Críticas por Pablo Villaça

Poster: Transformers: O Último Cavaleiro
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
20/07/2017 21/07/2017
Distribuidora
Paramount

 

 


Transformers: O Último Cavaleiro
Transformers: The Last Knight

Transformers: O Último Cavaleiro

Dirigido por Michael Bay. Roteiro de Art Marcum, Matt Holloway e Ken Nolan. Com: Mark Wahlberg, Anthony Hopkins, Laura Haddock, Isabela Moner, Josh Duhamel, Santiago Cabrera, Jerrod Carmichael, Glenn Morshower, Gemma Chan, Tony Hale, John Turturro, Stanley Tucci e as vozes de Peter Cullen, Frank Welker, Mark Ryan, Erik Aadahl, John Goodman, Ken Watanabe, Jim Carter, Omar Sy e Steve Buscemi.

Menos de dez segundos. Este foi o tempo necessário para que o cineasta Michael Bay exibisse a primeira explosão em Transformers: O Último Cavaleiro, que já tem início com balas de canhão em chamas sendo disparadas de algum ponto atrás da montanha presente na vinheta da Paramount que abre a projeção. Suponho que em Transformers 6 as explosões começarão no lobby do cinema.

Quinto capítulo da “saga” estrelada por robôs gigantes alienígenas transmorfos, o roteiro escrito a seis mãos agora inclui não apenas Optimus Prime (Cullen) e sua turma, mas também o mago Merlin (Tucci), o Rei Arthur e seus cavaleiros da Távola Redonda, um cajado mágico, o planeta natal dos personagens-título e a criadora destes, Megatron (Welker) e um grupo de Decepticons sociopatas, uma antiga ordem secreta que incluía Shakespeare e Mozart, uma sequência envolvendo nazistas e... o quê, mesmo? Ah, sim: dinossauros de metal. Para ser sincero, duvido que os roteiristas tenham descartado qualquer ideia surgida durante a produção desta continuação. “Um robô azul com sotaque mexicano? Claro, por que não?”

E, no entanto, mesmo com todos estes elementos e explosões a cada três minutos, O Último Cavaleiro é um tédio absoluto, investindo numa trama tão confusa e sem sentido (estes filmes tinham que vir com um “Previously, on...”) que, quando alguém menciona como Hitler foi morto por um relógio alienígena, minha reação foi menos de “mas hein?” e mais de “ok”. Lógica nunca foi o forte da série, mas há um ponto a partir do qual a coisa começa a ficar ridícula demais: se o tal cajado era tão importante, por exemplo, como nenhuma menção ao artefato havia sido feita ao longo de quatro filmes?

Mas fazer indagações como estas é um exercício fútil, já que estamos lidando aqui com o tipo de obra que traz uma acadêmica supostamente brilhante se impressionando diante de um homem apenas porque este cita uma das frases mais conhecidas de um dos autores mais famosos da ficção científica, Arthur C. Clarke – e caso ele houvesse recitado a equação mais célebre da Ciência, e=mc2, a jovem provavelmente teria engravidado instantaneamente. (Ah, sim: não deixa de ser curioso perceber a semelhança física entre a atriz Laura Haddock e a estrela original da franquia, Megan Fox.) Enquanto isso, o roteiro atira na trama qualquer conceito que resolva os obstáculos colocados à frente dos heróis, o que resulta no uso pontual de uma arma capaz de congelar o tempo e que, sempre que disparada, é acompanhada pela voz do Transformer que a carrega gritando “Minha arma para o tempo!”. Claro, por que não?

Por outro lado, ao menos esta não é uma fala que poderíamos classificar como clichê – algo que Transformers 5 reserva para Optimus Prime, que deveria ser o grande líder do grupo, mas apresenta-se apenas como seu membro mais chato, recitando diálogos ridículos como se fossem grandes pérolas de sabedoria e bravura (além de fazer aquela que é uma das perguntas mais batidas da História da Dramaturgia Intergaláctica: “What have I done?”). Ainda assim, ele ao menos questiona o que fez, já que isto é algo que jamais passa pela cabeça dos três roteiristas, que realizam um trabalho tão preguiçoso e porco que, em certo momento, quando a pequena Izabella (Moner) aparece na nave que transporta o protagonista Cade Yeager (Wahlberg) e este pergunta o que a menina está fazendo ali, a resposta é – juro! – “Não sei!”. Esta indagação, vale apontar, poderia ser feita acerca de toda a participação da personagem na narrativa. Para completar, no terceiro ato O Último Cavaleiro decide ridicularizar o cientista vivido por Tony Hale (desperdiçado) e o que este representa ao trazê-lo como um fracasso após afirmar confiar “na matemática e na ciência para salvar o mundo, não no misticismo”. Uma pitada gratuita de ludismo: por que não?

