Críticas por Pablo Villaça

Poster: Mulher-Maravilha
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
01/06/2017 02/06/2017
Distribuidora
Warner

 

 


Mulher-Maravilha
Wonder Woman

Mulher-Maravilha

Dirigido por Patty Jenkins. Roteiro de Allan Heinberg. Com: Gal Gadot, Chris Pine, Robin Wright, Connie Nielsen, Elena Anaya, Danny Huston, Ewen Bremner, Saïd Taghmaoui, Eugene Brave Rock, Lucy Davis, Lilly Aspell e David Thewlis.

Não acredito que seja meu lugar o de discutir feminismo. Já escrevi sobre isso algumas vezes: não creio que um homem possa de fato se declarar feminista; sua experiência cotidiana encontra-se longe demais da realidade das mulheres no mundo machista em que vivemos. Podemos – devemos – ser apoiadores (e frequentemente falhos e inconsistentes neste sentido, como sei que sou), mas presumir que a pura empatia ou a consciência social é o bastante para que compreendamos totalmente a realidade feminina é, julgo, absurdo. Assim, não vou fingir ser capaz de perceber todas as maneiras como Mulher-Maravilha reflete e repercute a percepção do papel da mulher na sociedade, no Cinema ou no próprio gênero “ação”, embora seja impossível não abordar o empoderamento feminino (esta expressão tão temida por alguns) quando constatamos como foram necessárias mais de seis décadas desde sua criação para que a super-heroína finalmente ganhasse seu próprio veículo nas telas grandes – e, portanto, quando logo no início da projeção vemos a pequena Diana (Aspell) observando o treinamento das amazonas e imitando seus gestos, o que o filme está comentando é seu próprio papel como um espelho no qual as jovens espectadoras podem finalmente encontrar um reflexo de sua força.

Dirigido por Patty Jenkins (responsável pelo ótimo Monster – Desejo Assassino) a partir de um roteiro de Allan Heinberg, Mulher-Maravilha traz a história da origem da heroína depois de termos visto umas quinhentas versões dos mais do que conhecidos nascimentos de seus colegas de Liga da Justiça, Batman e Superman: filha da rainha Hippolyita (Nielsen), líder das amazonas, Diana (Gadot) cresce na ilha de Themyscira e é treinada pela general Antiope (Wright), que enxerga na moça – também sua sobrinha – a única defesa possível contra Ares, filho de Zeus e deus da Guerra, que pode retornar a qualquer momento para destruir as amazonas e a humanidade. Assim, quando o espião Steve Trevor (Pine) vai parar acidentalmente na ilha enquanto fugia dos alemães depois de roubar um caderno no qual a Dra. Veneno (Anaya) anotara a fórmula de uma poderosa arma química, Diana decide ajudá-lo a retornar à Inglaterra para alertar seus superiores sobre os planos do perigoso general Ludendorff (Huston), que se recusa a aceitar a iminente derrota de seu país à medida que a Primeira Guerra se aproxima do fim.

Embora visualmente limitado pela paleta cinzenta, dessaturada e sem vida estabelecida para o universo cinematográfico da DC por Zack Snyder, Mulher-Maravilha encontra uma solução razoável para o problema ao conferir cores mais intensas às sequências ambientadas em Themyscira, que a designer de produção Aline Bonetto concebe como um lugar paradisíaco no qual o reino das amazonas se insere orgânica e elegantemente à paisagem, sugerindo uma integração respeitosa das guerreiras à natureza (e Bonetto merece aplausos também por elementos sutis como a reentrância da cama da pequena Diana na parede e que remete ao escudo que esta usará no futuro). Enquanto isso, o diretor de fotografia Matthew Jensen ressalta a essência icônica da personagem-título em planos como aquele no qual a vemos em contraluz, sobre a fuselagem do avião de Steve, a partir do ponto de vista deste sob a água – e, da mesma maneira, a utilização de câmera lenta pelo fotógrafo é eficaz ao valorizar passagens impactantes da ação, desde o instante em que Antiope dispara três flechas simultaneamente até aquele em que vemos a protagonista investir contra as trincheiras dominadas por inimigos depois de se indignar com a passividade dos soldados britânicos.

