Críticas por Pablo Villaça

Poster: O Filme da Minha Vida
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
03/08/2017 Unknown
Distribuidora
Vitrine Filmes

 

 


O Filme da Minha Vida
O Filme da Minha Vida

O Filme da Minha Vida

Dirigido por Selton Mello. Roteiro de Selton Mello e Marcelo Vindicato. Com: Johnny Massaro, Vincent Cassel, Bruna Linzmeyer, Bia Arantes, Ondina Clais Castilho, Martha Nowill, João Prates, Antonio Skármeta e Rolando Boldrin.

Quando Selton Mello estreou na direção de longas, em 2008, o resultado veio com uma surpresa: ator talentoso e dono de uma carreira admirável, ele revelava, em Feliz Natal, uma maturidade notável como indivíduo e como artista, criando uma narrativa densa e frequentemente dolorosa através da dinâmica entre personagens angustiados – um tom diametralmente oposto ao de seu magnífico filme seguinte, O Palhaço, que se equilibrava maravilhosamente bem entre o humor e o drama. Assim, eu talvez não devesse ter ficado tão surpreso com a força de seu terceiro trabalho, este O Filme da Minha Vida, mas fiquei; não por suspeitar da competência de seu realizador, mas por não esperar sua capacidade de evocar um sentimento tão intenso de nostalgia.

E o fato de ter sido fotografado pelo mestre Walter Carvalho não atrapalha, obviamente.

Baseado no livro do chileno Antonio Skármeta (que faz uma breve participação na sequência que se passa em um bordel), o roteiro escrito por Mello ao lado de Marcelo Vindicato, seu colaborador habitual, conta a história de Tony (Massaro), um jovem professor que, filho do imigrante francês Nicolas Terranova (Cassel) e da brasileira Sofia (Clais), mora em um pequeno vilarejo no sul do país, deixando-o temporariamente ao fim da adolescência para cursar faculdade em uma cidade grande. Quando ele retorna, porém, recebe a notícia de que seu pai retornou para a França sem explicações, deixando a esposa sozinha e como foco da atenção de Paco (Mello), antigo amigo da família. Buscando lidar com aquele abandono ao mesmo tempo em que inicia a vida adulta como professor em uma escola local, Tony se divide também entre as irmãs Luna (Linzmeyer) e Petra (Arantes), que o atraem de maneiras diferentes e particulares.

Fotografado com inteligência e sensibilidade por Carvalho, que oscila entre a nostalgia de um sépia levemente dessaturado e o romantismo de passagens com cores mais intensas e com flares e contraluzes pontuais (e que, por sua vez, se contrapõem à escuridão e ao triste cinza de uma sequência sob a chuva), O Filme da Minha Vida é uma obra com cor de saudade – e a melancolia que inspira no espectador é movida não a pessimismo, mas a afeto. Além disso, se o Cinema já tem um dom particular para o simbolismo, aqui tudo parece se converter instantaneamente em signos: um rádio se torna a tradição contrastada à vápida televisão; a França se converte em uma representação da saudade e da deserção; o clássico Rio Vermelho, com seus conflitos relacionados a figuras paternas, ilustra a ambiguidade de Tony; uma bicicleta é a manifestação de um aprisionamento na infância e uma moto é simultaneamente a saudade e a divisa entre a meninice e a vida adulta.

Aliás, boa parte da poesia intrínseca à abordagem de Selton Mello encontra-se em sua linda compreensão acerca da natureza da memória e como esta é ao mesmo tempo prisão e liberdade: como Tony pode se esquecer do pai, como sugere Paco, se foi aquele quem o ensinou a andar de bicicleta e, assim, encontra-se ao seu lado todas as vezes em que pedala de casa para o trabalho? Do mesmo modo, o diretor sabe como as memórias têm o poder de nos devolver às idades que tínhamos quando foram formadas – e, portanto, é apenas normal que, ao lembrar-se da figura imponente do pai, Tony volte a ser representado momentaneamente na tela por sua versão infantil, já que a recordação o torna criança. E não podemos ignorar, tampouco, como as memórias transformam tudo em signo: um presente se converte na representação de uma relação; um dia chuvoso se torna um ideal romântico passado ou a angústia de um amor perdido.

Tomemos, como exemplo, o quarto de Petra: concebido pelo excelente designer de produção Claudio Amaral Peixoto como um pequeno altar às vitórias da moça em concursos de beleza, o aposento traz, naqueles troféus empoeirados, não uma afirmação de suas conquistas, mas a lembrança dolorosa de um passado melhor do que o presente. Um presente, por sinal, que a cada dia avançado rumo ao futuro afasta a moça ainda mais daquilo que era sua única força verdadeira: sua juventude e a beleza que a acompanha. Aliás, vivida por Bia Arantes como uma mulher que sabe que cada olhar que lança a Tony (e aos homens de modo geral) tem a força de uma faca, Petra ainda assim mal consegue ocultar uma vulnerabilidade subjacente à sua aparente autoconfiança, como se temesse ser desmascarada a qualquer momento. Enquanto isso, sua irmã Luna é encarnada por Bruna Linzmeyer como um reflexo quase perfeito da outra, já que, aos poucos, seu olhar vulnerável de mulher apaixonada que reconhece como sua felicidade está nas mãos do outro vai cedendo lugar a uma força crescente – força que se tornará fundamental para o amado.

Transição igualmente complexa é retratada por Johnny Massaro, cujo rosto jovial e livre das marcas provocadas por decepções torna-se gradualmente mais severo e menos inocente, permitindo que percebamos como sua ingenuidade está sendo arrancada uma decepção por vez – o que, de forma fascinante, parece torná-lo mais forte. E se Vincent Cassel inicialmente confere vida, força e intensidade a Nicolas, estas características progressivamente cedem espaço ao pesar resignado de alguém que sente ter uma dívida impossível de pagar, mas que ainda assim se sente preso a esta. Para completar, Selton Mello interpreta Paco como um homem que simultaneamente exala gentileza e ameaça, levando o espectador a compreender – mesmo reprovando – algumas ações que, nas mãos de um ator menos capaz, afastariam o público de vez, ao passo que o veterano Rolando Boldrin, com seu rosto forte e expressivo esculpido pelo tempo, simboliza, com sua simples presença, um passado cheio de histórias e lembranças.

E que Boldrin aqui viva um condutor de trem é só uma das muitas demonstrações de inteligência de O Filme da Minha Vida.

Em certo momento da projeção, ao explicar a Johnny por que não gosta de ir ao cinema, Paco diz que este “é um troço escuro que você fica lá dentro vendo a vida dos outros em vez de cuidar da sua e perde duas horas da vida”. Pois de minha parte só tenho a agradecer aos responsáveis por esta obra por me permitirem passar este tempo ao lado de personagens tão belos em um universo tão cheio de afeto.

23 de Julho de 2017

(Aliás, se você gosta de passar seu tempo no Cinema em Cena e curte as críticas que lê aqui, é importante que saiba que o site precisa de seu apoio para continuar a existir e a produzir conteúdo de forma independente. Mesmo. Para saber como ajudar, basta clicar aqui - só precisamos de alguns minutinhos para explicar. E obrigado desde já pelo clique!)

Assista também ao videocast - sem spoilers - sobre o filme:

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.