Críticas por Pablo Villaça

Poster: Homem-Aranha
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
17/05/2002 03/05/2002
Distribuidora

 

 


Homem-Aranha
Spider-Man

Homem-Aranha

Dirigido por Sam Raimi. Com: Tobey Maguire, Willem Dafoe, Kirsten Dunst, James Franco, Rosemary Harris, Cliff Robertson, J.K. Simmons, Bill Nunn e Bruce Campbell.

Sempre que alguém fala sobre o Homem-Aranha, acaba argumentando que este é o super-herói mais `real` dos quadrinhos – o que o torna tão querido pelos fãs. É mais fácil estabelecer uma ligação com um jovem inseguro que não sabe como conversar com a garota que ama do que se identificar com um alienígena do planeta Krypton ou com um milionário que construiu uma caverna equipada com computadores de última geração.

E isto é fato. Aliás, eu havia decidido que não escreveria sobre este `apelo universal` do Homem-Aranha justamente por achar que seria desnecessário, já que todos ouviram (ou leram) este tipo de constatação antes. Porém, fui obrigado a voltar atrás em minha resolução quando, em certo momento do filme inspirado nas aventuras do personagem, vi Peter Parker oferecer um lanche a Mary Jane Watson, sua amada, desde que este custasse, no máximo, sete dólares. Ora, ali está um sujeito capaz de `voar` sobre os céus de Nova York e que passa a vida enfrentando supervilões e, no entanto, ele não tem dinheiro suficiente para pagar um jantar para a garota que está tentando conquistar... Como ignorar isso? Como não simpatizar com um super-herói que vai de ônibus para o trabalho?

Felizmente, o roteirista David Koepp e o cineasta Sam Raimi foram respeitosos o bastante para manter, em O Homem-Aranha, todos os elementos que ajudaram a transformar o fotógrafo Peter Parker em um dos personagens mais adorados da Marvel. É fascinante, por exemplo, vê-lo desenhar o próprio uniforme em seu quarto. É comovente testemunhar seu sofrimento ao perceber que, de uma certa maneira, acabou sendo responsável pela morte de uma pessoa a quem amava. Apesar de produzir teias poderosas, de ser capaz de escalar paredes lisas e de possuir um `sexto sentido` invejável, Peter é um jovem como outro qualquer. E este é, sem dúvida, o maior atrativo do filme comandado por Raimi e também a maior virtude do desempenho de Tobey Maguire.

Enquanto isso, Willem Dafoe assume o papel de Norman Osborn com uma seriedade mais do que apropriada: mesmo depois que seu personagem se transforma no vilão Duende Verde, o ator consegue evitar a tentação do exagero (que derrubou o competente Tommy Lee Jones em Batman Eternamente) e, com isso, confere um peso dramático significativo ao milionário (o que também se aplica ao ótimo Magneto vivido por Ian McKellen em X-Men). De certa forma, Norman é apenas mais uma vítima do Duende Verde – e seu carinho pelo filho, Harry, leva o espectador a torcer para que, de uma forma ou de outra, ele consiga se livrar de sua `maldição` (e, em certo momento, Dafoe tem um `monólogo` brilhante em frente a um espelho). Minha única ressalva diz respeito ao Duende em si, que praticamente se limita a soltar risadinhas sádicas sempre que aparece – com exceção de uma única cena, quando conversa com o Homem-Aranha de uma forma tão displicente que se torna impossível não admirá-lo.

Aliás, o mesmo se aplica ao editor do Clarim Diário, J. Jonah Jameson, que aparece em pouquíssimas cenas: seu mau humor e sua `frieza profissional` são retratados de forma tão inspirada pelo ator J.K. Simmons, que somos imediatamente levados a simpatizar com o personagem (que, justiça seja feita, ao menos mantém a ética ao não revelar suas fontes quando é pressionado pelo vilão). Pra finalizar, Kirsten Dunst cria uma Mary Jane Watson adorável e que foge do estereótipo da `mocinha em apuros`: apesar de estar sempre precisando da ajuda do Homem-Aranha, MJ é uma garota humilde que luta para vencer como atriz e que tem de enfrentar a violência do próprio pai.

Agora vejam que interessante: estamos falando de um filme de ação protagonizado por heróis e vilões grandiosos e, no entanto, até agora discuti apenas os personagens – o que é um ótimo sinal, já que evidencia o cuidado de Sam Raimi com o universo criado por Stan Lee e Steve Ditko. Mas os fãs do gênero podem ficar tranqüilos: O Homem-Aranha também funciona muito bem quando seu herói parte para a ação. Além disso, a direção de arte do filme é maravilhosa, funcionando como um curioso contraponto a Batman (que também era fantástico neste aspecto), já que o modernismo desta Nova York cinematográfica, com seus painéis eletrônicos e seu visual tecnológico, é diametralmente oposto ao pesadelo gótico visto no trabalho de Tim Burton (e, coincidência ou não, ambas as histórias trazem um confronto entre o herói e o vilão durante um evento público enfeitado por balões gigantescos).

Infelizmente, nem tudo é perfeito em O Homem-Aranha: apesar da primeira hora de projeção ser fascinante, já que mostra Peter descobrindo seus poderes, a outra metade da história cai um pouco no lugar-comum, não permitindo que os personagens continuem a `crescer` (é sintomático, por exemplo, que o Homem-Aranha jamais se torne tão simpático quanto Peter Parker, já que seu bom humor – uma das características mais marcantes do herói – praticamente não existe no roteiro de Koepp). Da mesma forma, incomoda bastante o fato da máscara do personagem jamais se mover durante suas falas, como se sua mandíbula estivesse paralisada (a máscara do Duende Verde também não é muito funcional, diga-se de passagem, embora ao menos permita que vejamos os olhos de Dafoe).

É importante observar, também, que a trilha composta por Danny Elfman é decepcionante - o que é uma surpresa, já que seus trabalhos anteriores (especialmente em parceria com Tim Burton e com o próprio Sam Raimi) sempre foram exemplares. O que faltou, desta vez, foi um tema para o personagem – algo que pudéssemos assobiar na saída do cinema.

O Homem-Aranha é um ótimo filme, mas não tão consistente quanto X-Men ou o primeiro Superman. Peter Parker é, sem dúvida, um personagem fabuloso e adorável. Falta, agora, fazer o mesmo com seu heróico alter-ego. E é por isso que mal posso esperar pela continuação.
``

15 de Maio de 2002

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.