Críticas por Pablo Villaça

Poster: The Leftovers - Segunda Temporada
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
04/10/2015 04/10/2015
Distribuidora
HBO

 

 


The Leftovers - Segunda Temporada
The Leftovers - Season Two

The Leftovers - Segunda Temporada

Dirigido por Mimi Leder, Carl Franklin, Keith Gordon, Craig Zobel, Daniel Sackheim, Nicole Kassell e Tom Shankland. Roteiro de Damon Lindelof, Tom Perrotta, Nick Cuse, Jacqueline Hoyt, Patrick Somerville, Tom Spezialy, Monica Beletsky. Com: Justin Theroux, Carrie Coon, Amy Brenneman, Christopher Eccleston, Margaret Qualley, Chris Zylka, Liv Tyler, Janel Moloney, Ann Dowd, Kevin Carroll, Regina King, Jovan Adepo, Scott Glenn, Michael Gaston, Jasmin Savoy Brown, Paterson Joseph, Marceline Hugot, Steven Williams, Darius McCrary.

Ao escrever sobre a primeira temporada de The Leftovers, observei como Damon Lindelof havia assumindo uma posição diametralmente oposta àquela que muitos esperaram de Lost, deixando claro que seu interesse pelo evento instigante da série (o desaparecimento de 2% da população do planeta) dizia respeito mais às suas consequências do que às suas causas. Assim, é curioso notar como, no ano seguinte, ao já não ter mais o material original do livro de Tom Perrotta para adaptar, Lindelof aparentemente recorreu pesadamente às suas raízes ao inspirar-se em seu trabalho anterior para desenvolver a trama e as relações entre seus personagens.

Não é difícil constatar, por exemplo, como o parque Miracle e a cidadezinha de Jarden, que passam a abrigar Kevin (Theroux), Nora (Coon) e Jill (Qualley), nada mais são do que uma versão mais sofisticada da ilha na qual o voo Oceanic 815 despejou seus passageiros em 2004 e que contava com seus mistérios, seus poderes e sua mitologia particular. Se a ilha curou a paraplegia de Locke, por exemplo, o parque não só fez o mesmo por Mary Jamison (Moloney) como ainda a fez despertar do estado catatônico no qual permaneceu por anos. Da mesma forma, o parque representa um local ao qual relativamente poucos têm acesso, funcionando como ilha separada do restante do mundo por uma ponte – e a diferença é que, se (nas primeiras temporadas de Lost) Jack e seus companheiros queriam fugir do local, em The Leftovers todos querem entrar em Miracle. Aliás, assim como Jack, Kevin é um protagonista que assume a guarda de um bebê nascido em circunstâncias especiais (os dois homens exibem imensas tatuagens, diga-se de passagem) e, claro, em ambas as séries há a representação de um plano de transição entre o mundo dos vivos e o além-vida (a Igreja em Lost; o hotel em The Leftovers). E se o Brasil e a Austrália eram dois países que em algum momento ganharam destaque em Lost, o mesmo ocorre aqui: há uma bandeira brasileira no acampamento situado do lado de fora do parque e a Austrália é mencionada várias vezes durante a temporada. Para finalizar, assim como ocorria repetidamente na série de 2004, uma personagem morta ressurge nesta segunda temporada para aconselhar/perturbar o protagonista.

Se uma ou outra destas “coincidências” seriam fáceis de ignorar, em conjunto elas se tornam óbvias demais para serem atribuídas a um acaso criativo; por sorte, não se pode dizer que as similaridades atrapalhem a temporada, que continua a desenvolver os temas da anterior de maneira consistente: assim, mesmo carregando a mão em mistérios específicos (qual a natureza real de Patti (Dowd)? O que houve com Evie (Brown) e as amigas?), The Leftovers segue mais interessado na análise psicológica de seus personagens, que é o que a torna tão instigante. Desta maneira, quando um grupo de cientistas explica a Nora que a “escolha” daqueles que desapareceram pode ter sido determinada por algo tão aleatório quanto suas localizações no instante da Partida, a informação pouco esclarece, servindo mais como um elemento dramático ao levar a personagem à constatação de que talvez não possa contar nem mesmo com o conforto de um Grande Significado por trás da perda de sua família – e é este acaso que já é tematicamente apresentado na belíssima introdução da temporada, quando, em um flashback de milhões de anos, acompanhamos uma mulher na pré-História sendo isolada de sua tribo em função de um terremoto e esforçando-se para salvar seu bebê recém-nascido (o que não apenas apresenta o tema do “acaso” como também os terremotos recorrentes na temporada e a passagem de um bebê de um protetor a outro).

