Críticas por Pablo Villaça

Poster: O Jovem Papa - Primeira Temporada
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
29/04/2017 21/10/2016
Distribuidora
HBO/Fox Premium

 

 


O Jovem Papa - Primeira Temporada
The Young Pope - First Season

O Jovem Papa - Primeira Temporada

Dirigido por Paolo Sorrentino. Roteiro de Paolo Sorrentino, Umberto Contarello, Tony Grisoni e Stefano Rulli. Com: Jude Law, Silvio Orlando, Diane Keaton, Cécile De France, Javier Cámara, Scott Shepherd, Ludivine Sagnier, Toni Bertorelli, Marcello Romolo, Vladimir Bibic, Allison Case, Ignazio Oliva, Maurizio Lombardi, Sebastian Roché, Guy Boyd, Franco Pinelli, Carolina Carlsson, Andre Gregory, Milvia Marigiliano, Stefano Accorsi e James Cromwell.

(Este texto contém spoilers da primeira temporada.)

Um dos piores erros que um crítico pode cometer é escrever não sobre a obra que viu, mas sobre a que queria ter visto. Muitas vezes, uma narrativa parece caminhar numa direção para, em seguida, revelar-se como algo completamente diferente – e se o crítico se mostra incapaz de ao menos compreender a proposta, sua análise já nascerá falha.

Tomemos a série O Jovem Papa como exemplo: em seu piloto, ela parece tentar se apresentar como uma House of Cards ambientada no Vaticano, concentrando-se nos bastidores do poder ao enfocar a disputa entre o papa Pio XIII (Law), recém-eleito por seus pares, e o influente cardeal Voiello (Orlando), que manipulou o processo para garantir sua vitória por julgar que seria fácil tratá-lo como mera figura decorativa, reconhecendo seu erro já em sua primeira reunião com o jovem Sumo Pontífice. Este tipo de narrativa, que gira em torno de personagens inteligentes e maniqueístas lutando para destruir um ao outro, é certamente algo que aprecio – e, neste caso, com um atrativo adicional: como ateu e crítico constante do papel destrutivo das religiões organizadas, eu encontrava-me mais do que receptivo à ideia de uma série estrelada por um papa que já no primeiro episódio sugere não acreditar em Deus e que exibe uma crueldade que contrasta com seu posto de líder espiritual.

E foi aí que algo estranho aconteceu: em vez de seguir nesta direção, O Jovem Papa aos poucos converteu seus personagens em figuras menos interessadas no poder em si e mais numa disputa teológica envolvendo a orientação da Igreja e de sua liturgia. Longe de ocuparem posições estáticas de herói e vilão, Pio XIII e Voiello são indivíduos complexos que parecem ter ideias sinceras – e, claro, conflitantes - sobre o papel de Deus e da Igreja no mundo contemporâneo, adotando atitudes que compreendemos mesmo que delas discordemos. O que vi, em suma, foram dez episódios com uma estética apurada, uma linguagem que foge do simplismo e que se preocupa em desenvolver personagens multidimensionais e fascinantes.

Porém, ainda mais instigante é perceber como o criador do projeto, o cineasta italiano Paolo Sorrentino, subverte ainda mais as expectativas do espectador ao estabelecer Pio XIII como conservador e seu oponente bem mais velho como uma voz preocupada com uma visão mais progressista. Assim, quando o pontífice discursa para seus cardeais, apontando os rumos fundamentalistas que pretende seguir em seu papado, é curioso ver os rostos horrorizados daqueles homens idosos diante do conservadorismo do líder. “Os jovens são sempre mais extremados do que os velhos”, comenta o cardeal Caltanissetta (Bertorelli), tão fragilizado pela idade que não consegue viver sem o apoio de um balão de oxigênio.

Aliás, uma das muitas virtudes de O Jovem Papa reside em seu esforço para humanizar figuras que, graças às suas imponentes vestes sacerdotais, tendem a se converter facilmente em estereótipos – e, assim, quando vemos um cardeal vestido com o uniforme do Napoli, o papa se exercitando em seus aparelhos de ginástica ou um grupo de freiras jogando futebol nos jardins do Palácio do Vaticano, o puro choque das imagens já se encarrega de facilitar o processo. Além disso, quando notamos como Voiello observa a Irmã Mary (Keaton) com ares apaixonados, fica claro que a série não tem interesse de condenar o desejo do cardeal, tratando-o não como escândalo em potencial, mas como algo simplesmente instintivo, já que o celibato eclesiástico pode até ser uma exigência milenar da Igreja Católica, mas certamente não é algo condizente com a natureza humana. Aliás, mesmo a relutância do personagem-título em ceder a qualquer tentação sexual é explicada por este como algo motivado pelo medo de sofrer e por julgar que o prazer momentâneo trazido pelo sexo não compensa o potencial de dor e de inconvenientes resultantes.

