Críticas por Pablo Villaça

Poster: O Beijo da Mulher Aranha
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
02/12/2016 26/07/1985
Distribuidora

 

 


O Beijo da Mulher Aranha
Kiss of the Spider Woman

O Beijo da Mulher Aranha

Dirigido por Hector Babenco. Roteiro de Leonard Schrader. Com: William Hurt, Raul Julia, Sônia Braga, José Lewgoy, Milton Gonçalves, Nuno Leal Maia, Miriam Pires, Herson Capri, Wilson Grey, Antônio Petrin, Denise Dumont, Nildo Parente, Miguel Falabella e Fernando Torres.

Lá atrás, em sua origem, o Cinema consistia de sombras. É possível imaginar, há milênios, pais criando figuras com suas mãos diante de uma fogueira e divertindo os filhos com as sombras que sugeriam animais e outros personagens em cenas leves e repletas de ingenuidade – e que, mais tarde, se tornariam mais sofisticadas no teatro de sombras chinês durante a dinastia Han. Assim, é mais do que apropriado que O Beijo da Mulher Aranha tenha início enfocando as sombras que pintam, na parede, os contornos das grades da cela dividida por Luis Molina e Valentin Arregui, os dois personagens que conduzirão a narrativa do filme. Mais apropriado ainda é que, enquanto vemos esta sombra, ouçamos a voz de Molina (Hurt) descrevendo um filme que o fascina, completando a ligação histórica.

E não menos revelador é que, acima do contorno das grades, a parede traga asas ali desenhadas por algum ex-detento, contrapondo a sonhada liberdade e a dura realidade das barras do cárcere. Este contraponto é também central ao filme de Hector Babenco, que discutirá o escapismo que a Arte e nossas próprias memórias e imaginação podem proporcionar mesmo quando nossos corpos se encontram aprisionados – seja por uma doença, pelo exílio ou pela postura antidemocrática de um governo ditatorial.

Baseado em um livro de Manuel Puig, o roteiro de Leonard Schrader (irmão de Paul) conta uma história que se passa num país jamais identificado por nome (as bandeiras brasileiras vistas aqui e ali no cenário são uma boa indicação, porém) e que, mergulhado na violência de uma ditadura, vem perseguindo, prendendo e executando aqueles que a combatem. Um destes revolucionário é Valentin Arregui (Julia), que já encontramos coberto de sangue e hematomas após mais uma sessão de tortura e que, encolhido em sua cama, ouve o companheiro de cela Luis Molina recontar um filme romântico visto na juventude. Ao contrário de Valentin, Molina não é um ser político; sua pena é punição por ter molestado um jovem. Homossexual, ele é inicialmente encarado com hostilidade pelo outro – até que, aos poucos, uma inesperada proximidade se estabelece entre eles.

É precisamente o embate entre estes dois homens que guia O Beijo da Mulher Aranha. Arregui e Molina não têm apenas orientações sexuais diferentes, mas visões de vida praticamente opostas. Se o primeiro busca manter uma disciplina de revolucionário mesmo na prisão, evitando comer iguarias que poderiam torná-lo mais complacente diante do mundo, o segundo tenta ignorar as grades e concentrar-se em planos futuros e lembranças que o façam esquecer o presente. Da mesma maneira, enquanto o corpo machucado de Valentin é um atestado de sua resistência e da crueldade do regime que o aprisionou, as roupas coloridas e adereços de Luis, bem como as fotos de estrelas do Cinema que traz na parede, são uma fuga calculada da intolerância política de seu país. Além disso, se o revolucionário muitas vezes age com agressividade, o outro exibe uma doçura quase constante – e, não à toa, ao ouvir a descrição do filme admirado pelo companheiro, Arregui imediatamente enxerga sua conotação política antissemita, ao passo que Molina vê ali apenas uma romântica história de amor.

Este romantismo é ressaltado pela fotografia de Rodolfo Sánchez, que pinta de sépia as sequências que dão vida às narrações do protagonista e que trazem Sônia Braga como uma cantora de cabaré francesa que, num país ocupado pelos nazistas, se apaixona por um oficial alemão (Capri). Para Molina, contudo, ela é mais do que a heroína de um filme, mas a idealização da mulher que ele quer ser: sedutora, independente, corajosa e sem receio de se entregar ao amor – e não é coincidência que constantemente a cantora faça poses idênticas às do personagem de Hurt, mesmo que não possamos saber exatamente se ele está copiando a expressão corporal que viu no tal longa ou se estamos testemunhando sua própria projeção na história que narra.

Porque o filme-dentro-do-filme é, sem dúvida alguma, um campo fértil para as projeções não só de Molina, mas de sua “plateia”, já que o rosto da heroína é o mesmo de Marta, a mulher que domina as lembranças de Valentin – e Braga diferencia as duas ao encarnar Leni Lamaison (a cantora) de forma estilizada, com gestos marcados e grandiosos, adotando o minimalismo absoluto ao surgir como Marta, cuja tristeza por perder o companheiro é expressada não através de explosões dramáticas, mas de um ultimato até sereno diante das circunstâncias em que é feito.