Demonstrando acreditar que o espectador é tão estúpido quanto seu roteiro, Transformers 5 é um destes filmes que trazem alguém dizendo que fulano (no caso, Merlin) é um “bêbado” apenas para, no plano seguinte, exibir o próprio afirmando “Estou bêbado” – e, caso não houvéssemos entendido, ele então bebe de uma vez só todo o conteúdo de uma garrafa que trazia a tiracolo. A propósito: não tente compreender por que o sujeito é vivido pelo mesmo Stanley Tucci que no capítulo anterior interpretava um personagem completamente diferente, já que sua escalação provavelmente se deu na base do “por que não?”.

Dito isso, talvez eu não devesse questionar a imbecilidade do roteiro, já que, mesmo que este fosse brilhante, o resultado permaneceria incompreensível graças à estratégia visual adotada por Michael Bay – uma estratégia que, suspeito, é fortemente calcada na teoria do “foda-se”. Incapaz de permitir a existência de qualquer plano que dure mais de dez segundos, Bay também decidiu, aqui, substituir o tripé da câmera por, imagino, uma câmera elástica montada sobre um carrossel construído nos trilhos de uma montanha-russa, já que seus quadros se mantêm móveis até mesmo durante primeiríssimos planos (leia-se: closes fechadíssimos) e planos-detalhe (que perdem a função descrita em seu nome por não permitirem que vejamos detalhe algum).

Isto é algo, aliás, que deve frustrar terrivelmente os responsáveis pela direção de arte, cenografia e objetos de cena, já que o diretor jamais mantém o quadro fixo por tempo suficiente para que possamos enxergar qualquer coisa além dos atores – e chega a dar pena constatar a quantidade de itens presentes na mansão do sujeito interpretado por Anthony Hopkins, já que, na prática, servem apenas como sujeira. Em contrapartida, Bay certamente deve ter adorado sua pequena referência aos westerns ao retratar uma espécie de duelo numa rua deserta, já que vemos uma bola de feno cruzando o quadro não uma nem duas, mas três vezes em poucos segundos.

Lembrando-se ao menos de manter a consistência do racismo e da misoginia que percorrem sua filmografia, o cineasta faz questão de incluir um plano no qual a acadêmica vivida por Laura Haddock derruba várias bicicletas por não saber estacionar o carro, outro no qual um garoto latino se oferece para fazer ligação direta em um veículo e, óbvio, vários nos quais o pequeno robô que acompanha Izabella diz coisas como “Ay, chihuahua!”. Claro, por que não?

Revelando-se um assassino de neurônios mais eficaz do que a sífilis terciária, Transformers 5, com seus longuíssimos 150 minutos de duração (a versão estendida terá 190), leva a série a completar nada menos do que 13 horas de parvoíce. Não que estas tenham sido suficientes para que Michael Bay concluísse sua visão, já que, aparentemente, mais duas continuações já estão a caminho.

Alguém tem que parar este homem antes que o Cinema decida se matar de desgosto.

Observação: há uma cena adicional durante ou após os créditos finais, mas não fiquei para conferir. Há um limite para tudo.

21 de Julho de 2017

(Pois é, eu vi Transformers 5. Fiz isso sabe por quem? Por você. Sim, você. Este é o grau de minha dedicação ao seu interesse por Cinema. Não, tudo bem, não precisa agradec... Ah, você insiste? Bom, então, já que tocou no assunto, há, sim, algo importante que poderia fazer: se curte as críticas que lê aqui, é fundamental que saiba que o site precisa de seu apoio para continuar a existir e a produzir conteúdo de forma independente. Para saber como ajudar, basta clicar aqui - só precisamos de alguns minutinhos para explicar. E obrigado desde já pelo clique!)

Assista também ao videocast que gravei logo depois de ver o filme:

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.