Críticas por Pablo Villaça

Poster: Jovens, Loucos e Mais Rebeldes
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
19/10/2016 30/03/2016
Distribuidora
California Filmes

 

 


Jovens, Loucos e Mais Rebeldes
Everybody Wants Some!!

Jovens, Loucos e Mais Rebeldes

Dirigido e roteirizado por Richard Linklater. Com: Blake Jenner, Glen Powell, Tyler Hoechlin, Juston Street, Wyatt Russell, Temple Baker, J. Quinton Johnson, Will Brittain, Ryan Guzman, Zoey Deutch, Tanner Kalina, Austin Amelio, Forrest Vickery.

Jovens, Loucos e Mais Rebeldes, novo trabalho do cineasta Richard Linklater, é um filme construído em torno da nostalgia por uma época específica (o início dos anos 80) e por um período significativo em nossas vidas (a entrada na fase adulta). Honestamente, não sei dizer se a primeira ressoará junto aos espectadores que tenham menos de 35 anos de idade, mas o segundo provavelmente provocará fortes sentimentos de reconhecimento.

Escrito pelo próprio Linklater, o roteiro não se preocupa em seguir uma trama ou mesmo arcos dramáticos gerais, construindo a narrativa a partir de uma série de passagens envolvendo um grupo de jovens que, três dias antes do início das aulas de sua universidade, saltam de uma festa a outra enquanto pregam peças uns nos outros e tentam levar qualquer mulher que cruze seus caminhos para a cama. O propósito do diretor é claro: evocar a liberdade da juventude para ser inconsequente e estúpida e também sua facilidade para estabelecer ligações que podem até ser superficiais, mas certamente parecem indestrutíveis enquanto são construídas.

Neste aspecto, faz todo o sentido que os distribuidores brasileiros tenham traduzido o título com o intuito de fazê-lo soar como uma continuação do Jovens, Loucos e Rebeldes que o realizador lançou no início de sua fantástica carreira, em 1993: se aquela comédia era ambientada em 1976 e trazia diversos adolescentes em seu último dia no ensino médio, esta se passa em 1980 e foca sua atenção em jovens que entram na faculdade – e, para isso, ambas contam com um elenco desconhecido do grande público (e não é absurdo supor que os atores deste novo projeto sonhem em reproduzir as carreiras de alguns dos nomes presentes no “original”, como Ben Affleck, Parker Posey, Milla Jovovich e Matthew McConaughey).

Claro que este retorno do cineasta às suas origens tem virtudes e defeitos – e algumas características que podem ser vistas das duas maneiras, como, por exemplo, o fato de não só ser ambientado no início dos anos 80, mas de parecer ter sido rodado naquela época. Ora, se isto traz autenticidade ao projeto (e falarei de seus méritos neste quesito daqui a pouco), repete também alguns dos problemas esperados, como ao incluir um sexismo quase casual que infelizmente não pode ser encarado simplesmente como um retrato do passado, já que está presente na própria linguagem do filme, como podemos constatar na cena em que cinco ou seis garotas são chamadas pelos rapazes e surgem caminhando numa câmera lenta que já se tornou clichê em sua propensão a objetificar os corpos femininos. (Pensem em qualquer comercial de shampoo, perfume, lingerie, carro, bebid... ora, em qualquer comercial que envolva belas mulheres.)

Mais: as personagens femininas presentes neste longa basicamente se dividem em dois grupos, sendo vistas ou como troféus a conquistar ou como criaturas estúpidas facilmente manipuláveis (em certo momento, duas são convencidas a lutar na lama para deleite dos homens ao seu redor). Aliás, não é à toa que apenas uma delas é desenvolvida com algum (mínimo) cuidado, sendo também a única a ter seu nome (Beverly) listado nos créditos em vez de ser resumida a “Garota da Irmandade #2” e similares – e mesmo assim é importante notar que, ao ser mencionada pelo protagonista, ela é descrita como sendo “diferente” das demais, já que exibe ambições próprias, não aparece se embebedando e nem se entrega imediatamente ao sexo, o que torna hipócrita a tentativa preguiçosa do filme de soar moderno ao incluir um diálogo que afirma que “elas têm tanto direito (de transar) quanto os caras”.

O que nos traz a uma questão importante: uma obra como esta deveria ser julgada por seu ponto de vista exclusivo de homem branco cis heterossexual? Não necessariamente. Contudo, aqui isto se torna relevante por deixar a narrativa desinteressante, já que, mesmo com uma dezena de personagens, a ótica do projeto jamais parece mudar – e, com exceção de dois ou três integrantes do elenco principal, todos parecem acabar se misturando aos poucos, tornando-se difícil lembrar seus nomes ou suas características individuais depois da projeção. Sim, Finnigan (Powell, o grande destaque) se torna marcante por jamais parar de falar, Willoughby (Russell) se distancia dos demais por filosofar quando está drogado (o tempo todo) e Jake está em praticamente todas as cenas (o que é um problema, já que seu intérprete, Blake Janner, é terrivelmente inexpressivo), mas os demais são uma coletânea de bigodes, óculos gigantescos, embriaguez e fumaça.

Mas temo estar fazendo Jovens, Loucos e Mais Rebeldes parecer pior do que é – e a verdade é que o filme é bom; apenas não o suficiente para ficar no mesmo nível que a maior parte dos trabalhos de Linklater. Ainda assim, o diretor demonstra sua sensibilidade particular ao criar uma atmosfera leve e inocente que representa um alívio diante do cinismo de boa parte das produções contemporâneas – uma inocência que pode ser constatada até mesmo na docemente boba tela dividida que traz a primeira conversa entre Jake e Beverly pelo telefone. Da mesma forma, o design de produção se mostra impecável, desde os vários ambientes concebidos para ilustrar os espaços dominados por cada “tribo” até os penteados e os figurinos que nos fazem voltar no tempo com eficácia (e gosto particularmente de como é possível perceber os últimos suspiros da década anterior através dos elementos de discoteca e das calças boca-de-sino). Para completar, Linklater sempre demonstrou um gênio particular na seleção musical de seus projetos e aqui ele volta a exibi-lo com força total.

Talvez o que eu realmente lamente seja perceber como um cineasta sempre tão determinado a buscar novos caminhos desta vez pareça estar apenas repetindo passos já dados. São passos divertidos e envolventes, é verdade, mas que carecem do frescor que Linklater costuma projetar a cada nova empreitada.

Observação: há uma sequência musical durante os créditos finais.

05 de Outubro de 2016

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.