Aliás, esta postura de Diana é algo que reflete bem a forma com que Hollywood tem sido obrigada a reconhecer a disparidade entre o protagonismo de homens e mulheres em superproduções, o que me obriga a repetir pela enésima vez a excelente frase de Éric Rohmer sobre como “todo bom filme é também um documento de sua época” – e, portanto, quando Steve apresenta a parceira como sendo sua secretária ao perceber que só assim seus superiores considerariam plausível sua presença em um ambiente de poder, é óbvio que a obra está fazendo uma crítica a um histórico machismo institucional. Chris Pine, por sinal, demonstra inteligência ao jamais permitir que o humor inerente ao espanto de seu personagem diante da força descomunal de Diana diminua a heroína ou roube seu protagonismo; quando ela toma a dianteira em uma situação perigosa, por exemplo, ele aceita a iniciativa da companheira com um “Ok” que soa mais como reconhecimento natural de uma estratégia óbvia do que como um momento de “humilhação” (um sentimento que por si só seria sexista).

De modo similar, a personagem de Gal Gadot frequentemente faz comentários que trazem duplos sentidos (como ao dizer, diante de um Steve Trevor nu, “Você permite que essa coisinha te diga o que fazer?”, referindo-se a um relógio, mas também a uma parte de sua anatomia) ou mesmo declarações inquestionáveis de autoafirmação (“Você não decide o que devo fazer”). Além disso, a sequência em que é levada para comprar roupas mais discretas que seu uniforme é uma crítica escancarada ao modo como o vestuário voltado para o público feminino habitualmente sacrifica a praticidade e o conforto em prol da sexualização ou da conformação a um ideal pré-estabelecido de beleza ou “elegância”, sendo admirável como a figurinista Lindy Hemming finalmente a cobre com um sobretudo bastante similar àquele usado por Trevor.

Mas Mulher-Maravilha vai além: em certo instante, Diana comenta casualmente como “quando se trata de prazer, (os homens) são desnecessários”; e, mais tarde, é ela quem toma a iniciativa ao se ver sozinha com Steve. Aliás, o fato de ter sido dirigido por uma mulher é algo que também molda de maneira importante a abordagem narrativa do filme: quando a heroína veste seu uniforme pela primeira vez, Patty Jenkins inclui vários planos-detalhe que revelam suas botas, seus braceletes e sua corda, jamais objetificando seu corpo ao fazer algo que cineastas do sexo masculino recorrentemente fazem e certamente repetiriam aqui, aproveitando a desculpa para explorar coxas, seios, bunda e o que mais fosse possível.

A sensibilidade particular de Jenkins, diga-se de passagem, é também fundamental ao permitir que os personagens secundários possam se tornar multidimensionais, enfrentando seus próprios problemas: Charlie (Bremner) é atormentado pelo que testemunhou nos campos de batalha; Sameer (Taghmaoui) comenta que sonhava em ser ator, mas que se viu frustrado por ter “a cor errada”; e o Chefe (Brave Rock), embora ame e respeite Trevor, não se esquece de que foi o povo deste que destruiu o seu. Por outro lado, não há muito que a cineasta possa fazer para contornar outros diálogos horrorosos e clichês, como aqueles do tipo “Você continua a duvidar de si mesma”, “Você é mais forte do que acredita” ou todo o terrível e batido monólogo do vilão ao tentar convencer a protagonista a mudar para seu lado.

Comprovando que, ainda que se mostre limitada como atriz, Gal Gadot possui carisma e uma intensidade que conferem convicção e uma importante pureza a Diana, Mulher-Maravilha é um longa que, mesmo eficaz como entretenimento, não se preocupa em criar elaboradas ou frequentes sequências de lutas ou perseguições, usando-as pontualmente e sem firulas descartáveis apenas para mover a narrativa, já que sua habilidade como guerreira é apenas uma das virtudes da heroína.

E, como pai orgulhoso de uma garota, fico feliz por saber que sua geração conta com um número cada vez maior de figuras que permitem uma identificação maior nas telas, incluindo em filmes de ação. Afinal, se Diana podia se espelhar em mulheres fortes ao brincar de amazona, é mais do que apropriado que a minha pequena, por sua vez, possa também brincar de Diana Prince.

09 de Junho de 2017

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Assista também ao videocast sobre o filme:

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.