Críticas por Pablo Villaça

Poster: Um Instante de Amor
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
29/06/2017 19/10/2016
Distribuidora
Mares Filmes

 

 


Um Instante de Amor
Mal de pierres

Um Instante de Amor

Dirigido por Nicole Garcia. Roteiro de Jacques Fieschi e Nicole Garcia. Com: Marion Cotillard, Louis Garrel, Alex Brendemühl, Brigitte Roüan, Francisco Alfonsin, Aloïse Sauvage.

Gabrielle é uma mulher tomada pelo desejo. Vivendo em um pequeno vilarejo francês no período logo após a Segunda Guerra, ela molha o sexo num lago próximo para explorar suas sensações, declara-se para um professor de literatura da escola local (casado e com a esposa grávida) e entra em desespero ao ser rejeitada por este. Transformando-se em um embaraço para sua família católica (lembrem-se: o desejo feminino é sempre um pecado para boa parte das religiões), ela é praticamente oferecida pela mãe em casamento a um trabalhador braçal das redondezas – e o que a velha senhora não admite é que, na verdade, está negociando um pênis de forma “decente” para a filha.

Mas o tesão de Gabrielle (Cotillard) não é indiscriminado: se o professor a excitava, o novo marido, José (Brendemühl), lhe provoca apenas indiferença, por mais gentil e compreensivo que seja (e é também um homem bonito, diga-se de passagem). É então que ela é internada em um spa para curar seus cálculos renais e acaba conhecendo o tenente André Sauvage (Garrel), que se encontra gravemente enfermo – e o clichê do “bravo-soldado-vulnerável-e-à-beira-da-morte” é forte demais para que ela resista.

Felizmente, o roteiro escrito pela diretora Nicole Garcia ao lado de Jacques Fieschi – e baseado em livro de Milena Agus – não tem interesse em criar uma protagonista unidimensional, já que Gabrielle, embora seja certamente vítima de um conservadorismo que transforma sua sexualidade natural em fonte de neuroses e culpa, é também uma mulher egoísta e mesmo cruel na maneira como lida com o marido. Não que ela tenha qualquer obrigação de amá-lo ou de ir para a cama com ele apenas como agradecimento por sua gentileza (uma realidade que, vale apontar, muitos homens parecem ignorar), mas seu excesso de sinceridade ultrapassa o limite da honestidade e se torna mero sadismo, ainda que sua química com José não se equipare com aquela estabelecida com André (algo que o filme ressalta ao retratar a cena de sexo entre marido e esposa como um evento rápido e mecânico, ao passo que as transas com o tenente têm direito a montagem com trilha sonora de cordas).

Liderado por uma Marion Cotillard inspirada que não demonstra medo em abraçar os lados mais negativos da personagem, o elenco de Um Instante de Amor traz força e complexidade às suas performances: se Brendemühl equilibra-se entre a placidez e a frustração sofrida, Garrel encarna o amante idealizado fundamental para que a atração de Gabrielle seja compreendida.

Arrematado com uma reviravolta que talvez afaste alguns espectadores (confesso que mesmo julgando-a absurda e pouco original achei que amarra bem a trama), este drama alcança uma qualidade que no papel provavelmente soava difícil, mas que na tela é envolvente e tocante.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Cannes 2016.

15 de Maio de 2016

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.