Críticas por Pablo Villaça

Poster: Kate Interpreta Christine
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
10/01/2017 24/08/2016
Distribuidora

Direção

Robert Greene

Elenco

Kate Lyn Sheil

Roteiro

Robert Greene

Produção

Susan Bedusa , Douglas Tirola

Fotografia

Sean Price Williams

Música

Keegan DeWitt

Montagem

Robert Greene

Design de Produção

John Dickson

Figurino

Hannah Kittell

 

 


Kate Interpreta Christine
Kate Plays Christine

Kate Interpreta Christine

Dirigido e roteirizado por Robert Greene. Com: Kate Lyn Sheil.

Embora tecnicamente seja classificado como “documentário”, definir Kate Plays Christine desta forma não é exatamente correto, já que o filme parte de uma premissa fictícia para discutir um trágico evento real. O evento: o suicídio da jornalista Christine Chubbuck, que, em 1974, atirou contra a própria cabeça enquanto apresentava um telejornal na Flórida. A premissa fictícia: a escalação da atriz Kate Lyn Sheil (Você é o PróximoHouse of Cards) para interpretar Chubbuck numa versão para cinema da história da repórter e seu processo de construção da personagem.

A verdade é que Greene não tinha qualquer intenção de realizar o tal filme (sim, sua atriz sabia disso), usando-o como mera desculpa para acompanhar Sheil em sua pesquisa para o papel. Assim, à medida que a moça conversa com psicólogos e antigos colegas de Chubbuck, o documentário expõe os principais fatos da curta vida da jornalista enquanto sua intérprete complementa a preparação com uma transformação física, fazendo bronzeamento artificial, comprando lentes de contato castanhas, peruca e roupas da época. Com isso, a obra consegue fazer com que Christine se materialize aos poucos diante do espectador, evocando sua presença provavelmente com mais eficiência do que se tivesse simplesmente recontado sua história em um drama.

Isto, no entanto, é apenas o começo da proposta do documentário, que também busca discutir o limite entre realidade e fantasia ao enfocar as dúvidas que passam a atormentar a protagonista e cuja autenticidade jamais ficam muito claras: afinal, Sheil está mesmo se aproximando demais da personagem e questionando a ética do projeto ou esta é apenas a abordagem que o próprio Robert Greene quer adotar? Este, diga-se de passagem, é um dos grandes méritos da performance da garota, que não só se transforma gradualmente em Chubbuck diante dos nossos olhos como ainda nos leva a acreditar em seus dilemas profissionais como atriz.

Aliás, estes dilemas dizem respeito também ao filme em si – afinal, qual o valor de uma cinebiografia de Christine Chubbuck? Sua vida e sua carreira não foram particularmente memoráveis, infelizmente, já que ela nem se deu o tempo necessário para desenvolvê-las, matando-se aos 29 anos de idade – e, com isso, o documentário pode surgir como uma simples exploração macabra das circunstâncias de sua morte. Para contornar isso (ou tentar), Kate Plays Christine insiste em discutir a depressão que afligia a repórter e reconhecer a doença como algo grave que se tornou ainda pior por ser encarada como tabu, aproveitando também para expor (mesmo que perifericamente) a facilidade com que qualquer um podia (e ainda pode) comprar armas de fogo nos Estados Unidos.

Ainda mais fascinante, contudo, é constatar como o documentário não permite que o público escape da crítica, obrigando-o a reconhecer a própria curiosidade mórbida em um clímax que, além de muitíssimo bem construído, comprova a inteligência do realizador e de sua proposta ao simultaneamente evitar uma mera reconstrução do suicídio de Chubbuck, fechar com elegância o arco dramático vivido pela própria Kate Lyn Sheil e ao apontar seu dedo acusatório em direção ao espectador e ao próprio diretor. (Vale observar a ironia contida no fato de que Kate Plays Christine foi inicialmente exibido na mesma edição do Festival de Sundance que contou com uma versão ficcional da história da jornalista.)

Trágico, complexo, delicado e emocionalmente desgastante, este fabuloso documentário é uma obra que, ao contrário do esperado, sabe reconhecer que uma vida não deveria ser definida pela maneira como foi encerrada.

Texto originalmente publicado durante a cobertura do Festival de Berlim 2016.

16 de Fevereiro de 2016

(Ei, dá um segundinho, pode ser? Se você gostou deste texto - e se curte as críticas que lê aqui no Cinema em Cena -, saiba que ficamos bastante felizes, pois o site precisa de seu apoio para continuar a existir e a produzir conteúdo de forma independente. Para saber como ajudar, basta clicar aqui - só precisamos de alguns minutinhos para explicar. E obrigado desde já pelo clique!)

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.