Críticas por Pablo Villaça

Poster: Divines
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
30/11/2016 18/11/2016
Distribuidora
Netflix

 

 


Divines
Divines

Divines

Dirigido por Houda Benyamina. Roteiro de Houda Benyamina, Malik Rumeau e Romain Compingt. Com: Oulaya Amamra, Déborah Lukumuena, Kevin Mischel, Jisca Kalvanda, Yasin Houicha, Majdouline Idrissi, Farid Larbi, Bass Dhem, Maryama Soumare.

A importância da diversidade na realização cinematográfica não é uma mera questão de “politicamente correto”; trata-se, antes de qualquer outra coisa, de um elemento necessário para que o Cinema prossiga fazendo aquilo que tem de melhor: sua capacidade de retratar olhares e experiências multifacetados que permitem que o espectador expanda sua própria compreensão acerca do mundo, enxergando-o também a partir do ponto de vista do próximo.

Tomemos como exemplo este Divines: ambientado num subúrbio de Paris habitado por imigrantes, o filme divide vários elementos com o recente Dheepan, que, dirigido por Jacques Audiard, venceu a Palma de Ouro em Cannes no ano passado e também tratava da criminalidade em uma comunidade que não tem recursos para combatê-la ou mesmo para oferecer alternativas para aqueles que não querem abraçá-la, culminando em uma explosão de violência que, em retrospecto, parecia inevitável desde o início da projeção. Porém, se o trabalho de Audiard pecava em seu clímax por se transformar em um longa de ação pouco crível que flertava com a fantasia de vingança, este Divines jamais perde de vista a realidade que o ancora, deixando claro que, para sua jovem protagonista Dounia (Amamra), as convenções de gênero permanecem na ficção, não em seu cotidiano.

A diferença entre estas duas abordagens, acreditem, é consequência direta dos perfis de seus diretores: por mais bem-intencionado que Audiard seja, jamais deixará de ser um homem branco que cresceu entre artistas liberais; por outro lado, a responsável por Divines é Houda Benyamina, uma mulher franco-marroquina (árabe) que conhece intimamente a realidade daquelas pessoas, suas frustrações e dores. Assim, mesmo quando inclui um momento de escapismo em sua narrativa ao ilustrar a fantasia de Dounia e sua melhor amiga Maimouna (Lukumuena), que imaginam estar dirigindo uma Ferrari enquanto a câmera acompanha o “passeio” e o design de som o enriquece, a diretora não deixa de exibir, ao redor das garotas, os prédios humildes e o pátio sujo no qual se encontram e ao qual deverão retornar em poucos segundos.

Aliás, o simples fato de colocar mulheres no centro da trama já é algo que distingue Divines de boa parte de projetos similares – e quando a traficante Rebecca (Kalvanda) fica admirada com certa atitude da protagonista, a forma como expressa sua surpresa sintetiza a filosofia por trás do filme: em vez do frequente “Você tem culhões” (usado mesmo quando se trata de uma mulher(!)), a jovem diz “Você tem clitóris!”, tomando da anatomia masculina a exclusividade da metáfora envolvendo coragem. Além disso, são os homens que assumem posição de subordinados e/ou objetos de desejo ao longo da projeção, em outra inversão do que se tornou padrão: Rebecca, com suas cicatrizes no rosto, é obviamente uma criatura durona e perfeitamente capaz de colocar seus adversários no lugar, ao passo que Dounia, que se mantém firme mesmo ao ser golpeada violentamente no nariz, é agente ativa do olhar de luxúria, colocando o dançarino Djigui (Mischel) no lugar normalmente reservado às atrizes e aos seus corpos.

A performance de Oulaya Amamra, por sinal, é daquelas que num mundo justo deveria transformá-la imediatamente em estrela: irmã caçula da diretora, a jovem atriz (cujo rosto é uma mistura harmônica de Cher e Jennifer Lawrence) confere a Dounia uma intensidade ímpar, exibindo também o tipo de expressividade e carisma que têm tudo para construir uma carreira bem-sucedida. Enquanto isso, a estreante Débora Lukumuena vive Maimouna como uma jovem espontânea, alegre e ingênua que se divide entre o amor pela amiga e o temor de decepcionar os pais, formando com Dounia o verdadeiro centro emocional da narrativa. Aliás, a força de Divines encontra-se precisamente na dinâmica entre as duas garotas, que se equilibram com talento entre momentos de humor e outros mais dramáticos.

Este equilíbrio, claro, é resultado também da condução admirável da cineasta (estreante!) Houda Benyamina, que se mostra segura o bastante para prender a atenção do espectador apenas ao retratar o cotidiano das personagens, enriquecendo-o através de detalhes que nos mostram as dificuldades que vivem (como a sopa constituída mais por água do que por legumes), os sonhos que mantêm (como na já citada cena envolvendo uma “Ferrari”) e o despertar de sua sexualidade – e gosto particularmente de como Benyamina inicialmente mantém sua câmera distante de Djigui, aproximando-se do dançarino apenas quando a própria protagonista o faz. Além disso, a realizadora cria uma estrutura elegante ao pontuar, ao longo da projeção, elementos como os galões de gasolina e os isqueiros, destacando-se também na montagem eficiente que, somada ao design de som, provoca impacto ao contrapor a brutalidade de um evento com a música suave (vinda de uma cena paralela) que o acompanha, invertendo a lógica ao trazer os ruídos de um ato de violência sobre a dança harmoniosa (mas que sugere certa agressividade) presente em um espetáculo. Assim, não é difícil entender por que Benyamina recebeu o troféu Câmera de Ouro, de melhor diretora estreante, no Festival de Cannes 2016.

Politicamente relevante e tristemente atual, Divines é um filme que compreende – certamente graças à vivência de sua diretora – algo que boa parte da classe política e das elites ao redor do mundo falham em reconhecer: que aqueles que seguem social e economicamente excluídos eventualmente se darão conta de que participam de um jogo cujos adversários empregam cartas sempre marcadas, não hesitando em manter esta posição através de forças policiais que aparentemente só sabem interagir com bombas de gás, cassetetes e desprezo.

E, como este belo longa percebe, quando isto ocorrer bastará um cruzar de braços para que tudo se incendeie – e é trágico que, como sociedade, não consigamos corrigir nossas distorções para evitar esta explosão.

30 de Novembro de 2016

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.