Críticas por Pablo Villaça

Poster: The Leftovers - Terceira Temporada
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
16/04/2017 16/04/2017
Distribuidora
HBO

 

 


The Leftovers - Terceira Temporada
The Leftovers - Season Three

The Leftovers - Terceira Temporada

Dirigido por Mimi Leder, Carl Franklin, Keith Gordon, Craig Zobel, Daniel Sackheim e Nicole Kassell. Roteiro de Damon Lindelof, Tom Perrotta, Nick Cuse, Tamara P. Carter, Patrick Somerville, Tom Spezialy e Lila Byock. Com: Justin Theroux, Carrie Coon, Amy Brenneman, Christopher Eccleston, Chris Zylka, Kevin Carroll, Jovan Adepo, Margaret Qualley, Liv Tyler, Janel Moloney, Michael Gaston, Regina King, Annie Q., Jasmin Savoy Brown, Lindsay Duncan, Katja Herbers, Victoria Haralabidou, Mark Linn-Baker, David Gulpilil, Bill Camp, Ann Dowd e Scott Glenn.

Qualquer realizador iniciante sabe que uma das máximas mais notórias do audiovisual é “não conte; mostre”. De modo geral, esta é de fato a opção correta, já que o Cinema (e, neste caso, a série) não enfrenta as limitações de um palco, por exemplo, criando naturalmente a expectativa no público de substituir a descrição pela ação – e é por esta razão que me sinto compelido a aplaudir a decisão dos responsáveis por The Leftovers, que decidiram encerrar a obra com um longo monólogo no qual Nora (Coon) conta algo em detalhes para Kevin (Theroux) sem que jamais vejamos na tela os importantes incidentes que ela está narrando. Assim, ao resistirem à óbvia tentação de criar impacto com aquelas imagens, os realizadores demonstram uma coragem que se torna ainda mais notável por resultar em uma estratégia narrativa que amarra com perfeição vários dos principais temas do projeto.

Pois ao não permitir que vejamos o que Nora descreve, The Leftovers automaticamente confere àquelas palavras o valor de mitologia, exigindo “fé” para que nelas acreditemos e, consequentemente, aproximando-as do mesmo caráter de teologia exibido não apenas pelo cristianismo (tão presente na série), mas pelas várias religiões e seitas existentes naquele universo. É uma estratégia que remete, por exemplo, à belíssima sequência de abertura da terceira temporada e que, ambientada em 1844, acompanha uma pequena comunidade sempre à espera do Arrebatamento anunciado pelo clérigo local e constantemente adiado, provocando o isolamento social daqueles poucos que insistem em aguardar.

E por que estas pessoas persistem contra todas as evidências? Porque muitos de nós simplesmente precisam crer, extraindo da fé o sentido que o mundo teima negar-lhes.

Depois de mover os personagens de Mapleton para Miracle na segunda temporada, os criadores Tom Perrotta (autor do livro original) e Damon Lindelof agora os transferem para a Austrália, onde, a poucos dias do sétimo aniversário dA Partida, Kevin Sr. (Glenn) tenta recuperar uma canção folclórica que, acredita, é a única coisa que poderá evitar o dilúvio que cobrirá o planeta naquela data. Enquanto isso, Nora viaja para o continente a fim de investigar a afirmação de duas cientistas que se dizem capazes de enviar qualquer um para o mesmo lugar em que os 2% da população desaparecidos há anos foram parar (embora não possam dizer que lugar é este) – e, ao acompanhar a parceira na viagem, Kevin começa a ter alucinações que despertam a preocupação de sua ex-esposa Laurie (Brenneman), que viaja com o marido John (Carroll), o enteado Michael (Adepo) e o pastor Matt Jamison (Eccleston) com o objetivo de ajudá-lo, embora ciente de que seus três acompanhantes vêm trabalhando em um novo evangelho protagonizado justamente por Kevin.

Inicialmente sugerindo que aqueles personagens encontraram algum resquício de paz interior depois de todas as atribulações vividas nas duas primeiras temporadas, The Leftovers aos poucos revela que não é bem assim: quando sozinho, Kevin cobre a cabeça com um saco plástico para se sufocar; a dor de Nora pelos filhos agora soma-se à perda da pequena Lilly, que devolveu à mãe (Annie Q.); John não consegue superar a morte de Evangeline (Brown) e a obsessão de Matt com o “Evangelho de Kevin” acaba por afastar sua esposa Mary (Moloney), que parte com o filho que tanto sofreram para conceber. Nada disso é surpreendente, já que o ponto central da série é precisamente a incapacidade daqueles indivíduos – e a nossa - de lidar com a perda, a morte e, claro, aquela eterna semente de inquietude e insatisfação que parece sempre pronta a germinar em nossas almas.