O melodrama do filme-dentro-do-filme (“Sua Glória Real”) atua, assim, como um importante contraste à realidade dos dois personagens, cujo cotidiano consiste em tentar sobreviver mais um dia em uma cela cujas grades frontais são cobertas por placas de metal que tornam seu espaço ainda mais claustrofóbico do que aquele visto nas celas vizinhas. O resultado é que, de certa forma, O Beijo da Mulher Aranha se transforma quase em um filme de câmara, saindo ocasionalmente do confinamento através de flashbacks e de visitas esporádicas de Molina ao escritório do diretor da prisão, resultando numa atmosfera claustrofóbica que Babenco explora com competência para ressaltar também o estado psicológico e emocional de seus personagens, que vivem, de certa forma, presos em si mesmos – Arregui, por não ter conseguido abrir mão de seus ideais para não perder a amada; Molina, por ter nascido no corpo errado e não ter a coragem de se submeter à cirurgia que ajustaria seu físico à sua identidade de mulher trans.

Encarnado pelo saudoso Raul Julia (que morreu precocemente aos 54 anos), Valentin Arregui é um homem cuja sofisticação política e intelectual parece conviver de forma intranquila com uma certa imaturidade emocional no que diz respeito aos seus amores – e é ao permitir que o companheiro de cela e o espectador percebam sua vulnerabilidade que ele começa a crescer e a ter a coragem de assumir a importância do amor (um conceito que ele provavelmente consideraria “pequeno-burguês”) em sua trajetória e, especialmente, em sua resistência diante da tortura. De forma fascinante e elegante em seu reflexo, o Luis Molina de William Hurt faz a trajetória oposta, iniciando a projeção como uma figura frágil e feita de vulnerabilidades até, aos poucos, conquistar força suficiente para seguir as convicções que aprendeu a ter com o amigo.

A aproximação gradual dos dois homens é ilustrada com inteligência, diga-se de passagem, pelos realizadores: se no início eles mal se tocam e são frequentemente vistos em planos que os mantêm isolados, pouco a pouco passam a dividir a tela cada vez mais, até que, em certo ponto, podem ser vistos sentados lado a lado no chão, encostados na parede e confortáveis um com o outro, enquanto um raríssimo raio de sol os aquece – uma imagem que contrasta com o longo plano que traz Molina ajudando um humilhado Arregui a se limpar depois de uma crise de diarreia provocada pelo veneno servido pelos militares. Provavelmente a cena mais tocante de um filme repleto delas, esta interação ressalta o que cada um tem de melhor: a gentileza e doçura de Molina e a capacidade de gratidão de Arregui, um homem que devota sua lealdade a ponto de sacrificar-se caso necessário (e o que o leva à prisão é a tentativa de ajudar um homem – sintomaticamente chamado Américo – que ele mesmo admite não ter sido capaz de mudar em nada o país pelo qual lutam).

Ao fim, O Beijo da Mulher Aranha encanta graças à complementação de duas personalidades distintas que se influenciam ao ponto de uma quase inversão: enquanto Molina, mesmo temeroso, se arrisca ao sacrifício pela lealdade não aos próprios princípios, mas aos do homem que passou a amar, Valentin, antes crítico do escapismo do amigo, finalmente encontra um pouco de paz ao sonhar/delirar com a amada diante do oceano.

Se “submissão ou revolução” parecem ser as únicas alternativas apresentadas inicialmente pelo filme, uma terceira acaba, assim, sendo descoberta, mesmo que tardiamente: a da liberdade que a Arte pode proporcionar mesmo quando sufocada por uma sociedade engessada pelo fascismo.

Esta é, provavelmente, uma mensagem que Valentin consideraria excessivamente otimista ou mesmo reprovável – e O Beijo da Mulher Aranha é um filme politicamente simplista, apesar de tudo -, mas que, ainda assim, traz um necessário conforto em um mundo no qual pessoas como Luis Molina, sempre à margem da sociedade, aparentemente só podem esperar a prisão ou o dia em que terão seus corpos sem vida descartados no lixo.

As sombras que anteciparam o Cinema podem, afinal, ter interpretação dupla: se criam imagens que permitem a fantasia, também servem para mergulhar na escuridão aqueles que por elas são cobertos – e se Valentin descobriu a possibilidade mágica da primeira possibilidade, Molina se viu abraçado pela segunda.

Já o filme e o espectador puderam explorar ambas.

Texto originalmente escrito para o livro Os 100 Melhores Filmes Brasileiros, organizado pela ABRACCINE, e que pode ser adquirido aqui.

01 de Março de 2016

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.