Críticas por Pablo Villaça

Poster: Que Horas Ela Volta?
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
27/08/2015 28/08/2015
Distribuidora
Pandora

 

 


Que Horas Ela Volta?
The Second Mother

Que Horas Ela Volta?

Dirigido e roteirizado por Anna Muylaert. Com: Regina Casé, Camila Márdila, Karine Teles, Lourenço Mutarelli, Michel Joelsas, Helena Albergaria, Theo Werneck, Luci Pereira.

É, o país está mudando mesmo...”, diz a patroa de Val (Casé) ao descobrir que a filha desta prestará vestibular para Arquitetura. O revelador, no entanto, é perceber como seu tom de voz exibe não exatamente admiração, mas um certo ressentimento. Caso houvesse dito “Isso está ficando perigoso...”, a inflexão de sua voz seria exatamente a mesma.

Não que “dona” Bárbara (Teles) seja má pessoa, pois não é: dentro dos limites do que considera socialmente aceitável, é carinhosa e gentil com a empregada que serve a família há mais de uma década e que praticamente se tornou “uma segunda mãe” para seu filho Fabinho (Joelsas), que confidencia frustrações e sonhos para a mulher que passa mais tempo ao seu lado do que aquela que o gerou. Mais uma das milhões de pessoas que no passado migraram do Nordeste para São Paulo em busca de uma vida com melhores possibilidades, Val parece perfeitamente confortável com seu papel na família, embora obviamente sinta saudades da filha que teve que deixar para trás e para a qual envia parte de seu salário todos os meses – o que não impediu que o relacionamento se fraturasse, já que não se veem há dez anos. Assim, quando Jéssica (Márdila) informa que está indo para São Paulo a fim de prestar vestibular, Val enxerga ali a oportunidade de recuperar o convívio com a filha, que – imagina ela – passará a dividir seu apertado quartinho ao lado da lavanderia.

Escrito e dirigido por Anna Muylaert, Que Horas Ela Volta? é inteligente ao abrir a narrativa familiarizando o público com o cotidiano de sua protagonista, que surge fazendo todo tipo de serviço doméstico: arrumando a casa, lavando roupas, regando o jardim, preparando o almoço e passeando com o cachorro. Ao fim do dia, exausta, Val se deita em uma cama estreita ao lado do criado-mudo que traz a foto de sua filha e, no fim de semana, pega o ônibus para encontrar amigas na periferia enquanto espera a hora de retomar a labuta.

Trata-se, claro, de uma daquelas relações “profissionais” que eram tão comuns no Brasil até há cerca de 15 anos: as famílias de classe média para cima tinham, como parte de seu núcleo, uma empregada que “dormia no trabalho” e que era “quase da família” – mas uma “quase parente” que dormia no quarto minúsculo dos fundos, almoçava depois dos patrões e que podia ser chamada a qualquer hora para limpar algo derramado ou para levar um copo de leite na cama para o patrão. Uma realidade na qual moças de 14, 15 anos eram trazidas do interior do país a fim de morar/trabalhar em regime de quase escravidão – mas uma escravidão “humanizada”, de liberais.

Afinal, elas passavam a – quase – fazer parte da família.

A Val de Regina Casé é, neste sentido, mais do que uma personagem, mas um símbolo de uma época, de uma dinâmica que durou séculos (e que não se extinguiu completamente, é importante apontar). É mais velha e mais experiente, mas respeitosamente chama a jovem patroa de “dona” e “senhora”. É “quase da família”, mas seus patrões não sabem sequer o nome de sua filha e mal parecem escutá-la quando tenta discutir algo pessoal. Isto, porém, não frustra ou revolta Val – e a beleza da interpretação de Casé reside nesta importante constatação: para ela, os patrões estão agindo exatamente como deveriam; ela sabe que sua posição de “quase” parente é uma cortesia, um gesto de gentileza. Ou melhor: uma “cortesia”, um “gesto de gentileza”. Ao servir os convidados de sua patroa em uma festa – um trabalho pelo qual certamente não receberá adicional algum -, ela é apenas uma bandeja flutuante, jamais sendo reconhecida por aqueles que certamente reconhecem a artificialidade de sua condição de “integrante da família”.

A pessoa já nasce sabendo (sua posição)”, explica Val à filha em certo ponto. “Quando eles oferecem alguma coisa deles, é por educação; eles sabem que vamos dizer ‘não’”, ela ensina sem – de novo – qualquer traço de ressentimento. Ao mesmo tempo, Casé confere imenso calor humano à personagem e mesmo ternura pela família à qual serve – e é tocante, por exemplo, ouvi-la dizer a Jéssica que os patrões “estão doidos” para conhecê-la, num misto de auto ilusão e pura inocência que a tornam simultaneamente adorável e trágica. Da mesma maneira, o carinho que ela exibe por Fábio jamais deixa de soar genuíno, o que diz infinidades sobre sua necessidade de depositar seu dom maternal em algum lugar.

