Críticas por Pablo Villaça

Poster: 13 Minutos
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
03/11/2016 09/04/2015
Distribuidora
Mares Filmes

 

 


13 Minutos
Elser

13 Minutos

Dirigido por Oliver Hirschbiegel. Roteiro de Léonie-Claire Breinersdorfer e Fred Breinersdorfer. Com: Christian Friedel, Katharina Schüttler, Burghart Klaubner, Johann von Bülow, David Zimmerschied, Felix Eitner, Rüdiger Klink.

Em julho de 1944, quando as forças nazistas já percebiam claramente que a situação do Terceiro Reich estava se tornando insustentável, um grupo de oficiais liderado por Claus von Stauffenberg planejou um atentado contra Adolf Hitler que poderia ter antecipado o fim da guerra em mais de um ano – história que foi recontada em Operação Valquíria, de Bryan Singer. Mas se a morte de Hitler em 1944 poderia ter evitado inúmeras outras, imaginem o que teria ocorrido (ou deixado de ocorrer) caso o genocida austríaco houvesse sido eliminado em novembro de 1939, quando a Segunda Guerra mal havia iniciado.

Pois isto possivelmente não aconteceu por uma questão de minutos; 13, para ser exato. Discursando em um salão de Munique em 8 de novembro de 1939, Hitler antecipou o encerramento de seu discurso para poder retornar de carro a Berlim, já que os aeroportos se encontravam fechados em função do mau tempo, o que o afastou do local minutos antes de uma bomba explodir ao lado do pódio que ocupava. Pouco depois, um músico e carpinteiro chamado Georg Elser foi preso enquanto tentava atravessar a fronteira para a Suíça e levado para um interrogatório que duraria dias, envolvendo todo tipo de tortura.

Escrito pela dupla Fred e Léonie-Claire Breinersdorfer (pai e filha), 13 Minutos trata justamente desta passagem da História da Segunda Guerra, encontrando uma boa solução para o fato de que, desconsiderando maluquices tarantinescas, todos sabemos como tudo terminará: em vez de acompanhar o desenvolvimento e a execução dos planos de Elser (Friedel), o filme já nos apresenta ao fracasso do atentado em seus primeiros momentos, passando a intercalar o interrogatório pela Gestapo com flashbacks que se preocupam em expor não como o sujeito pôs sua ideia em prática, mas por quê.

Apartidário e pacifista (“A violência nunca trouxe nada a ninguém”, ele diz em certo ponto), Elser é um homem com certas simpatias e antipatias políticas, mas nada que o leve, como alguns de seus amigos comunistas, a confrontar os nazistas locais. Em vez disso, ele se mostra mais preocupado com seu relacionamento com Elsa (Schüttler), uma mulher casada e vítima de abuso doméstico, e com a situação de sua própria família, constantemente prejudicada pelo pai alcoólatra. Porém, à medida que o partido de Hitler começa a crescer na Alemanha e a tomar o poder, o rapaz se torna cada vez mais incomodado com as mudanças que testemunha em seu país.

Dirigido por Oliver Hirschbiegel, que retorna ao período que o consagrou internacionalmente como cineasta graças ao seu excelente A Queda! As Últimas Horas de Hitler, este 13 Minutos adota uma estratégia visual óbvia, mas eficaz, ao empregar uma fotografia em tons quentes e saturados ao retratar o passado do protagonista e uma paleta fria e lavada ao acompanhar seu presente, refletindo seus sentimentos e mesmo sua visão de mundo. Mas mais importante do que isto é constatar como Hirschbiegel e o roteiro dos Breinersdorfer desenha a trajetória política de Elser, permitindo que o espectador compreenda como o jovem passivo de 1932 pôde se transformar, apenas sete anos depois, em alguém capaz de plantar uma bomba no meio de centenas de pessoas.

A resposta, claro, reside em seu sentimento crescente de impotência diante do que facilmente poderíamos considerar – especialmente por testemunharmos tudo a partir de seu ponto de vista – como um fenômeno de insanidade coletiva. Ciente de que a ascensão de Hitler trazia consigo uma onda de intolerância e perseguição ideológica, Elser vê com horror as crianças de sua vila vestindo os uniformes e o ódio da Juventude Hitlerista, sendo recompensadas com os olhares orgulhosos de pais que parecem encarar a devoção completa dos pequenos ao Führer como sinal de uma criação impecável. Neste sentido, 13 Minutos é um estudo eficaz e assustador de como um país pode ruir moral e socialmente sem que seus cidadãos se deem conta do que está acontecendo, bastando que o processo ocorra gradualmente, tornando aceitável cada pequeno mergulho rumo ao fundo do poço.

Assim, se inicialmente os nazistas apenas insultam seus opositores, acusando-os de traidores da pátria ou algo similar, estas acusações (que basicamente sinalizam uma apropriação do país, determinando como seus habitantes devem pensar) logo passam a ser acompanhadas por ações concretas, como a demissão daqueles que não seguem a doutrina oficial, atos de violência contra quem ousa questionar os rumos do país e, finalmente, a perseguição judicial àqueles que insistem no “erro”. O que 13 Minutos compreende bem e emprega como centro de sua narrativa não é, portanto, o atentado fracassado, mas o fato de que Elser percebeu cedo para onde a Alemanha caminhava. Podemos, claro, questionar ainda assim se isto justificaria sua iniciativa violenta, mas esta não é uma discussão que o filme sequer tenta desenvolver, já que a postura do próprio Elser é a de culpa diante da tragédia internacional que o seu fracasso não conseguiu evitar.

Por outro lado, a força moral do sujeito é ressaltada através de sua determinação diante de seus algozes: mesmo sabendo perfeitamente que será torturado, Elser se recusa a colaborar com aqueles que julga indignos da posição que ocupam ou mesmo a oferecer mentiras que poderiam libertá-lo das barbaridades que sofre nas mãos da Gestapo (e que Hirschbiegel retrata de forma gráfica e angustiante).

Concebido para celebrar um esforço que por pouco não alterou radicalmente a História do planeta, 13 Minutos acaba servindo também como um alerta que complementa um dos principais temas de A Queda!, lembrando-nos de que nenhum Estado fascista surge da noite para o dia, sendo estabelecido pouco a pouco, um abuso por vez e desrespeitando um direito aqui e outro ali – até que, de repente, nos damos conta de que o país em que vivemos já nada tem em comum com aquele no qual vivíamos meses ou poucos anos antes.

Não que a única forma de impedir que isto ocorra seja a violência, mas manter-se atento ao que ocorre e lutar pela manutenção da democracia é fundamental.

Ainda estou falando do filme, claro. Por que alguém pensaria diferente?

5 de Novembro de 2016

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.