Críticas por Pablo Villaça

Poster: Manchester à Beira-Mar
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
19/01/2017 18/11/2016
Distribuidora
Sony

 

 


Manchester à Beira-Mar
Manchester by the Sea

Manchester à Beira-Mar

Dirigido e roteirizado por Kenneth Lonergan. Com: Casey Affleck, Lucas Hedges, Kyle Chandler, Michelle Williams, Susan Pourfar, Gretchen Mol, Tom Kemp, C.J. Wilson, Stephen Henderson, Tate Donovan, Kara Hayward e Matthew Broderick.

Minha avó Lourdes, uma das pessoas que mais amei neste mundo, morreu no dia 12 de dezembro de 2005. Havia saído para comprar os ingredientes da ceia de Natal que prepararia para a família quando um ônibus a atropelou na avenida Cristiano Machado, em Belo Horizonte – e quando assumi a tarefa de reconhecer seu corpo no IML, a fim de evitar que minha mãe fosse obrigada a isso, confesso não ter imaginado que carregaria aquela imagem para sempre. Nas 24 horas seguintes, escolhi seu caixão, providenciei a abertura da sepultura, levei a roupa com a qual seria enterrada até a funerária, novamente reconheci seu corpo para que este fosse liberado, acompanhei o transporte até o velório e, depois, seu caixão até o túmulo.

Ao chegar em casa, desmaiei pela primeira – e única - vez na vida.

Hoje compreendo como consegui executar todas aquelas tarefas: às vezes, a rotina (ou algo similar a ela) é a única forma de manter a dor sob controle.

Isto é algo que o diretor e roteirista Kenneth Lonergan sabe muito bem e, de certa forma, usa como base de Manchester à Beira-Mar, que tem início quando Lee (Affleck) é obrigado a retornar à sua cidade natal (a do título) ao ser informado sobre a morte do irmão mais velho, Joe (Chandler). Ocupado com a logística do funeral, ele salta de um compromisso a outro enquanto tenta lidar com o sobrinho adolescente Patrick (Hedges), cuja guarda agora é sua responsabilidade. O problema é que Lee nem considera a possibilidade de retornar definitivamente a Manchester, já que um evento trágico ocorrido ali provocou seu afastamento anos antes. Aos poucos, à medida que o filme emprega flashbacks para revelar a relação carinhosa entre Lee e Joe e também as circunstâncias que tanto feriram o primeiro, percebemos estar diante de um homem que há muito deixou de ser completo e que pouco interesse tem em voltar a sê-lo

Fotografado por Jody Lee Lipes com cuidado para estabelecer uma clara diferença de atmosfera entre o passado e o presente, contrastando a alegria daquele à melancolia deste, o longa frequentemente emprega também a montagem para reforçar a mudança do protagonista – como, por exemplo, ao cortar de um plano com cores quentes e o mar aberto para outro no qual Lee retira a neve da calçada em torno do prédio no qual trabalha como zelador. Por outro lado, é preciso apontar que as cenas ambientadas no presente não representam um mergulho constante na tristeza, já que Lonergan é inteligente o bastante para compreender que há momentos de leveza mesmo em meio à dor. Assim, em vez de ser retratado como um adolescente problemático e revoltado (uma decisão que roteiristas preguiçosos certamente tomariam), Patrick surge como um jovem que, mesmo triste com suas novas circunstâncias, não deixa de agir como alguém que, afinal, está atravessando um período no qual namoradas, festas e sexo se tornam uma quase obsessão. Além disso, tio e sobrinho são amorosos o bastante para reconhecer as dificuldades um do outro, o que os leva a buscar algum entendimento mesmo enquanto se confrontam.

Mas se a performance bem-humorada e madura do jovem Lucas Hedges é fundamental nesta dinâmica, o desempenho de Casey Affleck é instrumental para que o filme não desmorone. Imbuindo em Lee um desconforto constante e uma certa frieza em praticamente todas as suas interações no presente, o ator permite que percebamos que por baixo dos modos calmos e contidos do sujeito há um temperamento instável capaz de provocar uma explosão a qualquer momento. Resistente a assumir qualquer tipo de ligação ou responsabilidade mais forte (ele nem sequer aceita recomendar um modelo de vaso sanitário a um morador do prédio que cuida), Lee obviamente converte seus demônios pessoais em uma rudez que se destaca principalmente quando constatamos a doçura de seu irmão Joe, que Kyle Chandler encarna com imenso calor humano.

Humanidade, aliás, é a palavra-chave para definir Manchester à Beira-Mar, que não obriga seus personagens a se comportarem de forma artificial em busca do drama fácil: brigas se encerram com gestos de carinho (como o simples ato de vigiar o sono do outro), conversas são entremeadas pela dificuldade de se lembrar onde o carro foi estacionado e, naquela que é a cena mais tocante do filme (e que demonstra a sensibilidade de Michelle Williams), duas pessoas que ainda se amam profundamente tentam articular o impossível de forma desajeitada, já que é precisamente o amor que sentem uma pela outra que as impede de ficarem juntas, já que é também a lembrança do que construíram e perderam.

E é esta perda que, infelizmente, Lee permite que o defina – e o que faz ao sair de um interrogatório não apenas é um gesto brutal e chocante de desespero, mas de frustração diante do fato de que ninguém parece atribuir a ele a culpa que está convicto de merecer. Sob esta luz, seus impulsos agressivos deixam de ser uma válvula de escape e se transformam em uma busca constante por punição. A tragédia de Lee é ser uma pessoa doce presa no corpo de um indivíduo determinado a se destruir.

Ao final, contudo, Lonergan sabe que há dores que não se resolvem; no máximo, aprendemos a conviver com elas e a nos adaptar à realidade de que, a qualquer momento e sem aviso algum, retornarão como um soco na boca do estômago. Um soco que, por vir inesperada e intensamente, sempre provoca novos sangramentos.

Um soco como lembrar-me do corpo machucado de minha avó ao ver este filme onze anos depois de sua morte.

08 de Dezembro de 2016

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.