E mesmo que esta soe como uma postura cínica, O Jovem Papa não é uma série interessada em julgar os valores de seus personagens, mas em retratar a intensidade e a coerência com as quais estes os defendem. O cardeal Michael Spencer, por exemplo, é encarnado por James Cromwell como um homem cujo rancor por ter sido preterido para o posto que sonhou ocupar durante toda a vida é intenso, mas não o define, já que sua preocupação com o destino da Igreja é maior do que seu desejo de ver o ex-pupilo e agora superior fracassar. Dilema parecido, por sinal, é o que toma conta da Irmã Mary: responsável por cuidar de Pio XIII desde que este era apenas uma criança órfã chamada Lenny Belardo, a freira obviamente encara seu quase filho adotivo como um santo (literalmente), mas também é capaz de perceber como seus métodos são desastrosos – e o fato de ser vivida por Diane Keaton traz, como não poderia deixar de ser, características peculiares à personagem (sou capaz de apostar que a blusa “Sou virgem, mas esta camisa é velha”, que ela usa para dormir, foi ideia da atriz). Enquanto isso, Cécile De France interpreta a relações-públicas Sofia como uma mulher que, mesmo frustrada com a teimosia do novo papa, não consegue deixar de admirar seus métodos.

Contudo, o centro dramático de O Jovem Papa encontra-se mesmo na dinâmica entre o protagonista e o cardeal Voiello, que o veterano Silvio Orlando compõe com um senso de humor que jamais deixa de surpreender (e funcionar), seja ao reagir quase com dor ao ouvir alguém dizer que torce para o Inter, rival de seu Napoli, seja ao demonstrar como reconhece o tipo de sentimento que provoca nos outros (quando um colega lhe pergunta se não gostaria de ser o líder da Igreja, ele responde: “Um papa deve inspirar confiança; eu inspiro o oposto”). Revelando aos poucos uma doçura e mesmo uma bondade que não poderíamos esperar assistindo apenas ao piloto, Voiello é um homem inteligente e poderoso, mas que tem escrúpulos e limites mesmo ao tentar destruir seus oponentes – e suas cenas com o jovem Girolamo (busquei muito o nome do ator, mas não encontrei), preso a uma cadeira de rodas em função de uma grave paralisia cerebral, são comoventes e sugerem uma pureza importante em seu caráter.

O que nos traz a Jude Law e ao seu Lenny Belardo/Pio XIII: vaidoso, intolerante e arrogante, o sujeito tem o hábito de interromper seus interlocutores, olhando-os sempre de cima para baixo como se fizesse um favor apenas ao ouvi-los. Egocêntrico e narcisista a ponto de ressentir a insinuação de que a Irmã Mary teria influência sobre suas decisões, o personagem conta com maneirismos cuidadosamente concebidos pelo ator, como o hábito de trazer a mão fechada à boca apenas para revelar, quase como num passe de mágica, um cigarro nos lábios e a maneira como estende fervorosamente os braços para o lado ao rezar, evocando Cristo crucificado. Ao mesmo tempo, Law introduz pequenos momentos reveladores de insegurança, como o olhar de canto de olho que lança a Don Tommaso (Romolo) para avaliar se este acreditou em uma afirmação ou a curiosidade que demonstra ao perguntar para vários colegas de sacerdócio como estes descobriram seus “chamados”.

É esta complexidade de Belardo, aliás, que o torna um protagonista tão interessante: sim, ele é homofóbico, sexista e fundamentalista, mas também capaz de fazer gestos generosos, além de preocupar-se genuinamente com figuras como Esther (Sagnier), jamais explorando a adoração desta de forma mesquinha. Da mesma forma, se o sujeito se mostra impaciente ao ser desobedecido, é fato também que nunca demonstra ansiedade para distribuir culpa por qualquer equívoco, exibindo até certa propensão a assumi-la sozinho. Estes elementos, contudo, não o tornam menos assustador quando passa a manifestar sua visão retrógrada e intolerante, quando Sorrentino e o excepcional diretor de fotografia Luca Bigazzi o envolvem em sombras pesadas que o transformam numa silhueta que grita condenação e preconceito.

