Críticas por Pablo Villaça

Poster: 24 Frames
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
Unknown 24/05/2017
Distribuidora

Direção

Abbas Kiarostami

Produção

Ahmad Kiarostami

 

 


24 Frames
24 Frames

24 Frames

Dirigido por Abbas Kiarostami.

Apenas por estar em movimento e por trazer o tempo inscrito no que retrata (afinal, não somos nós quem decidimos a duração de cada plano), a imagem cinematográfica possui um imenso potencial narrativo inato: basta vermos algo na tela para imediatamente começarmos a projetar ali histórias e significados diversos. Esta é uma característica que diferencia o Cinema de uma fotografia estática, por exemplo, que podemos apreciar por seus aspectos puramente estéticos sem necessariamente tentarmos situá-la no centro de uma narrativa maior.

Pois é esta distinção que o iraniano Abbas Kiarostami, morto no ano passado, busca explorar neste seu derradeiro trabalho, 24 Frames, partindo de pinturas clássicas e de fotografias que ele mesmo tirou para expandir o contexto no qual se inserem. Para isto, o cineasta tentou imaginar os exatos quatro minutos e trinta segundos que precederam ou sucederam o instante capturado pelas duas dúzias de imagens que compõem esta antologia.

Frequentemente produzindo uma atmosfera lúdica resultante da manipulação digital das imagens iniciais e do composite empregado para inserir elementos novos (e em movimento) nas fotografias, Kiarostami explora também a dimensão sonora da narrativa ao levar o público a criar expectativas a partir de ruídos e músicas adicionados a cada curta – e, assim, um tiro ou uma buzina ouvidos fora de campo já passam a influenciar os objetos presentes nos planos que acompanhamos na tela. Além disso – e embora esta não seja sua preocupação primordial -, o diretor constrói alguma espécie de arco para cada segmento, mesmo que o desfecho destes seja simplesmente um pombo que deixa o frame ou um carro que estaciona diante de uma janela.

Mas 24 Frames pode ser apreciado também como uma fotografia estática, já que seus pontos de partida são precisamente os recortes feitos pelo olhar de Kiarostami. Com isso, logo começamos a identificar escolhas recorrentes feitas pelo cineasta, como sua preferência por retratar paisagens desoladas e animais (normalmente, aves), bem como seu fraco por composições verticais e, na maioria das vezes, cuidadosamente simétricas. Além disso, talvez por trazer seu olhar de cineasta para seus retratos, o iraniano constantemente inclui frames dentro de frames, utilizando cercas, telas de computador, os limites de janelas e as armações destas para calcular as proporções por estas estabelecidas.

Já de um ponto de vista de experimentação narrativa, o filme enfrenta alguns empecilhos que se tornam inevitáveis em função da proposta: se Kiarostami busca explorar como aquelas imagens são meras iniciadoras de um processo que precisa do observador (com sua imaginação e seu referente) para se completar, este processo é sabotado já a partir do momento em que o próprio diretor preenche ele mesmo as lacunas. Além disso, talvez por ter produzido os curtas durante um período de três anos, há uma repetição de temas e soluções que acabam por tornar a experiência repetitiva, o que representa um outro desperdício de oportunidade.

Não que Kiarostami precisasse criar historinhas originais ou mesmo interessantes, já que este não é o objetivo aqui, mas ao negar ao público ao menos a imagem que origina cada segmento, a narrativa se torna desnecessariamente frouxa, já que sabemos que estamos vendo algo que “ocorreu” antes ou depois de... o quê?

Ainda assim, 24 Frames é um trabalho de despedida digno de seu realizador, já que é a prova inconteste de que, aos 76 anos e depois de 46 de carreira, Abbas Kiarostami permanecia inquieto e curioso com relação ao potencial da Arte que dominava tão bem.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Cannes 2017.

24 de Maio de 2017

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.