Críticas por Pablo Villaça

Poster: O Plano de Maggie
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
10/11/2016 20/05/2016
Distribuidora
Sony

 

 


O Plano de Maggie
Maggie's Plan

O Plano de Maggie

Dirigido e roteirizado por Rebecca Miller. Com: Greta Gerwig, Ethan Hawke, Maya Rudolph, Bill Hader, Travis Fimmel, Wallace Shawn, Mina Sundwall, Jackson Frazer e Julianne Moore.

Assim como inúmeros cinéfilos ao redor do mundo, eu me dei conta da existência de Greta Gerwig em 2012 graças ao simpático Frances Ha. Antes disso, ela havia aparecido em quase vinte longas (como A Casa do Diabo e Para Roma, Com Amor), mas foi no filme que coescreveu ao lado de Noah Baumbach que Gerwig sedimentou a persona que já vinha desenvolvendo desde 2006 em seus trabalhos ao lado de integrantes do que passaria a ser chamado de mumblecore (basicamente, obras do cinema independente norte-americano que apostam pesadamente nos diálogos e no improviso – daí o “mumble”, ou “resmungo”).

O que não previ é que em apenas quatro anos a atriz conseguiria transformar os modos encantadores iniciais em uma muleta de interpretação, basicamente voltando ao mesmo tipo em quase todas as suas performances. E o pior: além de se repetir, ela passou a habitar histórias que essencialmente usam todos os demais personagens como figuras que parecem existir apenas para aconselhá-la ou torcer por ela, vivendo suas vidas como mera extensão das necessidades imediatas da protagonista geralmente insegura, confusa e engraçadinha interpretada pela jovem.

Como, por exemplo, ocorre neste O Plano de Maggie, escrito e dirigido por Rebecca Miller. Filha de Arthur Miller, um dos maiores dramaturgos do teatro norte-americano, a cineasta pode contar com uma filmografia reduzida e pouco expressiva (com exceção de Personal Velocity, que considero bastante superior), mas esta traz sinais claros de autoralidade, girando em torno de mulheres complexas que buscam se descobrir e/ou se posicionar diante de suas relações pessoais e passam por dilemas com os quais facilmente poderíamos nos identificar. Nada disso, porém, surge neste seu novo trabalho, que aposta em figuras unidimensionais e situações tolas que pouco dizem sobre o que quer que seja – o que talvez seja resultado de ter escrito o roteiro a partir de um argumento criado por outra pessoa, Karen Rinaldi. O resultado é um filme que parece pertencer mais à protagonista do que à diretora responsável pela narrativa.

Surgindo em cena já com o figurino que a expõe como a manic pixie dream girl* que vem encarnando há anos, Gerwig tampouco demora para chamar a atenção do professor/escritor vivido por Ethan Hawke ao caminhar de modo engraçadinho em volta de uma fonte, sendo reconhecida por ele depois de passarem por um típico Meet Cute**. Como é fácil perceber apenas ao ler as expressões em inglês que acabei de citar (e cujos significados explicarei ao fim deste texto), O Plano de Maggie não se embaraça em utilizar diversas convenções das comédias românticas mesmo que pareça acreditar estar fugindo destas ao lidar mais com o pós-“final feliz” do que com o trajeto até este.

Tradicional até mesmo em seus momentos mais eficazes (o envolvimento do casal principal é simpático, mas ilustrado através de uma montagem amarrada pela trilha sonora), o longa depende do carisma de seu elenco para não soar como uma repetição aborrecida de clichês embora dificulte o trabalho dos atores justamente por prendê-los a caricaturas. Hawke, por exemplo, faz o tipo racional-charmoso-imaturo que encarnou bem melhor na trilogia Antes do..., ao passo que Julianne Moore é obrigada a adotar um sotaque ridículo que expõe aquela que talvez seja uma de suas únicas fraquezas como atriz: a falta absoluta de timing cômico. Por outro lado, Maya Rudolph e Bill Hader, comediantes talentosos e experientes, criam uma dinâmica bem mais intrigante como o casal que só existe como extensão da heroína, quase conseguindo escapar da limitação imposta pelo roteiro. E se Travis Fimmel se mostra simpático em sua breve – mas importante – participação como o avoado Guy (quase me fazendo esquecer de sua atuação pavorosa em Warcraft), Gerwig praticamente berra “eu não sou adorável???” em cada uma de suas falas, o que, claro, acaba tendo o efeito oposto.

Aliás, já que mencionei Fimmel, que vive aqui um ex-matemático que agora se dedica a vender picles engarrafados, aproveito para apontar como sua paixão pelos números é usada apenas para criar uma “pista” que indica, com extrema obviedade, sua relação com outra personagem ao mesmo tempo em que é ignorada de forma ridiculamente artificial por todos os demais – e que mesmo assim não chega aos pés da estupidez do ato final do filme, que converte todos em figuras absurdas que passam a agir de maneira terrivelmente inverossímil, destruindo qualquer boa vontade construída pelo charme dos atores e irritando ainda mais em função do quadro instável que Rebecca Miller emprega para... o quê? Evocar tensão? Realismo? Urgência? Onde nenhum destes é possível?

O fato é que se antes eu atribuía a auto-repetição de Greta Gerwig à sua colaboração com diretores sem disciplina como Noah Baumbach, agora estou mais propenso a acreditar que o problema é que ela não tem mesmo nada de novo a oferecer.

10 de Novembro de 2016

* Manic Pixie Dream Girl é uma expressão usada para descrever personagens femininas unidimensionais que habitualmente têm modos alegres e/ou divertidos (mesmo quando tristes), se comportam de forma artificial, vivem arcos superficiais e existem para ajudar seus interesses românticos a lidar com seus problemas pessoais. É importante observar que, mesmo sendo a protagonista da história, a personagem-título de O Plano de Maggie passa a maior parte da projeção lidando com as inseguranças e ambições de seu parceiro, que transformam seus próprios dilemas em meros reflexos daqueles.

** Meet Cute é uma convenção de comédias românticas que envolve encenar o primeiro encontro do casal principal de forma engraçadinha através de um desentendimento, uma coincidência, um acidente ou algo do gênero. Embora não tenha sido criada por ele, a expressão foi popularizada pelo mestre Roger Ebert em seus textos.

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.