Críticas por Pablo Villaça

Poster: Betting on Zero
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
17/03/2017 14/04/2016
Distribuidora

Direção

Ted Braun

Produção

Devin Adair , Glen Zipper

Fotografia

Buddy Squires

Música

Pete Anthony

Montagem

Leonard Feinstein

 

 


Betting on Zero
Betting on Zero

Betting on Zero

Dirigido por Ted Braun.

Quem assistiu ao fantástico A Grande Aposta sabe que “short” é um conceito do mercado especulativo que significa basicamente apostar contra uma empresa: caso ela fracasse, quem comprou uma posição destas ganhará uma fortuna. Pois o documentário Betting on Zero acompanha o investidor norte-americano Bill Ackman, cujo fundo apostou mais de um bilhão de dólares no fracasso de uma empresa que muitos considerariam inesperada para uma ação assim: a Herbalife.

Mas por que a Herbalife?

É isso que o filme busca explicar com detalhes em seus 98 minutos de duração. Em resumo, Ackman aponta que, segundo a legislação vigente em boa parte dos países, a Herbalife deveria ser considerada um “esquema de pirâmide”, já que, em última análise, sua receita vem não da venda de produtos, mas do recrutamento de novos vendedores - e, entre outras evidências, o diretor Ted Braun inclui vídeos que revelam executivos da empresa explicando, em reuniões privadas, que a Herbalife vende “oportunidades de negócio”.

Infelizmente, as vítimas do esquema tendem a ser justamente aquelas mais vulneráveis: pessoas humildes, com relativamente pouco estudo, que encaram as promessas da Herbalife como a grande oportunidade de enriquecimento com a qual sempre sonharam - e, claro, nos Estados Unidos estes indivíduos tendem a pertencer à comunidade de imigrantes latinos (alguns dos quais são entrevistados pelo diretor, lembrando-nos da realidade por trás dos números apresentados). Há, claro, “investidores” que deveriam estar mais atentos para o tipo de modelo de negócios apresentado, mas que acabam cedendo graças à outra particularidade da arquitetura da Herbalife: o fato de que os convites geralmente partem de amigos, não de desconhecidos - e um dos alvos que aparecem no longa é um rapaz formado em Administração que só percebeu ter entrado em um “esquema de pirâmide” alguns meses depois de ter feito seus investimentos iniciais, optando por abandonar o que havia começado por não aceitar a ideia de trazer conhecidos ou familiares para um investimento que sabia não ser rentável.

E os números apresentados por Betting on Zero são impiedosos neste aspecto: 95% das pessoas que se tornaram representantes da Herbalife perdem dinheiro - algo que faz todo o sentido quando consideramos a lógica típica do esquema de pirâmide, que, neste caso específico, resulta numa estatística absurda, já que, para que todos os recém-entrados na empresa possam lucrar, mais do que o dobro de toda a população do planeta teria que se tornar representante da corporação.

O motivo também é fácil de entender: de acordo com o modelo de negócios revelado por Bill Ackman, a Herbalife ganha dinheiro graças ao investimento obrigatório feito por cada novo representante, que, para atingir descontos progressivos nos produtos que revende, é levado a comprar mais e mais, demorando a perceber que os preços dos suplementos alimentares que negocia são ridiculamente superiores à média do mercado e, portanto, difíceis de comercializar.

Trazendo também entrevistas com o CEO da Herbalife, Michael O. Johnson (o executivo mais bem pago dos Estados Unidos, por sinal), o documentário não deixa, porém, de questionar as motivações do próprio Ackman, já que há o fato inegável de que este lucraria com a quebra da empresa e, portanto, teria todas as razões para difamá-la - e, não por coincidência, o investidor logo decide se comprometer a doar tudo o que vier a lucrar para as vítimas da corporação.

E, pelo que revela Betting on Zero, estas são muitas.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Tribeca 2016.

15 de Abril de 2016

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.