É claro que, levando-se em consideração apenas sua trama, estes oito episódios derradeiros são – para ser generoso – problemáticos: para começo de conversa, Lindelof e Perrotta jamais conseguem se decidir se, afinal, Kevin é ou não uma espécie de Cristo ressuscitado. Sim, por um lado, ele literalmente ressuscita (várias vezes); por outro, suas visitas ao outro mundo basicamente servem apenas para que ele lide com questões pessoais. Da mesma maneira, se é tratado como um Salvador, o fato é que sua “missão” de recuperar um cântico para evitar o dilúvio fracassa – o que não faz qualquer diferença. E o mais frustrante: ainda que basicamente tentem advogar que a Fé (seja esta direcionada por qualquer dogma específico) é um mecanismo humano para lidar com o desconhecido, os realizadores ainda assim insistem em passagens nas quais um personagem diz “Jesus!” ao ser surpreendido por Kevin ou outra na qual um avião imediatamente enfrenta fortes turbulências quando alguém manifesta ceticismo quanto à natureza sobrenatural do protagonista. É quase como se Lindelof e Perrotta tentassem, ao mesmo tempo, defender duas visões diametralmente opostas, o que pontualmente prejudica a narrativa.

De modo similar, os roteiros escritos pela equipe comandada pela dupla oscilam entre o simplismo absoluto (como ao retratar o policial australiano como um cretino unidimensional a fim de que não lamentemos seu destino), a obviedade que trata o espectador como idiota (“Eu peguei seu remédio emprestado”, diz Amy a um cachorro para se certificar de que entendemos o que ocorreu no jantar) e uma complexidade admirável (como o monólogo de Kevin Sr. acerca de suas crenças, que soa simultaneamente alucinado e convincente). Por outro lado, The Leftovers é sempre consistente em sua atmosfera de mistério e melancolia, o que transforma os créditos iniciais desta temporada, que remetem a uma sitcom dos anos 80, em um deboche divertido (além de empregar, no piloto, a música da série Primo Cruzado, que inesperadamente acabou tendo papel relevante na trama). Para completar, sequências como a que traz um homem correndo nu por um submarino e depois assumindo uma pose estatuesca para disparar uma bomba atômica funcionam quase como curtas-metragens isolados do restante da obra – o mesmo se aplicando aos prólogos das duas temporadas finais.

Outro aspecto no qual a série demonstra consistência admirável é o tratamento temático de seus signos – especialmente aqueles relacionados ao cristianismo. Do nome de Christopher Sunday (um Cristo aborígene) a imagens como a de Kevin Sr. caído com as muletas estendidas ao seu lado, como um crucifixo, The Leftovers não economiza no simbolismo, investindo particularmente na recorrência da água como sinal de renascimento e/ou purificação, desde os sprinklers do hotel (o plano no qual as lágrimas de Nora se confundem com a água por eles liberada é magistral) até a decisão de Laurie de se “reiniciar” com um mergulho, passando pelos repetidos afogamentos de Kevin, pela chuva que encharca os crentes de 1844, pela viagem marítima que leva Matt a repensar sua postura, pela tempestade que pode ou não resultar num dilúvio e, finalmente, pelo líquido no qual Nora mergulha para fazer sua viagem final e encontrar a paz de espírito que tanto busca.

De uma forma ou de outra, aliás, todos os personagens da série estão buscando algo em que possam acreditar, uma crença que traga alguma explicação, sentido ou justificativa para os tormentos que enfrentam, não sendo coincidência que já tenhamos sido apresentados a tantas seitas e cultos desde a primeira temporada (ao discuti-la, escrevi: “(...) se as religiões são modos de lidar com a mortalidade e com o desconhecido, buscando conferir propósito ao que nada mais é do que uma breve passagem pelo planeta (com suas alegrias e tristezas), nada mais natural que algo como "A Partida” leve à criação de seitas tão distintas quanto as lideradas por Patti e Wayne ou aquela que move seus seguidores a pintar um alvo na testa a fim de atrair a atenção de Deus”). O interessante aqui, contudo, é notar como Lindelof e Perrotta acabam por apontar a hipocrisia inata ao ato de condenar a crença alheia quando a sua própria é tão (pouco) plausível quanto a outra; em vários momentos dos últimos oito episódios, vemos personagens classificando os dogmas uns dos outros como “loucura” embora, vistos à distância, todos sejam basicamente os mesmos, mudando apenas nos detalhes – e, assim, é natural que vejamos, por exemplo, Kevin Sr. ou Nora, com todas as suas divergências, subindo em seus telhados em instantes distintos e remetendo à ação dos cristãos de 1844.

E é também por esta razão que a decisão de trazer Nora relatando sua experiência em vez de retratá-la é tão perfeita: no final das contas, temos apenas a palavra daquela personagem, cabendo a cada espectador a decisão de acreditar ou não no que ouviu.

A verdade é que todos vamos desaparecer eventualmente. Não no mesmo momento, da mesma maneira ou misteriosamente, mas vamos – e, como aqueles levados durante A Partida, a maioria tampouco deixará rastros de sua passagem pelo planeta. O que importa, portanto, não é a crença sobre o que ocorre depois do final da jornada, mas o que fazemos enquanto esta dura e como nos relacionamos com aqueles que nela nos acompanham.

É isto que Kevin e Nora finalmente compreendem ao final das três ótimas temporadas de The Leftovers - e é por esta razão que a série conclui tão bem seu arco temático e se despede do espectador da maneira mais apropriada: com um raro e sincero sorriso de esperança nos lábios de personagens que, até então, concentravam-se apenas na tristeza que compartilhavam com o mundo.

20 de Junho de 2017

Leia também os textos sobre a primeira e a segunda temporadas.

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.