Críticas por Pablo Villaça

Poster: Doutor Estranho
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
02/11/2016 04/11/2016
Distribuidora
Disney

 

 


Doutor Estranho
Doctor Strange

Doutor Estranho

Dirigido por Scott Derrickson. Roteiro de Jon Spaihts, Scott Derrickson e C. Robert Cargill. Com: Benedict Cumberbatch, Rachel McAdams, Chiwetel Ejiofor, Benedict Wong, Mads Mikkelsen, Michael Stuhlbarg, Benjamin Bratt, Scott Adkins e Tilda Swinton.

Assim que saí da exibição de Doutor Estranho, novo capítulo do Universo Cinematográfico da Marvel (uou, fui cooptado mesmo), comentei com um amigo que não me lembrava de ter ouvido muita coisa a respeito do personagem antes de conhecê-lo nesta produção, mas que ficaria muito surpreso caso ele não fosse uma cria da década de 60. Aliás, nenhum outro período poderia inspirar a concepção exata de uma figura como a deste super-herói, que, do visual de seu “uniforme” aos temas que discute, praticamente grita ter sido gerado sob a influência – química ou simbólica – das drogas psicodélicas que se tornariam base de tantos movimentos artísticos nos anos seguintes.

Vivido por Benedict Cumberbatch, Stephen Strange é um neurocirurgião cuja competência é rivalizada apenas por sua arrogância e que, certa noite, sofre um terrível acidente de carro que compromete justamente as mãos firmes que ajudaram a torná-lo tão eficiente. Deprimido diante do fracasso da medicina em curá-lo, ele acaba buscando uma solução no místico Oriente dos estereótipos culturais, sendo acolhido por uma Ordem que inclui o paciente Mordo (Ejiofor), o valente Wong (idem) e a sábia Anciã (Swinton), que o apresenta a um universo metafísico que o tornará capaz de manipular o tempo e o espaço. No entanto, a existência do planeta passa a ser ameaçada pelas ações do vilão Kaecilius (Mikkelsen), que pretende invocar um ser poderoso capaz de destruir tudo em seu caminho – e caberá ao Doutor Estranho e aos seus companheiros a tarefa de detê-lo.

Em outras palavras: ainda que tenha início de forma ambiciosa, afastando-se das convenções dos longas recentes da Marvel, Doutor Estranho logo acaba se entregando às vilanias de sempre, não deixando de ser decepcionante também que seres com habilidades tão mágicas eventualmente resolvam seus conflitos na base dos mesmos socos e pontapés trocados por praticamente todos os heróis e vilões dos demais exemplares do gênero. Além disso, o próprio arco dramático do personagem-título repete trajetórias mais do que estabelecidas, conduzindo-o da postura narcisista e egocêntrica a outra que envolve empatia e auto sacrifício, sugerindo que o cavanhaque não é a única característica que divide com o colega Tony Stark.

Por outro lado, assim como Robert Downey Jr. trouxe nuances à sua composição de Stark, Benedict Cumberbatch enriquece Estranho ao conferir intensidade e verossimilhança ao que poderia soar como um conjunto de clichês – e, portanto, quando o sujeito deixa a barba por fazer por estar triste e ouve seu interesse romântico, Christine Palmer (McAdams), dizer “não aguento ver você fazendo isso consigo mesmo”, a natureza óbvia do “drama” é disfarçada graças ao talento dos dois intérpretes (embora, de modo geral, Rachel McAdams seja desperdiçada pelo roteiro escrito por Jon Spaihts, C. Robert Cargill e pelo diretor Scott Derrickson). O mesmo ocorre, vale apontar, com a Anciã de Tilda Swinton, cujo rosto andrógino, ressaltado pela careca lustrosa, confere uma aparência atípica e atemporal à mentora do herói, que ganha também multidimensionalidade em função da decisão da atriz de adicionar um frequente tom irônico às suas falas, como se ela soubesse de todos os segredos da galáxia e achasse curiosa nossa ignorância. Já Mads Mikkelsen, como Kaecilius, quase sucumbe à caricatura criada pelos roteiristas, escapando apenas por trazer uma sutil dimensão trágica ao vilão, cuja busca pela imortalidade complementa sua convicção de ter sido traído, levando-o quase às lágrimas ao explicar suas motivações.

Porque é claro que haverá o momento em que ele terá que expor tudo ao inimigo, já que Doutor Estranho, como a história de origem que é, frequentemente se vê compelido a incluir longos monólogos expositivos que basicamente existem para que o público saiba quem são aquelas pessoas, suas opositoras e as posições de todas elas diante dos poderes que detêm (e que também são detalhados mais pelos diálogos do que pelas ações). Ainda assim, o filme não perde a oportunidade de surpreender sempre que possível, já que uma porta comum em um “mosteiro” (ou algo similar) asiático pode se abrir para uma rua de Londres e um medalhão místico, quando usado apropriadamente, consegue funcionar como um conveniente botão de rewind.

Diferenciando-se estilisticamente dos demais projetos da Marvel ao adotar um design de produção que – olhem aí a influência da década de 60 novamente – constantemente aposta em cores fortes, em padrões psicodélicos e em efeitos visuais que simulam fractais para evocar os poderes mágicos dos personagens, Doutor Estranho também se inspira claramente em A Origem (mas elevando-o ao cubo) ao criar cidades que subitamente se dobram sobre si mesmas, transformando-se em peças de engrenagem ameaçadoras durante batalhas nas quais a gravidade se torna um conceito fluido, remetendo à famosa litografia “Relatividade” de M.C. Escher.

Pontuado por momentos de bom humor (muitos deles envolvendo a capa do herói), Doutor Estranho ainda conta com uma excelente trilha do habitualmente brilhante Michael Giacchino, resultando em uma narrativa divertida o bastante para equilibrar seus tropeços. Só espero que nas inevitáveis continuações os personagens percebam que suas habilidades podem ser empregadas no lugar dos velhos sopapos de sempre.

Observação: há cenas adicionais durante e após os créditos finais.

04 de Novembro de 2016

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Assista também ao vídeo com comentários SEM spoilers sobre o filme:

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.