Ainda assim, os instantes mais comoventes da performance de Casé – e que ilustram seu imenso dom – são aqueles nos quais ela comunica sentimentos complexos através do humor ou de pequenas mudanças em sua expressão. Um exemplo do primeiro é aquele no qual desabafa sobre suas frustrações sobre a filha, mas repreende a amiga que também tenta criticar a menina; já o segundo pode ser percebido na cena em que seu patrão (Mutarelli) a elogia por ter criado Jéssica tão bem e, depois de um sorriso de agradecimento, ela deixa a felicidade e o orgulho escaparem de seu rosto ao se lembrar de que esteve ausente durante a maior parte da existência da garota. Além disso, vê-la sempre dividida entre o condicionamento servil de toda uma vida e as posições desafiadoras de Jéssica é algo que leva o espectador a querer oferecer um abraço de conforto a Val.

Pois o fato é que se Val é um símbolo de um passado recente, sua filha Jéssica, interpretada pela surpreendente e talentosa Camila Márdila, é o retrato de um Brasil que mudou muito e rápido e no qual “a filha da empregada” passou a sonhar com algo mais do que simplesmente ser indicada pelos patrões da mãe para trabalhar na casa de alguma família amiga. Inteligente, ambiciosa e consciente de seus direitos e possibilidades, Jéssica se choca ao descobrir que a mãe passou todos aqueles anos dormindo em um quarto mínimo cuja única janela abre não para o exterior, mas para a lavanderia (“Se abrir, não vai refrescar, só vai entrar mosquito”). Ao contrário de Val, Jéssica não cresceu num mundo de hierarquias e categorias sociais-econômicas rígidas e imutáveis; sim, alcançar seus objetivos exige um trabalho infinitamente maior e envolve probabilidades bem menores de sucesso, mas não é algo que se encontra mais fora da realidade.

E é isto que os patrões de Val parecem não compreender: enquanto Carlos é interpretado por Lourenço Mutarelli como um homem aparentemente desinteressado do mundo ao seu redor (já que, como herdeiro de uma fortuna, nunca precisou se envolver ativamente com nada, desistindo até mesmo de suas aspirações artísticas ao primeiro sinal de contrariedade), Bárbara é encarnada por Karine Teles como uma fashion designer que prega que “cada um faz seu estilo”, mas que se encolhe de pavor ao ver a empregada tentando servir os convidados com o conjunto de xícaras que comprou de presente para a patroa. E se é revelador perceber como Carlos imediatamente exibe uma atitude quase de posse diante de Jéssica, ocultando seu instinto de macho predador atrás de uma fachada de melancólico sonhador, não menos sintomático é notar como Bárbara mostra repugnância diante da ideia de ver a garota mergulhando na piscina da família, seguindo a mesma lógica de tantos patrões que demonstram nojo caso seus empregados usem algum sanitário diferente daquele localizado no fundo da casa.

Neste aspecto, a lógica visual concebida por Muylaert e pela ótima diretora de fotografia Barbara Alvarez é fundamental também ao levar o espectador a enxergar o mundo através da perspectiva de Val – e não é à toa que constantemente vemos o restante da casa a partir da porta da cozinha, como se o mundo da protagonista se limitasse àquele batente - e são particularmente eficientes os planos que trazem Carlos olhando Jéssica da sala enquanto esta se encontra à mesa da cozinha e também aqueles que revelam Val e sua amiga Edna (Albergaria, do ótimo Trabalhar Cansa) numa coreografia divertida enquanto escutam, tensas, a conversa entre Carlos e Jéssica na sala de jantar. Aliás, igualmente encantador é reparar como Casé surge constantemente do lado esquerdo do quadro (ao observar a amiga em um bar; ao ser repreendida pela filha enquanto estão deitadas; ao aproveitar o sol num intervalo do trabalho) apenas para ser deslocada para o lado direito, esteticamente mais forte, ao finalmente demonstrar outras ambições. (E a cena que traz Casé na piscina é, desde já, uma das mais lindas de 2015.)

Estabelecendo-se como um filme que, como dizia Eric Rohmer, acaba funcionando também como um “documento de sua época”, Que Horas Ela Volta? é um estudo de personagem e, não menos importante, de um país em mudança. É uma obra que aponta a contradição entre uma elite que se julga generosa e liberal, mas conversa em inglês diante dos subalternos quando não quer ser compreendida por estes. É um longa que sabe como é positivo que a filha da empregada não “saiba seu lugar”.

É, enfim, o reconhecimento de que só não haverá luta de classes quando finalmente percebermos que dividir a humanidade por status econômico é algo que já deveria pertencer ao esgoto da História.

29 de Agosto de 2015

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.