Críticas por Pablo Villaça

Poster: A Colina Escarlate
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
15/10/2015 16/10/2015
Distribuidora
Universal

 

 


A Colina Escarlate
Crimson Peak

A Colina Escarlate

Dirigido por Guillermo del Toro. Roteiro de Matthew Robbins e del Toro. Com: Mia Wasikowska, Tom Hiddleston, Jessica Chastain, Charlie Hunnam, Jim Beaver, Burn Gorman, Leslie Hope, Jonathan Hyde, Bruce Gray, Emily Coutts e Doug Jones.

Fantasmas são reais”.

Esta é a primeira frase que ouvimos em A Colina Escarlate enquanto vemos a protagonista no meio da neve e com as mãos cobertas de sangue. É uma imagem de impacto que, associada à fala que a acompanha, já expõe – caso houvesse alguma dúvida – a intenção do cineasta Guillermo del Toro de criar uma narrativa de horror e de mergulhar sua heroína e o espectador em um universo de violência e medo.

A heroína em questão é Edith (Wasikowska), cujo sobrenome – Cushing – já funciona por si só como uma referência/homenagem ao gênero tão caro ao diretor ao remeter ao astro cuja parceria com a Hammer se tornaria um marco. Sonhando em ser escritora como Mary Shelley (e rejeitando comparações com a romântica Jane Austen), Edith é uma jovem cuja mentalidade independente é encorajada pelo pai (Beaver) e que rejeita a ideia de casamento – isto é, até conhecer o misterioso aristocrata Thomas Sharpe (Hiddleston), que viaja aos Estados Unidos em busca de investimento para uma máquina que o ajudará a extrair argila vermelha de sua propriedade. Logo, os dois estão casados e vivendo na mansão da família Sharpe na Inglaterra ao lado da irmã de Thomas, a fria Lucille (Chastain). Aos poucos, porém, Edith constata que sua paixão pelo marido pode ter impedido que visse algo assustador ao seu respeito: um passado que os fantasmas da mansão se encarregam de expor.

Escrito por del Toro ao lado de Matthew Robbins (seu parceiro em Mutação), A Colina Escarlate é um projeto que veste suas ideias de modo claro, explorando simbolismos e arcos narrativos através de seus cenários, figurinos e fotografia, que criam, digamos, um mundo “technicolor gótico”. É notável, por exemplo, como a lógica visual dos figurinos se mostra consistente ao longo da projeção: se Thomas já surge todo coberto de preto e Lucille, de vermelho (cores que sugerem violência, perigo e ameaça), Edith aparece coberta com os mesmos dourados e marrons que remetem não só à sua fortuna, mas ao jeito aconchegante com que encara seu lar e sua vida (como criatura “pura”, ela também veste branco, obviamente). No entanto, assim que chega à Inglaterra, a garota já traz o roxo simbólico da morte em seu vestido – e mesmo quando aparece com os dourados que a marcavam, a jovem exibe também detalhes preto em suas roupas, já que agora foi contaminada pelo universo sombrio dos Sharpe. Da mesma maneira, é interessante perceber como Thomas e Lucille frequentemente dividem tons similares em suas vestimentas, que, com isso, transformam a dupla em uma unidade ameaçadora.

Ainda assim, se há um elemento que praticamente assegura indicações a todos os prêmios da área, este é mesmo a imensa mansão concebida pelo designer de produção Thomas E. Sanders: impressionando já em seu saguão colossal que, opressivo e situado abaixo de um rombo no teto, é constantemente palco de chuva de folhas secas ou de tempestades de neve, dependendo da estação do ano. Enquanto isso, pintadas num verde triste e sufocante, as paredes do lugar se contrapõem de forma marcante aos dourados que acompanham Edith e ao vermelho que, como não poderia deixar de ser, logo se torna frequente na narrativa – e é fascinante notar, também, detalhes como os grandes espinhos de madeira que se projetam dos arcos sobre os corredores e que contribuem para que percebamos ainda mais os riscos que a heroína vive. O que nos traz, finalmente, ao conceito fantástico (em diferentes acepções da palavra) da argila vermelha que vaza do solo e, durante o inverno, tinge o terreno em torno da mansão, justificando o título e representando fisicamente o perigo que envolve Edith.

Escancarando o tom fabulesco da obra ao empregar íris que se abrem ou fecham em diferentes pontos da narrativa e até mesmo através do livro que vemos no início da projeção, del Toro se mostra mais interessado em criar uma atmosfera de terror do que em dar sustos no espectador – um propósito que a própria personagem de Wasikowska explica ao dizer que não escreve “histórias de fantasmas, mas sim histórias com fantasmas”. Assim, o cineasta busca o desconforto do público através de momentos como aqueles que trazem Lucille raspando a colher na borda de uma xícara ou Edith diminuída pela imensa poltrona na qual se senta em um instante maior de fragilidade. De forma similar, é revelador como o diretor encerra esta última cena com um movimento de câmera que parece esmagar a garota no canto do quadro e que repete outro no qual esta, ao ser abraçada por Thomas, também é empurrada por uma rápida panorâmica na mesma direção.

Enquanto isso, os fantasmas retratados por del Toro ecoam, de forma consistente, o espírito visto no fabuloso A Espinha do Diabo, parecendo sempre soltar uma fumaça de ectoplasma e trazendo as marcas do ato que causaram suas mortes. Provocando arrepios em seus movimentos quebrados (obra de Doug Jones, outro velho parceiro do realizador), estas criaturas soam mais ameaçadoras quando entrevistas rapidamente ou quando cobertas por sombras – e é uma pena, portanto, que frequentemente as vejamos em closes que expõem toda sua concepção digital. De todo modo, vale repetir que o filme busca despertar incômodo, não saltos na poltrona (ao menos, não na maior parte do tempo).

Ancorado por uma performance precisa de Mia Wasikowska, que sugere a vulnerabilidade de Edith sem transformá-la numa mocinha incapaz, já que se mostra inteligente e capaz de se defender quando necessário, A Colina Escarlate também tem, como trunfo, a composição surpreendentemente complexa de Tom Hiddleston, que é hábil ao evitar as armadilhas do gênero, conseguindo a proeza de evocar tristeza e romantismo mesmo quando deveríamos apenas detestar ou temer seu personagem. E se Jessica Chastain projeta a obsessão crescente e assustadora de Lucille, Charlie Hunnam desempenha bem seu limitado papel de sujeito-que-percorre-distâncias-para-tentar-ajudar-a-mocinha, parecendo nobre e patético ao mesmo tempo. (Para completar, quero só apontar como Burn Gorman, que vive o investigador Holly, parece estar incorporando Hugo Weaving ao criar a voz e as inflexões de fala do sujeito.)

Mesmo não se equiparando a O Labirinto do Fauno e A Espinha do Diabo (e não são muitos filmes que conseguem isso), A Colina Escarlate é claramente obra de um artista fascinado por histórias de terror e que sente imenso prazer não só em contá-las, mas em concebê-las com carinho ímpar e cuidado admirável com os detalhes.

E considerando como o gênero costuma abrigar tantos diretores preguiçosos que preferem apostar mais na trilha para provocar sustos do que em sua própria habilidade de construí-los através de uma narrativa coesa, é difícil não admirar um filme tão ambicioso.

13 de Outubro de 2015

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.