Críticas por Pablo Villaça

Poster: Okja
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
28/06/2017 28/06/2017
Distribuidora
Netflix

 

 


Okja
Okja

Okja

Dirigido por Bong Joon-ho. Roteiro de Bong Joon-ho e Jon Ronson. Com: Ahn Seo-Hyun, Tilda Swinton, Giancarlo Esposito, Shirley Henderson, Steven Yeun, Lily Collins, Daniel Henshall, Choi Woo-sik, Paul Dano e Jake Gyllenhaal.

Em seus quase 20 anos de carreira, o diretor sul-coreano Bong Joon-Ho vem demonstrando uma versatilidade notável, mas, de modo geral, seus filmes seguem duas tendências principais: o estudo de personagens em meio a fatalidades (Memórias de um Assassino, Mother) e alegorias político-sociais num contexto de fantasia e ficção (O Hospedeiro, O Expresso do Amanhã) – e é nesta segunda categoria que se encaixa Okja, exibido em competição no Festival de Cannes deste ano.

Escrito pelo cineasta ao lado do excepcional jornalista e autor Jon Ronson (façam um favor a si mesmos e busquem todos os livros que ele já publicou), o longa tem início com o anúncio feito pela CEO Lucy Mirando (Swinton) de que uma nova espécie animal foi descoberta no Chile por sua empresa, a corporação alimentícia Mirando, e que 23 espécimes foram distribuídos em um número equivalente de países para que fazendeiros locais possam criá-los por dez anos, quando, então, o melhor deles será selecionado pelo apresentador de tevê Dr. Johnny Wilcox (Gyllenhaal) e procriado para dar origem a uma nova fonte de carne para consumo humano. Uma década depois, conhecemos a adolescente Mija (vivida por Ahn Seo-Hyun e que, desconfio, terá seu nome traduzido com outra grafia para o português), responsável pela criação da imensa Okja, que acaba sendo levada para Nova York contra sua vontade. Determinada a salvar seu gigantesco pet do abatedouro, a menina parte em uma missão particular e acaba se envolvendo com uma organização dedicada a resgatar animais e que é liderada por Jay (Dano).

Investindo em tipos que frequentemente flertam propositalmente com a caricatura – assim com fez em Snowpiercer, aliás -, Bong Joon-Ho oferece espaço para que seu elenco componha personagens grandiosos, desde a Lucy de Tilda Swinton, com seus sorrisos falsos e modos artificialmente simpáticos (escolhas perfeitas da atriz) até o Jay de Paul Dano, com um autocontrole e uma disciplina que expõem sua integridade, mas sugerem também um temperamento explosivo sob a superfície calma. Já Jake Gyllenhaal, embora divertido, ocasionalmente fica do lado errado da fronteira entre o over e o artificial, demonstrando irregularidade até mesmo no timbre inconsistente de sua voz (e que às vezes se perde na afetação extrema). Aliás, a estilização destes personagens é eficiente também ao contrastar com o naturalismo da performance da jovem Seo-Hyun, que, como a única pessoa a soar “real” naquele universo, atrai imediatamente nossa identificação. Para completar, a criatura digital concebida pelo filme não só é incrivelmente convincente (a textura de sua pele é detalhada e impressiona, por exemplo, ao mudar de tom quando molhada), como ainda combina imponência e doçura (e seu lento piscar é um dos toques mais notáveis para criar este efeito).

Combinando humor e choque com inteligência, Okja por vezes exibe uma leveza quase infantil ao criar gags típicas de uma animação (como as bolinhas de gude atiradas para atrapalhar perseguidores, por exemplo), equilibrando-as com outras que só serão compreendidas por um público mais adulto (como o plano que recria a famosa foto de Obama, Hillary, generais e assessores acompanhando o ataque ao esconderijo de bin Laden e que aqui são substituídos pelos personagens de Giancarlo Esposito, Shirley Henderson e Tilda Swinton). Além disso, o longa dá alfinetadas precisas em elementos socioculturais contemporâneos, como no momento em que uma jovem se esforça para gravar um vídeo de si mesma sendo perseguida ou na maneira como certo personagem, sendo capturado publicamente em um escândalo, imediatamente anuncia estar certo de que aquela situação servirá de “aprendizado para que se torne uma pessoa melhor” e recita outros discursos recorrentes entre celebridades flagradas em alguma polêmica.

Por outro lado, se o roteiro também faz piada com certos tipos de ativismo (um rapaz que se recusa a comer qualquer coisa que deixe “pegada ambiental” está sempre prestes a desmaiar de fome), isto não o impede de deixar evidente que respeita as causas de ambientalistas e daqueles que se dedicam à proteção dos animais, já que o filme usa suas criaturas fictícias para chamar a atenção do espectador para os horrores de uma indústria que frequentemente parece quase ter prazer em torturar as criaturas que irá abater e comercializar. Aliás, o longa aproveita para condenar a ganância desmedida e a natureza sociopata das grandes corporações, que, jamais satisfeitas com seus lucros descomunais, quebram leis e ignoram quaisquer princípios éticos em troca de uns centavos adicionais.

E se Okja não se esforça em adotar qualquer sutileza em suas mensagens, esta sua obviedade acaba conferindo também certo charme juvenil à sua correta indignação.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Cannes 2017.

Observação: há uma cena adicional após os créditos finais.

20 de Maio de 2017

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.