Críticas por Pablo Villaça

Poster: The Keepers
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
19/05/2017 19/05/2017
Distribuidora
Netflix

Direção

Ryan White

Fotografia

David Jacobson , John Benam

Música

Blake Neely

Montagem

Mark Harrison , Kate Amend , Helen Kearns

Design de Produção

Manuela Schmidt

Figurino

Nikoya Gonzalez

 

 


The Keepers
The Keepers

The Keepers

Dirigido por Ryan White.

A Tênue Linha da Morte, de Errol Morris, e a trilogia Paradise Lost, de Joe Berlinger e Bruce Sinofsky, podem ser considerados, de modo geral, como os grandes precursores da atual onda de documentários que buscam reexaminar homicídios antigos que resultaram ou não em condenações - uma onda que gerou o elogiado podcast Serial e, claro, a fabulosa série The Jinx e a boa Making a Murderer. Há, claro, outros exemplos com resultados que vão do excepcional ao fracasso completo, mas, de modo geral, o que todas estas produções têm em comum é a fascinação com o mistério em si ou com a figura do assassino (ou do(s) suspeito(s)).

É aí que The Keepers se diferencia: dirigida por Ryan White, que em 2013 comandou o ótimo Nossa Querida Freda (sobre Freda Kelly, secretária dos Beatles), esta série dividida em sete episódios tem início de maneira até convencional, apresentando o espectador ao crime central - o desaparecimento e assassinato da freira Cathy Cesnik em novembro de 1969 - e às duas ex-alunas da religiosa que, já na casa dos 60 anos, decidem retomar as investigações por conta própria. Determinadas a recuperar todas as informações existentes sobre o caso, as amigas aos poucos explicam como aquele crime pode estar relacionado a outro assassinato (o da jovem Joyce Malecki, ocorrido apenas quatro dias depois) e, principalmente, aos eventos ocorridos na escola em que a freira lecionava.

E são estes eventos que dominam a maior parte das sete horas do projeto.

Aliás, "eventos" é um eufemismo pouco apropriado; "tragédia" seria uma descrição melhor. Durante anos, o "conselheiro psicológico e espiritual" do colégio, o padre Joseph Maskell, abusou sexualmente de dezenas de alunas adolescentes, usando sua posição e seu poder como escudos enquanto destruía as vidas de jovens ainda em seu início. Amigo de policiais e políticos, Maskell chegava a convidar alguns destes para visitar sua sala, quando, então, basicamente oferecia as garotas aos visitantes.

Pois é a partir deste ponto que The Keepers se diferencia dos companheiros de gênero: em vez de se concentrar no monstruoso padre, o projeto foca sua atenção em suas vítimas, dando-lhes voz, permitindo que contem suas histórias em detalhes chocantes (mas sem explorá-las) e com isso transferindo a estas o controle sobre suas narrativas. Desta maneira, a série se torna sobre as vítimas, não sobre os criminosos, pintando, no processo, um painel pavoroso da realidade que enfrentaram e da canalhice da Arquidiocese de Baltimore, que não só protegeu Maskell como ainda o fez enquanto fingia dar atenção às suas vítimas - uma hipocrisia que se torna ainda mais revoltante quando conhecemos um homem que foi molestado pelo padre antes da transferência deste para a escola na qual passaria a ter acesso a centenas de jovens vulneráveis (um crime do qual a Arquidiocese tinha conhecimento).

Há, claro, problemas pontuais na estrutura da série: além de estender-se mais do que o necessário, White parece perder o fio da meada em diversos momentos, iniciando discussões que jamais são finalizadas, abandonando o assassinato de Malecki durante a maior parte do tempo (o que é uma ironia, já que critica a polícia por fazer o mesmo) e chegando até a levantar suspeitas contra um ex-padre com o qual a freira se relacionou sem realmente ter bases para isso, apenas com o intuito de criar um mistério adicional. Por outro lado, o realizador expõe de modo devastador as ações repugnantes da Igreja, o descaso (e a falta de organização) da polícia e, para completar, a negligência dos políticos que se negam a mudar uma legislação defasada que praticamente garante a impunidade dos criminosos.

The Keepers não é, portanto, uma série que deve ser assistida com a expectativa de que um crime será solucionado diante das câmeras (nem todas as produções contam com a "sorte" de ter um personagem como Robert Durst e sua língua solta), mas sim como um testemunho importante que permite, depois de décadas, que mulheres extremamente corajosas possam confrontar o terror que viveram.

23 de Junho de 2017

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.