Críticas por Pablo Villaça

Poster: Ao Cair da Noite
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
22/06/2017 09/06/2017
Distribuidora
Diamond Films

 

 


Ao Cair da Noite
It Comes at Night

Ao Cair da Noite

Dirigido e roteirizado por Trey Edward Shults. Com: Joel Edgerton, Christopher Abbott, Carmen Ejogo, Riley Keough, Kelvin Harrison Jr, Griffin Robert Faulkner e David Pendleton.

Ao Cair da Noite não é um filme original e nem procura sê-lo. Ambientado em uma casa isolada no meio de uma densa floresta, o roteiro escrito pelo diretor Trey Edward Shults traz poucos personagens – seis – que, dividindo o espaço, tentam evitar qualquer contato com o restante da humanidade desde que uma epidemia tomou conta do planeta. Ou algo no gênero, já que, assim como eles, pouco sabemos sobre a natureza da doença e seu alcance. Falta de originalidade, contudo, não é problema para um diretor talentoso e, mesmo que este seja apenas seu segundo longa, Shults demonstra competência suficiente para criar uma narrativa tensa e inquietante a partir de um fiapo de história.

A estratégia do realizador é simples e eficaz: sugerir ameaças que, ainda que invisíveis, se fazem presentes e reais. Para alcançar este resultado, Shults e o diretor de fotografia Drew Daniels mantêm a câmera sempre em movimento, investindo em zooms lentos que, fechando o quadro enquanto focam algum ponto do cenário ou da locação, levam o espectador quase a espremer os olhos ao tentar enxergar o que exatamente encontra-se escondido ali – como no instante, por exemplo, em que o cachorro da família late para algo na floresta. Enquanto isso, o ótimo design de produção concebe a casa que abriga aquelas pessoas como um conjunto de espaços escuros e claustrofóbicos que insinuam perigos ocultos nas sombras – e mesmo que a porta vermelha situada ao fim de um corredor seja óbvia em sua cor e simbolismo, isto não a torna menos eficiente como recurso narrativo.

É claro que, como se trata quase de um filme de câmara, o elenco se torna ainda mais instrumental para a empreitada, sendo notável, portanto, observar como os atores e atrizes escalados por Shults conseguem criar figuras interessantes a partir de tão pouco material. Joel Edgerton, por exemplo, transforma o patriarca Paul em um homem pragmático que, embora atencioso com a esposa e o filho, jamais permite que o afeto interfira em seu esforço para mantê-los sempre atentos para qualquer perigo – e o simples fato de mancar já sugere uma existência recheada de riscos. Carmen Ejogo, por sua vez, torna Sarah mais carinhosa que o marido, levando o público a se surpreender quando constatamos que talvez seja ainda mais fria em suas análises do que Paul. Enquanto isso, Christopher Abbott vive Will como um sujeito caloroso com a esposa Kim (Keough) e o filho Andrew (Faulkner), mas também suspeito por parecer estar sempre escondendo alguma coisa.

No entanto, o protagonista de Ao Cair da Noite não é nenhum destes personagens, mas sim o adolescente Travis, filho de Paul e Sarah. Interpretado por Kevin Harrison Jr. (O Nascimento de uma Nação), Travis é um rapaz introspectivo e solitário que, dividindo o quarto com seu cão, tem o hábito de se esconder no sótão para ouvir as conversas dos pais e, posteriormente, aquelas entre Will e Kim – e quando o vemos rir de uma piada particular do casal, sua solidão se torna ainda mais tocante. Além disso, como alguém atravessando o auge de seu despertar sexual, o jovem não demora a demonstrar certo interesse por Kim, o que resulta numa conversa entre os dois na cozinha, no meio da noite, durante a qual - mesmo nada de comprometedor sendo dito - ambos percebem o subtexto que move o diálogo, sendo admirável o trabalho dos dois intérpretes, já que Harrison evoca o desconforto excitado do garoto enquanto Keough permite que Kim pareça estar se divertindo internamente com a reação do outro.

Pontuado por sequências envolvendo os pesadelos recorrentes de Travis, Ao Cair da Noite é um raro filme que não emprega este recurso como forma de provocar sustos artificiais, transformando aquelas passagens em um aspecto fundamental de nossa percepção acerca dos medos do protagonista. Além disso, Shults e Daniels adotam uma estratégia visual interessante ao rodarem os pesadelos com uma razão de aspecto diferente daquela empregada no restante da projeção, justificando a decisão quando percebemos que os eventos do clímax acabam sendo fotografados como se fossem um dos pesadelos.

Pois aí reside o tema central do longa: na lógica de pesadelo despertada pela desconfiança crescente entre os personagens e que tem o potencial de transformar uma pequena mentira em um problema imenso, levando a confrontos que, alimentados pela paranoia, exibem um potencial destrutivo considerável.

Breve, seguro e envolvente em sua proposta, Ao Cair da Noite não é um filme de reviravoltas ou de explosões de ação. É, em vez disso, um exercício narrativo efetivo construído a partir da sutileza e dos detalhes, levando o espectador a deixar a sala, após a projeção, com uma sensação de angústia que comprova o acerto de sua abordagem.

23 de Junho de 2017

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.