não é uma mensagem das mais absurdas.

09 de Agosto de 2017

(Os humanos podem ter dificuldade para evitar sua extinção na série Planeta dos Macacos, mas você certamente pode evitar a do Cinema em Cena na vida real. Se você curte as críticas que lê aqui, é importante que saiba que o site precisa de seu apoio para continuar a existir e a produzir conteúdo de forma independente. Para saber como ajudar, basta clicar aqui - só precisamos de alguns minutinhos para explicar. E obrigado desde já pelo clique!)

Assista também ao videocast - sem spoilers - sobre o filme:

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.