Críticas por Pablo Villaça

Poster: Em Ritmo de Fuga
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
27/07/2017 28/06/2017
Distribuidora
Sony

 

 


Em Ritmo de Fuga
Baby Driver

Em Ritmo de Fuga

Dirigido e roteirizado por Edgar Wright. Com: Ansel Elgort, Jon Hamm, Eiza González, Lily James, Jon Bernthal, CJ Jones, Flea, Jamie Foxx e Kevin Spacey.

A discussão crítica sobre gêneros cinematográficos é antiga e complexa: quais são os elementos que definem um filme como integrante de um gênero ou outro? O que faz uma obra ser categorizada como “policial” ou “suspense”? O que importa mais nesta classificação: a intenção do longa ou sua estrutura? Sua trama ou sua narrativa? E como se encaixam as performances do elenco neste esforço, já que gêneros bem definidos costumam envolver tipos clássicos em suas caracterizações?

Em outras palavras: Em Ritmo de Fuga é, em sua essência, um filme de ação ou um musical?

Seus personagens – na maior parte do tempo – não cantam ou dançam, as músicas (nenhuma delas original) não têm o papel de avançar a história em si e as sequências mais elaboradas em termos de ação têm como centro perseguições e tiroteios. E, no entanto, o que o diretor Edgar Wright cria aqui é um experimento musical que, em seus melhores momentos, me remeteram diretamente às harmonias criadas a partir de sons do cotidiano por Rouben Mamoulian em seu lindo Ama-me Esta Noite, de 1932.

A trama, claro, não é das mais originais, girando em torno de um jovem que, conhecido como Baby (Elgort), atua como motorista nos assaltos organizados pelo poderoso Doc (Spacey), sendo uma espécie de versão quase adolescente do protagonista de Drive. Obrigado a participar de um “último golpe”, ele enfrenta memórias dolorosas enquanto tenta proteger seu pai adotivo (Jones) e a amada Debora (James) da ameaça representada por Doc e pelo violento Bats (Foxx) – este último, um dos integrantes da quadrilha composta também pelo casal formado por Buddy (Hamm) e Darling (González), aspirantes a Bonnie e Clyde. Capaz de executar manobras incríveis sem qualquer esforço aparente, Baby pouco fala, preferindo se concentrar nas músicas que saem dos fones sempre grudados em seus ouvidos.

E é nesta última característica que Em Ritmo de Fuga encontra a desculpa perfeita para construir sua lógica narrativa, preenchendo quase todos os 112 minutos de projeção com as canções empregadas pelo rapaz para cobrir os zumbidos constantes que o incomodam desde um acidente sofrido na infância. Assim, se logo na primeira cena vemos Baby batucando no volante, balançando a cabeça e acionando os limpadores de para-brisas para acompanhar o ritmo da composição que escuta, logo é o próprio filme que assume a tarefa de transformar as batidas em um guia para a montagem e mesmo para as ações dos personagens, usando a cadência de tiros e socos como um reflexo do compasso das músicas – e se os montadores Jonathan Amos e Paul Machliss não forem indicados aos principais prêmios da categoria ficarei chocado.

Não que este artifício de sincronia seja original; aliás, é tão estabelecido que se tornou conhecido como mickeymousing em referência à forma como era empregado por Disney nos curtas de animação protagonizados por Mickey no final da década de 20 e início da de 30 e que traziam o ratinho se movendo de acordo com a trilha sonora. No entanto, Wright e seus montadores não apenas conferem nova vida à técnica como a complementam visualmente com o mesmo dinamismo e a mesma inventividade vistos na trilogia Cornetto, composta por Todo Mundo Quase Morto, Chumbo Grosso e Heróis de Ressaca e que estabeleceu o dom do cineasta para criar humor através dos cortes e da mise-en-scène, sem depender simplesmente de diálogos engraçadinhos ou de gags físicas óbvias (algo também comprovado em sua excelente adaptação de Scott Pilgrim Contra o Mundo). Aliás, se a trilogia era uma homenagem a gêneros específicos, Em Ritmo de Fuga é também, ao seu próprio modo, um tributo ao Cinema de Walter Hill e a títulos como Os Implacáveis e o próprio Caçada de Morte, que inspiraria Drive – e não é à toa que o diretor faz questão de conferir uma atmosfera clássica às perseguições, descartando os efeitos digitais e usando motoristas profissionais e manobras reais na maior parte do tempo.

Além disso, mesmo quando não estão sendo construídos em função da música, a montagem e os movimentos de câmera trazem algumas das marcas registradas de Wright, como planos-sequência (a ida de Baby a um café remete à caminhada de Shaun no início de Todo Mundo Quase Morto) e raccords gráficos divertidos (cortando da tampa de um copo para o botão de um elevador; de Baby diante de um carro estacionado para outro plano no qual este é destruído, e assim por diante). Mas o mais admirável – e instrutivo – é constatar como, mesmo possivelmente cortando com mais frequência do que Michael Bay, Wright jamais deixa o espectador confuso com relação ao espaço da ação, mantendo uma consistência na geografia absolutamente impecável.

Como se não bastasse, o cineasta acerta também na escalação de seu elenco, provando, por exemplo, como o projeto e o personagem certos conseguem transformar um ator fraco como Ansel Elgort em uma figura fascinante (vide Adam Sandler em Embriagado de Amor) – e a mesma inexpressividade que tanto critiquei na série Divergente aqui serve para conferir uma aura de mistério e frieza ao protagonista. Menos surpreendente é a eficácia de Kevin Spacey em trazer uma ironia ameaçadora a Doc ou a maneira como Jamie Foxx transforma Bats em um indivíduo simultaneamente divertido e perigoso. E se Lily James, como Debora, traz delicadeza a uma narrativa que precisa disso como âncora emocional, Jon Hamm tem a oportunidade de viver um tipo diferente do habitual, demonstrando uma versatilidade que muitos se recusam a enxergar, ao passo que Eiza González se destaca ao viver Darling como uma mulher que se excita com a própria capacidade de manipular o parceiro, sugerindo também – e aí reside o segredo – um amor real por este.

Sem medo de abraçar a estilização completa em determinados momentos, como na cena em que vemos várias máquinas de lavar contendo tecidos de cores básicas (amarelo, azul e vermelho) ou naquela em que um personagem ameaçador é banhado por uma intensa luz vermelha, Em Ritmo de Fuga usa esta estratégia para criar um epílogo que pode ser visto como fantasia ou realidade – uma ambiguidade que serve perfeitamente aos propósitos da narrativa.

No fim das contas, minha inclinação é mesmo encarar esta obra como um musical dos mais puros; afinal, não importa se os personagens não cantam ou dançam ao longo da projeção – o filme faz isto por eles. E muito bem.

01 de Agosto de 2017

(Já que falamos de "mickeymousing", há um outro conceito que você vai adorar: o "CinemaEmCening". O que é isso? É o ato de ajudar um site do qual você gosta a se manter vivo e produzindo conteúdo de forma independente. Para saber como fazer o "CinemaEmCening", basta clicar aqui - só precisamos de alguns minutinhos para explicar. E obrigado desde já pelo clique!)

Assista também ao videocast - sem spoilers - sobre o filme:

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.