Críticas por Pablo Villaça

Poster: Dunkirk
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
27/07/2017 19/07/2017
Distribuidora
Warner

 

 


Dunkirk
Dunkirk

Dunkirk

Dirigido e roteirizado por Christopher Nolan. Com: Fionn Whitehead, Aneurin Barnard, Barry Keoghan, Tom Glynn-Carney, Jack Lowden, Will Attenborough, James D’Arcy, Harry Styles, Cillian Murphy, Mark Rylance, Tom Hardy, Kenneth Branagh e a voz de Michael Caine.

Por uma década e meia, desde sua estreia na direção em Following, Christopher Nolan parecia incapaz de errar. Surpreendendo com a estrutura de Amnésia, a atmosfera densa de Insônia (que considero melhor que o original), a abordagem crua e realista de Batman Begins, a riqueza temática de O Grande Truque, a tensão crescente de O Cavaleiro das Trevas (um dos melhores – se não o melhor – filmes sobre super-heróis) e a complexidade narrativa de A Origem, Nolan parecia ficar mais confiante e ambicioso a cada novo projeto, exibindo um virtuosismo técnico que fazia jus à inteligência dos roteiros escritos, em grande parte, em parceria com o irmão Jonathan. A partir daí, no entanto, as coisas começaram a desandar um pouco: se O Cavaleiro das Trevas Ressurge trazia alguns problemas óbvios de lógica e construção, Interestelar quase sucumbiu sob a própria pretensão, investindo num sentimentalismo que em nada combinava com o estilo normalmente racional do realizador.

O que nos traz a Dunkirk, seu décimo longa-metragem, que despertou minha admiração mais por seus aspectos técnicos do que por qualquer outra coisa, já que seu frágil roteiro chega muito perto de comprometer a força da narrativa – e considerando que este é apenas o segundo projeto que Nolan escreveu sem qualquer participação do irmão (ocupado com Westworld), suponho ser natural concluir que a falta deste é responsável por parte dos problemas aqui presentes.

Voltando a expor a obsessão do cineasta com a capacidade que o Cinema tem de manipular a estrutura temporal das histórias que conta (algo já explorado em Following, Amnésia, O Grande Truque, A Origem e Interestelar), Dunkirk tem, como seu elemento mais fascinante, justamente a maneira como desenvolve cronologicamente suas três linhas dramáticas principais, saltando fluidamente entre eventos com durações distintas: enquanto os esforços do soldado Tommy (Whitehead) para sobreviver são acompanhados por uma semana, a jornada marítima protagonizada pelo Sr. Dawson (Rylance) dura um dia, ao passo que os combates aéreos envolvendo o piloto Farrier (Hardy) transcorrem ao longo de apenas uma hora. Todos, claro, giram em torno de um dos eventos mais notórios da Segunda Guerra (e que já foi abordado, direta ou indiretamente, em títulos como Desejo e Reparação – num plano-sequência brilhante -, A Batalha da Grã-Bretanha e Rosa de Esperança): a evacuação de mais de 300 mil soldados britânicos da praia de Dunkirk, quando se viram aprisionados entre os nazistas e o mar.

Embora representando um dos aspectos mais interessantes do filme, a decisão de intercalar eventos em três linhas temporais traz, de forma talvez inevitável, desvantagens específicas: como aos poucos vemos alguns personagens em momentos diferentes, isto compromete o suspense de determinadas sequências, já que passamos a saber o destino deste ou daquele indivíduo antecipadamente. Do mesmo modo, certas decisões de Nolan como roteirista beiram o incompreensível, como o tolo acidente envolvendo uma queda ou o destino anticlimático de alguém que fica preso a algo sem que sequer vejamos com clareza o que houve. Por outro lado, se o realizador costuma ser acusado de exagerar nos diálogos expositivos, desta vez ele vai na direção oposta, criando um roteiro com relativamente pouquíssimas falas e concentrando-se puramente na ação e no suspense.

E é aí que Dunkirk revela sua força: tratando os nazistas como um inimigo invisível (as palavras “nazistas” e “Hitler” jamais são mencionadas), a obra nos coloca ao lado dos personagens enquanto estes se veem surpreendidos por tiros disparados sabe-se-lá-de-onde e por torpedos que subitamente se aproximam sem que qualquer alerta tenha sido ouvido. Assim, o terror absoluto experimentado pelos britânicos torna-se intenso, palpável, resultando em cenas angustiantes como aquela em que buracos de bala passam a surgir no casco de um barco sem que seus ocupantes possam fazer o que quer que seja para impedi-los, sendo obrigados a se limitar a uma torcida desesperada para que não sejam alvejados.

