Críticas por Pablo Villaça

Poster: O Contador
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
20/10/2016 14/10/2016
Distribuidora
Warner

 

 


O Contador
The Accountant

O Contador

Dirigido por Gavin O’Connor. Roteiro de Bill Dubuque. Com: Ben Affleck, Anna Kendrick, J.K. Simmons, Cynthia Addai-Robinson, Jon Bernthal, Jeffrey Tambor, John Lithgow, Jean Smart, Alison Wright, Robert C. Treveiler.

O herói de O Contador é uma mistura dos personagens-título de Jason Bourne e Rain Man – um conceito que pode até despertar curiosidade por ser atípico, mas que, na prática, é prejudicado por um roteiro que não o sustenta. Ainda assim, o filme escrito por Bill Dubuque acaba divertindo moderadamente não graças ao roteirista, mas apesar deste.

Trazendo Ben Affleck como Christian Wolff, um contador autista que construiu uma pequena fortuna fazendo lavagem de dinheiro para grandes organizações criminosas espalhadas pelo planeta, o longa estabelece a natureza savant do sujeito ao mostrá-lo, ainda criança, montando um quebra-cabeça vendo apenas seu verso. Abandonado ao lado do irmão mais velho pela mãe e criado pelo pai (Treveiler), um militar que obriga os filhos a passarem por todo tipo de treinamento, Christian aceita o conselho de sua misteriosa empresária para aceitar a oferta de uma grande empresa, que, presidida por Lamar Black (Lithgow) e sua irmã Rita (Smart), teve uma fortuna desfalcada de seu caixa. Porém, quando passa a ser perseguido por matadores cujos motivos desconhece, ele se vê obrigado a proteger a jovem Dana (Kendrick), que foi a primeira pessoa a detectar o desfalque.

A história inclui também uma agente do Departamento do Tesouro, Marybeth (Addai-Robinson), que é escalada por seu chefe (Simmons) para descobrir a identidade do contador envolvido com tantos criminosos – uma tarefa que assume apenas ao ser chantageada por seu superior, que ameaça expô-la por já ter sido presa (por um crime que cometeu por motivos nobres, claro). Porém, se descrevo esta subtrama em um parágrafo separado do anterior, é porque nada envolvendo a tal agente é necessário de fato para o longa, servindo apenas para ocupar um imenso tempo da projeção e para justificar a saída preguiçosa do roteirista, que acaba usando o personagem de J.K. Simmons para preencher as lacunas da narrativa em um longo monólogo no terceiro ato.

Não que O Contador precise preenchê-las, já que as soluções de seus “mistérios” se enquadram em duas categorias: as óbvias e as absurdas. As primeiras, por exemplo, se tornam patentes simplesmente em função da Lei da Economia de Personagens identificada por Roger Ebert em seu clássico “Pequeno Glossário de Cinema”:

O orçamento dos filmes torna impossível que estes contenham personagens desnecessários. Assim, todos os personagens de um longa são importantes para a história – mesmo aqueles que parecem não sê-lo. Espectadores sofisticados podem usar esta Lei para deduzir a identidade de uma pessoa mantida em segredo pela trama: a figura “misteriosa” será sempre o único personagem do filme que de outra forma pareceria não se encaixar em nada.”

É claro que Ebert exagera em nome do humor, mas sua “Lei” se aplica duplamente em O Contador, sendo, como já apontei, óbvia em um caso e absurda em outro – e ambas as revelações são conduzidas de forma tão ridícula que acabam por inspirar o riso, o que é ressaltado pela montagem desastrosa durante uma delas, que chega a trazer um outro personagem acompanhando por monitores, com expressão incrédula, o que está acontecendo. Para piorar, a estrutura do filme é prejudicada também pelos flashbacks desajeitados incluídos ao longo da narrativa e que quebram seu ritmo.

Já a direção de Gavin O’Connor segue o padrão de seus projetos anteriores, como Guerreiro e Força Policial, oscilando entre o competente e o medíocre de uma cena para outra: gosto, por exemplo, de como ele cria quadros simétricos em torno de Ben Affleck no primeiro ato, chegando a emoldurá-lo com a janela da cozinha e refletindo, assim, sua personalidade metódica; por outro lado, trazer o agente vivido por J.K. Simmons diante de uma tela de computador que exibe o site do Departamento do Tesouro apenas para esclarecer de cara onde este trabalha é apenas tolo (particularmente, não fico com o Cinema em Cena aberto diante de mim ao longo do dia – embora encoraje todos vocês a fazê-lo). E até quando escrever em painéis de vidro ou em janelas será obrigatório para qualquer gênio visto em um filme?

Enquanto isso, Ben Affleck – que é melhor diretor do que ator – parece enfrentar dificuldades para se mostrar inexpressivo, o que é um feito admirável, esforçando-se para manter a expressão impassível até mesmo durante sequências de luta e ao ser atingido por pesados golpes, como se injeções de botox fizessem parte de algum tratamento misterioso para o autismo (e seu hábito de soprar os dedos antes de executar alguma ação é tristemente artificial). Ainda assim, Affleck é um intérprete carismático e fisicamente imponente, o que, de forma surpreendente, acaba fazendo com que seu personagem funcione mais do que deveria.

Mas talvez eu não devesse me surpreender: afinal, como poderíamos deixar de nos divertir com um super-herói cujos poderes são a mira excelente, a habilidade nas artes marciais e a contabilidade?

20 de Outubro de 2016

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Assista também ao vídeo com comentários SEM spoilers sobre o filme:

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.