Críticas por Pablo Villaça

Poster: Corra!
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
18/05/2017 24/02/2017
Distribuidora
Universal

 

 


Corra!
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Corra!

Dirigido e roteirizado por Jordan Peele. Com: Daniel Kaluuya, Allison Williams, Bradley Whitford, Catherine Keener, Caleb Landry Jones, Marcus Henderson, Betty Gabriel, Lakeith Stanfield, LilRel Howery e Stephen Root.

Não é novidade que o Terror é um gênero constantemente utilizado de forma alegórica. DOs Invasores de Corpos (que já se apresentaram como comentários sobre o mccarthismo, sobre a “ameaça comunista” e sobre AIDS) aos mortos-vivos de Romero (que já serviram para falar de temas tão diversos quanto consumismo e militarismo), os filmes povoados por criaturas monstruosas ou de natureza sobrenatural permitem as mais diversas leituras, não sendo raras as ocasiões em que a crítica ou o público projetam interpretações que os próprios realizadores não haviam percebido – o que certamente não é o caso de Corra!, já que as discussões propostas pelo diretor e roteirista Jordan Peele são desenvolvidas com propósitos inconfundíveis.

Estes propósitos já se tornam patentes nos primeiros minutos de projeção, quando vemos Andrew (Stanfield), um jovem negro, caminhando à noite por um subúrbio de classe média, logo passando a ser seguido por um carro branco como as vestes de um membro da Ku Klux Klan (e acreditem: considerando o que ocorre a seguir, a referência é intencional). Tenso, o rapaz diz “Hoje, não” para si mesmo e, com isso, a realidade da população negra nos Estados Unidos é exposta pelo filme como uma existência de terror contínuo no qual uma criatura como Freddy Krueger selecionaria suas vítimas não pela idade, mas pela cor de suas peles. A partir daí, somos apresentados ao fotógrafo Chris (Kaluuya), que se prepara para visitar pela primeira vez os pais da namorada Rose (Williams), que moram em uma imensa propriedade no sul do país (percebam as implicações históricas sugeridas por isso). “Você já contou a eles que sou negro?”, ele pergunta, ansioso. “Não se preocupe; meu pai votaria em Obama pela terceira vez se isto fosse permitido”, responde a garota. Não que isto devesse tranquilizar o protagonista, que, ao longo dos dois dias seguintes, começa a reparar elementos muito mais estranhos e ameaçadores na casa dos sogros.

É inacreditável, claro, que em 2017 o preconceito racial ainda seja uma realidade indiscutível (não, o racismo não deixou de existir nem no miscigenado Brasil), mas o fascinante neste trabalho de estreia do comediante Peele na direção é sua decisão de não se concentrar na intolerância escancarada, daquelas que nos fazem questionar a sanidade de quem a manifesta, mas sim em um tipo de comportamento infinitamente mais complexo e sutil que, por não se enxergar como um problema, revela rasgos ainda mais profundos em nosso tecido social. Notem, por exemplo, como Dean (Whitford), pai de Rose, não apenas elogia Obama como ainda reconhece com embaraço o clichê de ter apenas empregados negros trabalhando em sua propriedade e percebam como, de certa forma, o fato de se julgar esclarecido acaba por funcionar como um auto perdão antecipado por nada fazer para mudar o status quo. Do mesmo modo, é óbvio que os convidados – brancos – de uma festa promovida pela família não hesitam em comentar com Chris a admiração que sentem por figuras como Tiger Woods, expondo uma realidade tristemente comum até mesmo entre aqueles que se consideram “apoiadores” na luta contra o racismo: o simples fato de terem que buscar uma referência a fim de declarar sua falta de preconceito denuncia como, no fundo, enxergam o outro não como um semelhante, mas como alguém de um mundo diferentes, distante. Sim, é fácil identificar o subtexto de uma frase como “Tenho até amigos negros!”; mais difícil é constatar aquele contido no impulso insistente de comentar aspectos da cultura negra com estes amigos.

(O excepcional comediante Louis C.K. evidenciou este tipo de “racismo benigno” em um inspirado monólogo quando explicou como, ao se ver ao lado de um jovem negro de capuz em uma loja de conveniências, durante a madrugada, imediatamente pensa algo como “É claro que está tudo bem! Por que eu deveria ficar com medo?”.)

No entanto, o que torna Corra! um filme tão bom não é apenas seus subtextos, mas sua força como exercício de gênero, que ancora suas discussões em uma estrutura eficiente de terror e leva o espectador a experimentar a inquietação do protagonista. Neste sentido, é uma surpresa constatar como Jordan Peele, cuja carreira se concentra na comédia, demonstra talento para jogar com as convenções do gênero, criando uma atmosfera desconfortável precisamente ao ilustrar como todos tentam ser agradáveis demais. Aliás, o cineasta já deixa o público inquieto quando, logo no primeiro ato, o casal atropela um cervo e Chris reage com uma intensidade que só compreenderemos completamente ao ouvir sua história pessoal, mas que já atua para sugerir o caminho que as coisas tomarão – e, portanto, quando Peele inclui um plano-detalhe dos pés do protagonista deixando a estrada, o simbolismo não poderia ser mais claro.

Mantendo sua câmera sempre inquieta – mesmo quando só vemos Chris e Rose conversando -, o diretor jamais nos deixa relaxar ao longo da projeção, já que algo sempre parece estar fora do lugar. Este sentimento de apreensão é também ressaltado pelo uso pontual das grandes angulares em closes como aquele focado em Georgina (Gabriel) no instante em que esta ouve o rapaz dizer que “às vezes, quando há brancos demais ao meu redor, eu fico nervoso” e busca refutar a preocupação enquanto luta com sua voz interior que lhe dá razão. Da mesma maneira, ao trazer os convidados olhando diretamente para a câmera em outro momento, quando assume o ponto de vista de Chris, Peele reforça nossa identificação com a ansiedade deste.

Esta ansiedade, aliás, acaba sendo reflexo daquela experimentada por todos que fazem parte de uma minoria que pode até ter sido libertada das correntes, mas que até hoje se vê às margens da sociedade – e quando Chris mergulha no “Lugar do Esquecimento” e vê tudo à distância, num grito silencioso, sem conseguir mudar sua horrível situação, Corra! cria uma imagem significativa e poderosa sobre a condição da comunidade negra nos Estados Unidos. (Aliás, eu disse “Estados Unidos”? Como se no Brasil fosse muito diferente?) E reparem também a cena em que um sujeito (branco) envolve o pescoço de Chris em um mata-leão e começa a contar os segundos até que este perca a consciência, usando o velho “One Mississippi, Two Mississippi...” para marcar o tempo – e agora se lembrem de que aquele segue como um dos estados norte-americanos mais racistas ainda hoje e verão como a intenção do roteiro não poderia ser mais patente. E preciso realmente mencionar a cena do leilão?

Usando o humor com talento através do personagem do excelente LilRel Howery (e alívio cômico é outro recurso clássico do gênero), Corra! é um filme tão eficiente em sua proposta que, quando vemos as luzes vermelha e azul de um carro de polícia, sentimos não alívio, mas apreensão.

Uma apreensão despertada não só pelos ecos de A Noite dos Mortos-Vivos, mas, principalmente, por aqueles originados dos constantes gritos de revolta dos familiares de todas as vítimas negras da brutalidade policial ao redor do mundo. Sim, o título original do filme é Get Out, mas poderia perfeitamente ser Black Lives Matter.

On Elm Street.

2 de Julho de 2017

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.