Corajosos ao investirem a maior parte do episódio de abertura em novos personagens, Lindelof e Perrotta deixam claro desde o princípio que irão não apenas alterar o cenário da série, mas também sua dinâmica: se boa parte da primeira temporada se concentrava nas tensões criadas entre os habitantes de Mapleton e os membros do culto Remanescentes Culpados, desta vez o foco é a relação entre Kevin, Nora e os novos vizinhos, John e Erika Murphy (Carroll e King). John, em especial, aos poucos assume a posição de quase antagonista através de seus modos impulsivos, potencialmente violentos e disparados particularmente por qualquer indício de charlatanismo religioso, o que o contrapõe à sensatez de Erika e, principalmente, à fé inabalável do filho Michael (Adepo). Esta postura, por sinal, encontra reflexo em Laurie (Brenneman), que, depois de abandonar os Remanescentes Culpados, exibe uma agressividade inegável como resultado da frustração de ter sido psicologicamente manipulada por tanto tempo – algo que se torna possivelmente mais doloroso em função de seu passado profissional como psicanalista. Assim, é no mínimo apropriado que ela agora se junte ao filho Tom (Zylka) para tentar recuperar o maior número possível de integrantes do culto, que agora tem Meg (Tyler), originalmente “convertida” por Laurie, como uma de suas principais lideranças. Aliás, Liv Tyler faz um trabalho surpreendente ao empregar seus modos normalmente calmos e doces como forma de ressaltar a ameaça cada vez maior representada por sua personagem.

Mas é claro que, assim como nos dez episódios originais, é mesmo Kevin Garvey (Theroux) quem ancora a narrativa: em maior ou menor grau, The Leftovers é sua história e um estudo de sua personalidade. Seguindo vítima de uma insatisfação com a própria vida que resiste até mesmo aos seus maiores momentos de felicidade (lembrem-se de sua expressão durante a festa de aniversário do pai na primeira temporada), Kevin é um homem raivoso e autodestrutivo que constantemente se isola do restante do mundo (através da música alta nos fones de ouvido, por exemplo) e que parece buscar razões para justificar um mal-estar generalizado que parece enraizado em sua alma – razões que o mundo insiste em lhe negar, já que nem mesmo sua óbvia tentativa de ser preso é bem sucedida. Sem precisar sequer esconder seu hábito de fumar, que lhe oferecia uma desculpa ocasional para se isolar, o sujeito chega a convencer a família a se mudar de maneira inegavelmente impulsiva, falhando em perceber que procura algo que jamais vai encontrar – pois, como a filha lhe diz em certo momento, em um insight perfeito, “aonde você for, você estará lá”.

Kevin é, assim, um homem condenado à prisão perpétua, sendo sua cela sua própria natureza.

Não é à toa, portanto, que a decisão de Nora de comprar uma casa em Miracle o apavora tanto: ao ver-se ancorado no que deveria ser apenas uma promessa de felicidade a ser descartada assim que inevitavelmente fracassasse, Kevin resiste ao comprometimento que tanto atrai a companheira, já que o que esta quer, depois de perder tudo o que tinha, é a segurança representada por uma comunidade aparentemente imune ao perigo representado pela Partida.

Ou talvez devêssemos chamar aquele evento pelo que realmente é - o “Arrebatamento” cristão – já que, por mais que tente negar a natureza essencialmente religiosa do ocorrido, The Leftovers é uma série carregada de simbolismos ligados principalmente ao cristianismo, das luzes de Natal que marcam o trailer habitado por Virgil (Williams) à pose do Jesus crucificado evocada pelos braços estendidos de Tom (e, antes, de Wayne) para um abraço capaz de trazer a tão esperada paz àqueles que a ele se renderem (e assim como uma pequena heresia dita por Kevin levara seu carro a falhar na primeira temporada, aqui um desafio raivoso feito por Nora – “Conserte isso, Jesus!” – é imediatamente seguido por um terremoto punitivo). Da mesma maneira, se a linda trilha de Max Richter traz coros que constantemente remetem à música sacra, é impossível deixar de observar a recorrência da água como elemento purificador e que insiste em “batizar” os personagens: quando Jill é encharcada em função de uma torneira defeituosa, por exemplo, é o evangelizador Michael quem conserta o problema, inspirando a moça a dizer “Obrigada por me salvar”. Além disso, é o desaparecimento da água de Miracle que marca o início dos problemas da comunidade e também é a água que serve como “ponte” para o além-vida, onde Kevin chega ao sair de uma banheira (e notem que ele recebe instruções claras para não beber a água do local, sob pena de permanecer preso para sempre – instruções que são dadas por Virgil, que não por acaso divide o nome com o guia de Dante no Inferno descrito por Alighieri).