Mas se os nazistas são ameaças quase espectrais, a realidade dos ingleses é trazida por Nolan para o primeiro plano através de câmeras constantemente coladas a estes ou mesmo presas a macas, aviões e navios, acompanhando seus movimentos enquanto balançam, giram ou tombam, causando desorientações momentâneas – e mais do que apropriadas - no espectador. De forma similar, o diretor atira a câmera (e, consequentemente, o público) na areia durante bombardeios, quando vemos, vulneráveis, a aproximação das explosões e suas consequências letais.

Já em outros momentos, Dunkirk alcança seus efeitos de maneira mais sutil: logo no primeiro ato, por exemplo, há um plano que, ao se afastar da praia, revela dois postes que, posicionando-se entre o espectador e os soldados, parece colocá-los em uma prisão ao ar livre, enquanto, mais tarde, a diferença entre o tamanho dos destroieres e dos barcos de lazer usados no resgate é estabelecida economicamente por um quadro que traz ambos atravessando a tela em direções opostas, quando podemos constatar o contraste entre suas escalas e, com isso, a dificuldade da missão imposta aos marinheiros amadores e suas pequenas embarcações. Além disso, Nolan facilita nossa tarefa de identificar certo barco em linhas temporais distintas ao escolher uma cor característica para pintá-lo, ilustrando também a magnitude da multidão de soldados em um belo plano que traz centenas de capacetes espalhados pela areia.

Mais uma vez expondo sua fixação quase autoral por água e/ou afogamento (O Grande Truque, A Origem, Interestelar), o cineasta concebe várias sequências que geram tensão justamente a partir da união de fobias relacionadas a espaços fechados, à escuridão e à imersão – um sentimento reforçado pela trilha inquietante de Hans Zimmer, que, por sinal, executa aqui um de seus melhores trabalhos. Observem, por exemplo, como logo no início da projeção o compositor introduz um timbre que remete diretamente ao som do motor de um avião, antecipando um ataque aéreo, ou como, ao longo de toda a projeção, emprega o tique-taque enervante de um relógio como base de diversos temas. Aliás, o desenho de som de Dunkirk é irrepreensível, forjando um caos auditivo que ajuda a mergulhar o público nos confrontos vistos na tela – e lamento apenas que Zimmer e Nolan não tenham reconhecido como o silêncio pontual também poderia ter contribuído para a força do filme.

Outra fragilidade da obra reside em seu protagonista, Tommy, que jamais deixa de adotar uma postura meramente reativa que, somada à inexpressividade do estreante Finn Whitehead, gera um vácuo emocional bem no centro da narrativa – e comparem a força projetada por Tom Hardy apenas através do olhar (já que seu rosto permanece coberto por uma máscara de oxigênio na maior parte do tempo) e constatarão a diferença que um ator mais capaz poderia ter feito no lugar de Whitehead. Já Mark Rylance oferece uma performance de uma nota só (estoicismo), enquanto Kenneth Branagh pouco pode fazer como o comandante Bolton, que acaba sendo responsável pelo que resta de pura exposição no roteiro de Nolan. Completando o elenco, Cillian Murphy evoca bem o trauma emocional de seu soldado, ao passo que Barry Kheogan (tão fantástico em The Killing of a Sacred Deer) vive um personagem criado apenas para tentar gerar algum drama artificial. Ah, sim: há ainda o cantor Harry Styles, que, estreando como ator, se mostra eficiente como um indivíduo cujos escrúpulos são inversamente proporcionais ao seu pânico.

Pecando ao tentar sugerir a violência da guerra sem permitir que uma gota de sangue sequer seja vista na tela (deve haver um meio-termo entre a pasteurização completa da violência e a insanidade de um Mel Gibson), Dunkirk se sai melhor ao retratar pequenas vitórias (como o discreto olhar de satisfação de um engenheiro diante de uma obra improvisada) do que como mensagem antibelicista. Ainda assim, é preciso aplaudir a recusa do filme de julgar seus personagens, por mais reprováveis que suas ações possam parecer.

Afinal, no fim das contas, o que houve em Dunkirk foi menos uma batalha do que um esforço coletivo e desesperado pela sobrevivência. Algo que, mesmo que de forma relativamente fria e distanciada, Christopher Nolan lembra com competência.

Dito isso, espero que em seus próximos projetos ele possa trabalhar com um roteiro melhor. Seus talentos são consideravelmente maiores com a câmera do que com a caneta.

30 de Julho de 2017

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.