Em sua primeira homilia como papa, por exemplo, Pio XIII é apresentado pelo diretor quase como um ser sobrenatural, como uma voz raivosa e punitiva que, processada pelo desenho sonoro do episódio para soar como se partindo da garganta de Deus, tem seu peso reforçado pela trilha lúgubre de Lele Marchitelli e pela tempestade que parece se formar como resultado de seu discurso impiedoso. Constantemente ao longo da série, diga-se de passagem, Sorrentino ressalta a dominância do protagonista – como, por exemplo, ao trazê-lo caminhando sobre uma mureta enquanto Voiello, bem abaixo, tem suas traições expostas. Além disso, a própria sequência de créditos usada em vários episódios é hábil ao expor a natureza do papa e a maneira como este se enxerga, acompanhando-o diante de vários quadros que retratam cenas sacras enquanto a Estrela de Belém salta de uma imagem a outra (mais uma vez comparando-o a Cristo, algo que também ocorre nas aparições de sua mãe biológica em visões ou flashbacks, quando traz pendentes ou formas em seu vestido que remetem ao Sagrado Coração da Virgem Maria).

Claro que, aqui e ali, Sorrentino se rende a firulas narrativas dispensáveis, como ao levar o espectador a ouvir a voz de Pio XIII através das distorções provocadas pelo aparelho de surdez de uma freira, mas estes momentos são mais do que compensados por outros fabulosos – e o longo plano que enfoca o papa enquanto este ora no fundo de uma piscina é brilhante não só por sua beleza, mas também por servir para ilustrar seu isolamento emocional. Além disso, os constantes contrastes entre a solenidade daquele universo e as músicas incidentais escolhidas para acompanhar certas sequências colaboram para o bom humor da narrativa e para ancorar aqueles personagens em uma realidade não tão distante da nossa. Para completar, os fantásticos figurinos e o imponente design de produção ganham peso adicional através da forma como são fotografados, já que recorrentemente vemos os religiosos na metade inferior do quadro, como se também esmagados pelo peso histórico e simbólico de tudo que os cercam.

O simbolismo presente em O Jovem Papa, aliás, é construído com riqueza pelos realizadores, resultando em imagens frequentemente impactantes – e o conceito da pilha de bebês descartados, que reflete a dor de Lenny por ter sido abandonado pelos pais, é particularmente memorável, encontrando eco também no instante no qual ele desmaia no colo de Esther, evocando a Pietà de Michelangelo (o que mais uma vez o transforma em Cristo).

Mas, afinal, todas estas comparações com Jesus são procedentes? Há de fato um componente metafísico na série? Seria Pio XIII realmente... um santo? A resposta, surpreendente ao seu próprio modo, é provavelmente positiva: ao ser questionado por uma repórter, o avião no qual se encontram passa por uma turbulência súbita que parece não afetar Lenny; a punição à Irmã Antonia (Marigliano) ocorre como resposta aparente a uma oração; Esther de fato engravida e, claro, a própria atmosfera parece responder aos humores do papa. No entanto, se isto poderia tornar O Jovem Papa frágil por incluir elementos que comprovariam a “correção” da fé católica, é o oposto que ocorre, já que resulta numa pergunta ainda mais instigante: e se o representante de Deus na Terra fosse um homem profundamente falho? E se a “santidade” não elimina os desvios de caráter de seu detentor? E se o que realmente o levaria a fazer jus aos seus “dons” fosse o aprendizado?

De certo modo, é relevante apontar, Pio XIII merece créditos ao menos por sua coerência, já que, ao contrário de tantos cristãos, não escolhe as passagens da Bíblia que irá seguir ou ignorar – e isto, por si só, já seria material suficiente para inspirar boas discussões entre os espectadores que enxergam em Cristo o filho de Deus. (Ou como exercício dialético para quem não enxerga.) Seja como for, a simples evolução moral de Lenny, medida através de sua relação com o bondoso cardeal Gutierrez (Javier Cámara, com seus olhos que sempre parecem exalar gentileza), é um arco narrativo admirável em si mesmo, já garantindo o sucesso desta primeira temporada.

Seria bem mais fácil, para O Jovem Papa, manter um olhar irônico, distante ou mesmo satírico sobre seus personagens e o universo que ocupam – mas ao acreditar na sinceridade de todos eles, Sorrentino e seus co-roteiristas criam figuras infinitamente mais interessantes. Sim, um vilão como Frank Underwood tem seu apelo, mas mais assustador do que um indivíduo calculista com sonhos de poder é um sujeito que usa o fundamentalismo religioso para preencher seu vazio interior e que – mesmo inconscientemente – quer se vingar do mundo pelo que não é capaz de sentir.

O que não significa que o Pio XIII vivido por Jude Law não seja capaz de aprender, já que, como tantos trabalhos de Sorrentino, esta série é, em última análise, essencialmente otimista ao acreditar que as aspirações de seu problemático anti-herói podem até ter natureza divina, mas isto não elimina a beleza de sua humanidade imperfeita.

04 de Maio de 2017

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.