E não nos esqueçamos do óbvio: Kevin Garney ressuscita como o próprio Cristo – e, mesmo reconhecendo que isto talvez seja forçar demais os paralelos, não consigo resistir à observação de que seu nome e sobrenome têm o mesmo número de letras de “Jesus Cristo”. Por outro lado, durante boa parte da temporada, os realizadores tentam sugerir uma ambiguidade quanto à natureza dos eventos que estamos testemunhando sem perceberem que este é um esforço que nasce fracassado, pecando também pela confusão que provocam na mitologia-base da série. Qual é o papel de Patti, por exemplo? Sim, é um prazer poder rever a excelente Ann Dowd, mas sua personagem não apenas é uma mera desculpa para a visita de Kevin ao “hotel”, já que não desempenha qualquer outra função importante na trama, como ainda se confunde propositalmente com as “vozes” que atormentavam o pai do protagonista na primeira temporada, mesmo nada tendo a ver com aquelas (a própria Patti assume não ter objetivo algum). E por que The Leftovers perde tanto tempo criando uma dúvida com relação à existência da ex-líder dos Remanescentes Culpados (chegando a utilizar a música que se tornou clichê para este tipo de situação, “Where’s My Mind?”, que funcionou maravilhosamente bem em Clube da Luta, mas ficou batida com Mr. Robot)? E já que ela não era um fragmento da personalidade de Kevin, por que mentiu ao dizer que Evie e as amigas haviam “partido”? Aliás, por que Patti faz o que quer que seja nestes novos episódios?

Mas The Leftovers é uma série tão competente em seus aspectos narrativos que frequentemente ignoramos os problemas de seus roteiros; ao trazer Kevin atormentado na lavanderia pelo choro de Lily, por exemplo, a rima com o início da primeira temporada é eficaz por si só (bem como o fato de o sujeito se confundir com relação ao horário de uma reunião). Da mesma forma, é interessante constatar como a série continua a desenvolver outros motifs, das músicas diegéticas (normalmente ouvidas através de fones) que tomam conta da percepção dos personagens até as interrupções bruscas destas canções em certas transições de cena. (Por sua vez, o “shuuuuush” que aparece em várias outras transições já havia me incomodado quando escrevi sobre Os 13 Porquês e seguem aborrecidos aqui.)

O desenho de som da produção, por sinal, segue como um de seus aspectos mais sólidos: reparem, por exemplo, no sutil e incômodo tic-tac que pontua a tensão durante uma conversa nervosa entre dois personagens ou a sequência em que Erika persegue alguém e sua surdez é evocada pela mixagem, que abafa diálogos e efeitos sonoros. Além disso, a construção dos simbolismos demonstra sua consistência – e gosto particularmente de como o rolo vazio de papel-toalha que Nora substituía na primeira temporada, remetendo à sua decisão de seguir em frente, acaba “reaparecendo” brevemente no chão de sua nova casa em Miracle. Para completar, é impossível não admirar a excepcional montagem de sequências como aquela na qual acompanhamos o cotidiano de Matt e Mary e que, ilustrando a esperança do primeiro na recuperação da segunda, gradualmente introduz ruídos dissonantes na música que a embala, construindo a tensão de modo eficiente.

Mais difícil, em contrapartida, é perdoar equívocos bobos no roteiro como aquele envolvendo o reverendo – ou The Leftovers quer realmente nos convencer de que basta perder uma pulseira para ser expulso de Miracle? Por que Matt não procura o pastor que o convidou para se mudar para a cidade em vez de simplesmente aceitar ser banido?

Seja como for, a riqueza temática do projeto mantém-se digna de aplausos, já que, através da multidão que aguarda na fronteira do parque na esperança de lá conseguir entrar e construir uma vida melhor, até mesmo a triste situação dos refugiados e imigrantes (sejam estes sírios, mexicanos ou haitianos) acaba por ser representada pelos realizadores, comprovando a contemporaneidade da narrativa.

No fim das contas, porém, The Leftovers segue como uma série sensível sobre perda, luto e o esforço descomunal – e frequentemente fracassado – que fazemos para seguir adiante mesmo quando destruídos pela súbita partida de quem amamos. Afinal, não é necessário um evento como o Arrebatamento (ou seu similar) para que dores como estas surjam inesperadas e definitivas como o terremoto que abre a temporada.

25 de Abril de 2017

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.