Críticas por Pablo Villaça

Poster: O Lagosta
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
11/10/2015 22/10/2015
Distribuidora

 

 


O Lagosta
The Lobster

O Lagosta

Dirigido por Yorgos Lanthimos. Roteiro de Lanthimos e Efthymis Filippou. Com: Colin Farrell, Léa Seydoux, Ben Whishaw, John C. Reilly, Olivia Colman, Jessica Barden, Ashley Jensen, Angeliki Papoulia, Ariane Labed e Rachel Weisz.

Primeiro filme em língua inglesa do cineasta grego Yorgos Lanthimos, responsável pelo ótimo Dente Canino, The Lobster é um filme estranho como aquele, mas ainda mais ambicioso. É também bem mais acessível ao público desacostumado com a linguagem (e o estilo chocante) de obras como Miss Violence e O Garoto que Come Alpiste, o que não significa que seja, por isso, menos interessado em discutir temas igualmente complexos.

Escrito por Lanthimos ao lado de seu parceiro habitual Efthymis Filippou, o roteiro se passa em um mundo distópico no qual pessoas solteiras são obrigadas a se hospedar em um imenso resort, tendo 45 dias para encontrar novos parceiros, sendo transformadas em algum animal de sua escolha caso não consigam. (Sim, você leu corretamente.) É nesta situação que se encontra o triste David (Farrell), que, trocado pela esposa, chega ao hotel onde conhece o Homem com a Língua Presa (Reilly) e o Homem Manco (Whishasw), que, por sua vez, tentam avaliar suas chances com a Mulher com Nariz que Sangra (Barden), a Mulher do Biscoito (Jensen) ou mesmo com a Mulher Sem Coração (Papoulia).

Como é possível observar pelos “nomes” dos personagens, The Lobster assume um tom fabulesco desde o princípio, ressaltando-o através da narração que, surgindo na voz de Rachel Weisz, se encarrega até mesmo de descrever ações que já estamos vendo na tela e os sentimentos do protagonista. Um dos elementos curiosos do projeto, aliás, é perceber como a natureza desta narradora vai sendo revelada aos poucos, permitindo que compreendamos gradualmente qual seu interesse exato e seu papel na história que conta ao espectador.

Intrigante ao dedicar atenção aos menores detalhes do universo que concebe, o filme enriquece a narrativa ao explicar como os hóspedes do hotel podem ganhar mais dias de prazo (caçando rebeldes chamados de Solitários), ao encenar lições idealizadas para ressaltar como é importante ter um parceiro e ao demonstrar como os funcionários excitam os clientes apenas para que estes tenham maior motivação para encontrar um companheiro. Além disso, Lanthimos obviamente se diverte ao criar cenas como as que trazem todos vestindo roupas idênticas ou explicando suas características “marcantes” para os demais.

Nestes instantes, o senso de humor absurdo do diretor constantemente surpreende o público – e a justificativa seca para a adoção de crianças como forma de resolver conflitos conjugais é apenas um dos vários exemplos de piadas excelentes que ainda funcionam como um ácido comentário sobre a natureza disfuncional de tantos relacionamentos. Além disso, The Lobster traz Colin Farrell afiadíssimo, já que é responsável por levar a plateia ao riso apenas com suas expressões de confusão ou mesmo dor ao ter que optar por se identificar como “hetero” ou “homossexual” e ao se esforçar para simular uma compatibilidade que não existe com parceiras em potencial.

Pois não é à toa que os personagens são definidos por algumas de suas características físicas; naquele universo, os indivíduos são constantemente reduzidos a um único elemento de seu físico ou personalidade – o que, convenhamos, não é tão diferente assim da forma como muitas vezes julgamos e somos julgados em nosso cotidiano (e não é à toa que uma das primeiras perguntas que fazemos ao conhecer alguém é “O que você faz?”, como se esta fosse a maneira mais fácil de compreendermos o tipo de pessoa que temos à nossa frente). Além disso, a necessidade imperativa de se ter um companheiro é certamente algo que encontra eco no mundo real, bem como certa tendência de descartarmos certas possibilidades amorosas por acharmos que “merecemos mais” – e basta constatar como muitos daqueles vistos em The Lobster preferem o destino de animais (já que ao menos poderão encontrar um novo parceiro da mesma espécie) do que um envolvimento com alguém que não seja totalmente “compatível”.

É apenas natural, portanto, que praticamente todos os personagens do longa se comuniquem com uma entonação mecânica e sem vida, já que o sentimento autêntico e a impulsividade parecem ter se perdido naquele universo. Além disso, o tom tristonho da narrativa é ressaltado pela trilha de cordas que oscila entre o solene e o melancólico – e também não é por acaso que Lanthimos e o diretor de fotografia Thimios Bakatakis usam tão poucos closes, mantendo-nos tão afastados daquelas pessoas quanto elas se mantém umas das outras.

Elevando a expressão “o amor é cego” a um novo patamar graças à ironia belissimamente construída pelo excepcional roteiro, The Lobster é um filme atípico que certamente merece ser lembrado nas premiações de fim de ano.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Cannes 2015.

15 de Maio de 2015

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.